


Famlia Donovan - Livro 4:
Enfeitiado - Liam
Nora Roberts
Ttulo original: Enchanted

Traduzido e revisado por Projeto_romances
projeto_romances@yahoo.com.br

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     Prlogo
      Negro como a noite, o lobo corria sob a lua cheia. Corria pelo seu prazer e solitrio, atravs das rvores, das sombras escuras do bosque, da magia noturna.
      O vento marinho assobiava canes antigas, aoitava os pinheiros, enchia o ar com sua fragrncia. Pequenas criaturas de olhos brilhantes se escondiam e olhavam 
a bala predadora que corria uivando atravs do nevoeiro que envolvia o solo. 
      Sabia que eles estavam ali, podia cheirar, ouvir a batida temerosa de seus coraes. Mas essa noite no estava atrs de caa, somente da prpria noite. No 
corria acompanhado, sua nica parceira era a solido. 
      Uma inquietude o consumia. Na procura de paz e sossego, o lobo conquistava o bosque, subia as colinas, rodeava os descampados, mas nada o aliviava nem o satisfazia. 
      Quando o caminho comeou a inclinar-se e as rvores se espaarem, reduziu a velocidade e cheirou o ar. 
      Tinha algo... algo que o seduzia e impulsionava a subir at as colinas  do Pacfico.
      Subiu as rochas com deciso e aguou a vista procurando, explorando. Ali, naquele ponto onde as ondas se quebravam e a lua brilhava branca e cheia, ergueu 
a cabea e uivou. Ao mar, ao cu,  noite. 
       magia. 
      O som ressoou, expandiu-se, encheu a noite com sua pergunta, com um poder to natural como respirar. E os sussurros que lhe responderam disseram que se aproximava 
uma mudana. Era o destino. De novo, o lobo de olhos dourados ergueu a cabea e ouviu novamente. Queria saber mais, era importante. Em algum lugar do horizonte um 
relmpago rompeu a noite com um reflexo branco e cegador. Depois, s um segundo mais tarde, pde-se ouvir a resposta.
       O amor se aproxima.
       A magia flutuou no ar, danou sobre o mar a gargalhadas. O cu se encheu de estrelas. E o lobo observou, escutou. Inclusive quando regressou para as  espessas 
sombras do bosque, a resposta o perseguiu. 
      O amor se aproxima.
       A inquietude que o consumia lhe acelerou o corao, lanou-se disparado por entre as rvores, rasgando o nevoeiro a cada passo. O sangue fervia, virou  esquerda, 
para o suave brilho das luzes. A janela de um refgio lhe dava as boas vindas. Os sussurros da noite emudeceram. Enquanto subia as escadas, uma nuvem branca o envolveu, 
resplandeceu uma luz azulada. E o lobo se converteu em homem.
      
     Captulo 1
      Quando Rowan Murray divisou a choupana, sentiu uma mistura de alvio e temor. Aliviada por ter terminado a longa viagem que a tinha conduzido desde So Francisco 
at aquele refgio da costa do Oregon. Isso tambm lhe deu medo. Estava ali. Tinha feito. 
      O que faria agora? 
      O mais prtico a fazer seria sair do carro, abrir a porta e dar uma olhada no lugar que seria seu lar durante os prximos trs meses. Desfazer as malas, preparar 
um ch e tomar um banho. 
      Sim, isso era o melhor a se fazer, disse a si mesma, sentada no assento dianteiro de seu novo Range Rover,apertando o volante com fora.
      Estava s. Absolutamente s. 
      Era o que queria, o que precisava. O que tinha procurado fazia meses. Por isso, quando lhe tinham oferecido a choupana,  agarrara-a como um nufrago a uma 
tbua. Agora que estava ali, no se atrevia nem a sair do carro. 
      -No seja tola, Rowan - sussurrou ao mesmo tempo em que fechava os olhos. -No seja covarde.
       Permaneceu sentada reunindo coragem por algum tempo. Era uma mulher baixa, esbelta, de cabelo liso e castanho. O levava preso em um rabo de cavalo por uma 
presilha. De nariz longo e afilado, tinha uma boca ligeiramente larga para o rosto triangular. Seus olhos, cansados, depois de horas conduzindo, eram de um azul 
escuro e profundo... 
      Olhos de elfo costumava dizer seu pai. Pensando nisso, sentiu brotar algumas lgrimas nos olhos.
       Tinha-o decepcionado. E tambm a sua me. A culpa lhe pesava no peito como uma pedra de granito. No tinha sido capaz de explicar com clareza por que no 
tinha querido seguir o caminho que, com tanto cuidado, seus pais tinham traado. Mas cada passo que tinha dado por aquele caminho a tinha feito se sentir infeliz, 
segura de estar se afastando do lugar em que necessitava estar.
       Afastando-a do que precisava ser. 
      Assim, tinha acabado fugindo. Ainda que no exatamente. Era demasiado organizada para jogar tudo para o alto e correr como uma ladra no meio da noite. Tinha 
traado um plano e tinha seguido os passos concretos...que a tinham afastado da casa, da carreira e  de sua famlia. De um amor que a estava asfixiando como se tivesse 
mos para lhe tampar o nariz e a boca. Ali, nessa choupana, seria capaz de respirar, de pensar e decidir. E talvez, apenas talvez, conseguiria compreender o que 
lhe impedia ser o que todos esperavam dela.
      Se no final descobrisse que estava equivocada e todos os demais tinham razo, estava disposta a assumi-lo. Mas antes, queria trs meses para ela. Abriu os 
olhos, olhou e relaxou. Era uma paisagem bela. As rvores se elevavam majestosas para o cu, o sol brilhava entre a folhagem e mesmo choupana resplandecia sob o 
sol. O alpendre parecia ideal para se sentar durante as manhs preguiosas ou os plcidos entardeceres. 
      Alm disso, j estava notando os primeiros sinais da primavera. 
      Ainda que fizesse frio. Belinda tinha recomendado que comprasse uma manta e a tinha avisado de que a primavera demoraria ainda para chegar nesse pequeno pedao 
do mundo.
      Acenderia a lareira, disse Rowan. Um dos lugares favoritos da casa de seus pais era a lareira do salo, sempre crepitante e acolhedora quando o frio caa rigoroso 
sobre a cidade. 
      Sim, acenderia o fogo quando se instalasse, prometeu-se Rowan. Para dar s boas vindas  sua nova casa. Mais calma, abriu a porta e desceu do automvel. Quebrou 
um graveto com as botas e o som a assustou um pouco. Depois se ps a rir. Moveu as chaves para fazer rudo enquanto se dirigia  choupana. Subiu os dois degraus 
do alpendre, introduziu a chave na fechadura, respirou profundo, abriu... e se apaixonou.
      - Que maravilha! - exclamou sorridente - Belinda, amo voc. 
      As paredes estavam decoradas com alguns dos quadros pelos quais sua amiga era famosa, a lareira estava limpa e tinha uma pilha de lenhas esperando para arder, 
o cho estava coberto por tapetes coloridos, os mveis compartilhavam sua beleza e singeleza e havia vrias almofadas cor esmeralda, turquesa e rubi. Para completar 
o conto de fadas, havia esttuas de drages, magos, cumbucas cheias de pequenas pedras, cristais e flores secas. Rowan subiu as escadas, cheia de entusiasmo, e continuou 
sorrindo ao descobrir os dois espaosos cmodos no andar superior.
      Um deles, muito iluminado, era a sala que sua amiga usava quando ia ao refgio, como provavam o cavalete, os lenos, pincis e paletas de pintura que estavam 
 vista. Tinha candelabros de prata, cristais em vrios formatos de estrelas e uma bola tambm de cristal. O dormitrio a encantou. Tinha uma cama enorme, uma lareira 
pequena para aquecer, uma penteadeira e um armrio de madeira. Respirava-se paz. Sim, ali sim podia respirar, pensou Rowan contente. Por alguma estranha razo, teve 
a sensao de que poderia criar razes naquele bosque. Desejosa por se instalar, desceu as escadas, saiu da choupana e foi para o carro. Tinha agarrado a primeira 
mala do porta-malas quando a pele da nuca se arrepiou.
      De repente, o corao lhe golpeou o peito com fora e as palmas se umedeceram de suor. Girou o corpo a toda velocidade e ficou boquiaberta. 
      O lobo era negro, com olhos brilhantes como moedas de ouro. E estava entre as rvores, quieto como uma esttua, observando-a. Rowan no podia fazer nada, a 
no ser olhar ao animal. Por que no gritava? - perguntou-se - Por que no se punha a correr? 
      Sobretudo, por que estava mais surpresa que assustada? Tinha sonhado com ele? Estava recordando um sonho no qual um lobo se aproximava dela no meio do nevoeiro? 
Mas isso era ridculo. Ela nunca tinha visto um lobo fora de um zoolgico. E, mesmo assim, tinha certeza que no tinha visto nenhum que a olhasse dessa maneira. 
      - Oi - o saudou com naturalidade. 
      Depois riu, pestanejou e, ao abrir os olhos, o lobo tinha desaparecido. 
      Por um momento, teve a sensao de estar saindo de um transe. Quando por fim sua cabea voltou para o lugar, olhou para as rvores a procura de algum movimento, 
de alguma sombra ou algum rastro. 
      Mas, no tinha nada mais que o silncio. 
      - J estou imaginando coisas - reprovou-se enquanto carregava a caixa. Se ali tinha algo, no era mais do que um cachorro. Os lobos eram animais noturnos, 
no eram? No se aproximavam das pessoas daquele jeito, para ficarem quietos olhando e depois desaparecendo. Mas estava segura que tinha sido um lobo. No entanto, 
Belinda no tinha falado nada sobre um lobo. 
      Como no tinha dito que possua algum vizinho por perto. Era estranho, por outro lado, que no tivesse perguntado  ela se no os tinha. 
      Em fim, era evidente que tinha um vizinho nos arredores e que possua um cachorro grande e negro. Sups que poderiam se manter afastados um do outro.  
      
      O lobo olhava pelas sombras das rvores. Quem era essa mulher? Por qu era uma mulher? Movia-se com pressa, um pouco nervosa, lanando algum olhar para trs 
enquanto levava seus pertences do carro  choupana. 
      Tinha sentido seu odor a mais de quinhentos metros de distncia. Tinha sentindo seus temores, sua ansiedade e seus desejos. E tinha seguido seu cheiro.  Apertou 
os dentes irritado e desafiante. Negava-se a ir at ela. No podia deixar que essa mulher o mudasse ou mudasse o que queria. Deu meia volta em silncio e desapareceu 
entre as rvores.
      Rowan acendeu um fogo e foi organizando a bagagem enquanto as chamas flamejavam na lareira. No tinha muitas coisas na realidade. Uma parte do que trouxera 
era roupas. A maioria das caixas estavam lotadas de livros. Livros dos quais no podia se separar, livros que tinha prometido ler. Livros de estudo e livros de lazer. 
Tinha desenvolvido um grande gosto pela leitura, por explorar novos mundos por meio das palavras escritas. E era esse amor to grande o que a fazia questionar com 
freqncia seu trabalho de professora. 
      Seus pais sempre a tinham animado a ser professora. Ela sempre tinha tido facilidade para aprender. Tinha tirado boas notas na escola, tinha se graduado na 
universidade e depois tinha realizado um mestrado em Didtica e Pedagogia. Aos vinte e sete anos, j estava h seis ensinando. E o fazia bem, pensou enquanto bebia 
um pouco de ch em uma xcara.  Localizava os pontos fortes e fracos de seus alunos, sabia captar seu interesse e faz-los participar, desafi-los.
      Mas mal avanava com o doutorado. Acordava cada manh vagamente insatisfeita e regressava a casa descontente todas s tardes. Porque no amava o ensino. Quando 
tinha tentado explicar as pessoas que a amavam, essas tinham ficado perplexas. Seus alunos a apreciavam e respeitavam, os colegas do colgio tambm a valorizavam. 
Por que no se doutorava, casava-se com Alan e levava uma vida ordenada como devia? 
      Era isso mesmo se perguntava Rowan. E a nica resposta que tinha estava em seu corao. 
      Decidiu sair a dar um passeio para relaxar e fazer uma idia de onde estava. Queria ver os rochedos que Belinda tanto tinha falado. Prendeu a porta com tranca, 
respirou fundo e aspirou  fragrncia dos pinheiros e do mar. Recordou o desenho que sua amiga tinha feito da choupana, do bosque, das encostas de onde se podia 
ver o mar. Ps de lado suas dvidas e seus nervos e comeou a andar. 
      Nunca tinha vivido fora da cidade. Crescer em So Francisco no a tinha preparado para a amplido do bosque de Oregon, para seus cheiros e seus sons. Ainda 
assim, pouco a pouco conseguiu relaxar. Os pinheiros se erguiam acima dela, a erva crescia tpida e o solo se povoava de conferas. 
      Por todas as partes podia observar samambaias, algumas pequenas e delgadas como espadas, outras transparentes... como fadas que danam pela noite, pensou Rowan. 
A gua de um ribeiro corria mansamente at cair por uma pequena cascata, fria e limpa. Seguiu o curso da gua e relaxou com seu som. Havia uma curva mais acima e, 
quando a cruzasse, encontraria o toco de uma velha rvore que parecia a cara de um ancio.
      Era um bom lugar para sentar e ver o bosque placidamente. Ento, ao ver a crosta da rvore que, efetivamente, parecia a cara de um ancio, deteve-se. Como 
tinha sabido da existncia desse tronco? No fazia parte do desenho que Belinda tinha feito; assim...como o tinha adivinhado? 
      - Porque ela deve ter mencionado. Deve ter me dito em algum momento - concluiu Rowan -  o tipo de coisa que Belinda gostaria de contar e eu devo ter esquecido. 
Mas Rowan no se sentou. Tinha a sensao de que o bosque estava vivo, cheio de alegria, quase encantado. Estava no bosque encantado com o qual todas as meninas 
sonhavam, onde as fadas danavam e o prncipe espera para resgatar  dama. Para libert-lo do feitio de um bruxo malvado.  No tinha que temer nada. Estava sozinha 
no bosque e ningum a repreenderia se ela ficasse fantasiando sobre contos de fadas. Seus sonhos lhe pertenciam. Sim, se tivesse que contar um conto a uma menina, 
seria sobre um bosque encantado. Caminhava entre as rvores a procura de seu verdadeiro amor. Estava enfeitiado, pensou Rowan, convertido num lobo negro. At que 
a donzela aparecia e o salvava graas a sua coragem, sua astcia e seu amor. Rowan suspirou e lamentou no ter mais talento para inventar os detalhes de um bom livro. 
Dedicava-se a ler e admirava a quem tivesse talento escrevendo.
      Ouviu o sussurro do mar e virou para a esquerda em uma bifurcao. O que a princpio tinha sido um sussurro foi convertendo-se num rugido. Rowan apertou o 
passo e estava quase correndo quando saiu do bosque e chegou aos rochedos. 
      Enquanto ela escalava s rochas, o vento soprava. Soltou uma sonora gargalhada, entusiasmada ao atingir a rocha mais alta. Sem dvida, era uma vista fabulosa. 
Quilmetros de oceano azul que acabavam se arrebentando contra as rochas, o sol da tarde reluzia e se espalhava sobre aquele tapete ondulante. 
      Tinha alguns de veleiros ao longe, cavalgando as ondas, e uma pequena ilha brotava da gua. A seus ps se acumulavam os mexilhes, negros e brilhantes. Rowan 
apoiou a queixo sobre as mos e observou o mar at que os veleiros desapareceram e no mar restou apenas o vazio. 
      - A primeira vez em muito tempo que no fao nada durante toda  tarde - murmurou olhando ao cu - Que delcia. 
      Suspirou contente, se levantou, esticou os braos, deu meia volta...e esteve a ponto de cair das rochas. O teria feito se ele no tivesse se movido to rapidamente; 
tanto, que Rowan no tinha percebido o movimento. Mas suas mos a estavam segurando com firmeza para que recuperasse o equilbrio. 
      - Fique quieta - disse ele. 
      Podia ser o prncipe sonhado por qualquer mulher. Ou o anjo escuro de suas fantasias mais secretas. Seu cabelo era negro como uma noite sem lua e caa solto 
ao redor do rosto, iluminada pelo o sol. Um rosto de nuances contundentes, com uma boca firme que no sorria, transbordante de beleza masculina.  Era alto, mas foi 
seus olhos que a hipnotizaram. Porque tinha os mesmos olhos do lobo que acreditava ter visto, de uma cor marrom dourado, intenso, sob sobrancelhas negras como o 
cabelo. Olhava-a fixamente, sem solt-la ainda, e Rowan percebeu impacincia e curiosidade naquele rosto to atraente. 
      -Eu... me assustei. No ouvi voc - balbuciou Rowan. 
      O homem compreendia a surpresa da intrusa. Podia ter feito se notar de modo gradual. Mas ao v-la sorrindo sobre a rocha, olhando com o olhar perdido o mar, 
o tinha deixado aturdido. 
      -No me ouviu porque estava sonhando acordada - respondeu ele por fim- Conversava com voc mesma - adicionou. 
      -Sim... tenho esse mau costume... de falar sozinha. 
      - Por que est to nervosa? 
      -No estou... no o estava - sussurrou Rowan. Deus! Ia comear a tremer sem parar se aquele desconhecido no a soltasse logo. Fazia muito tempo que no ficava 
to prxima de um homem que no fosse Alan. E ainda mais, que seu corpo no reagia desse modo to violento e perturbador. Tinha at estado a ponto de cair na gua! 
       - No estava - o homem deslizou as mos at captar-lhe a pulsao em seu pulso - Mas agora est. 
      - J disse a voc que me assustou - respondeu ela -  uma boa queda - argumentou. 
      - Verdade - o homem a retirou da encosta alguns passos - Melhor? 
      - Sim... Bem, me chamo Rowan Murray, vou ocupar a choupana de Belinda Malone por uma temporada - ela se apresentou. Teria oferecido a mo para estreitar a 
dele, mas era impossvel, dado que ele continuava algemando-a pelos pulsos. 
      - Donovan, Liam Donovan - se apresentou. 
      - Mas no  da aqui. 
      - Ah, no? 
      -Quero dizer, seu acento.  irlands. - Quando Liam sorriu e os olhos se iluminaram, Rowan conteve a vontade de suspirar como uma adolescente frente a seu 
dolo de rock. 
      - Sou da Irlanda, mas vivo aqui faz quase um ano. Minha choupana est a menos de meio quilmetro da de Belinda. 
      - Ento a conhece? 
      - Mais ou menos - contestou Liam. Tinha deixado de sorrir e olhava-a nos olhos- Ela no me avisou que teria companhia.
      - Deve ter esquecido. Tambm no comentou comigo que tinha um vizinho por perto - respondeu Rowan. Por fim a tinha soltado, mas ainda sentia o calor de seus 
dedos - Que faz por aqui? 
      -O que quero em cada momento. Suponho que voc veio com a mesma inteno. Vai lhe cair bem, para variar. 
      - Como disse? -
      - Voc no faz o que tem vontade com freqncia, no  mesmo, Rowan Murray? 
      Rowan sentiu um arrepio e enfiou as mos nos bolsos. O sol estava desaparecendo no horizonte e a sensao de frio era justificada. 
      -Acredito que ser melhor que eu tenha cuidado com o que eu digo a um vizinho discreto e desconhecido. 
      - Estamos a meio quilmetro um do outro, fique tranqila. Eu gosto de ficar sozinho - respondeu ele - No vou incomod-la. 
      -No pretendia ser rude -Rowan esboou um sorriso e lamentou ter sido to descorts - Sempre vivi na cidade e... 
      - Mas no gosta - murmurou Liam. 
      - O que?
      - Da cidade. No gosta de l, ou no estaria aqui, no  verdade? - explicou Liam. 
      Mas o que lhe importava se ela gostava ou no da cidade? Perguntou-se desconcertado. Essa mulher no seria nada em sua vida a no ser que assim o decidisse.
      - Eu... s queria dar um tempo.
      - Isso  o que mais tm  neste bosque. Sabe voltar? 
      - O que?  choupana? Sim, pego o caminho da direita e depois sigo reto. 
      -No se entretenha muito - Liam deu meia volta e comeou a descer das rochas- A noite cai muito rpido nesse perodo do ano e  fcil se perder na escurido 
- adicionou, girando a cabea para encar-la. 
      -No, no demorarei em voltar... Liam? 
      Ele se deteve e lhe lanou o olhar to transparente que para Rowan no foi difcil perceber a sombra de impacincia que neles continham.
      -Sim? 
      -Me perguntava... onde est seu cachorro? 
      Esboou um sorriso fugaz e radiante que o fez sorrir para ela tambm. 
      -No tenho cachorro - contestou Liam. 
      -Mas eu acredito que... h mais choupanas por aqui? 
      -H algumas  uns quatro quilmetros daqui. Aqui s estamos ns... e o que vive no bosque -disse ele - No tenha medo, no h nada que temer. Desfrute de seu 
passeio e do resto do dia - adicionou para tranqiliz-la, ao perceber certa inquietude na expresso de Rowan. 
      
      Antes que lhe ocorresse outra pergunta com que iria ret-lo, Liam tinha saltado por uma rocha e tinha se perdido entre as rvores. Foi ento que se lembrou 
da advertncia. Estava escurecendo, fazia frio e o vento soprava. Deixou de lado seu orgulho, desceu as rochas e o chamou. 
      -Liam? Importa-se de esperar? Irei com voc um momento. 
      Mas s obteve a resposta do eco. Rowan avanou s pressas, com a garganta seca, convicta de que o tinha visto entre algumas rvores. Mas no conseguiu encontr-lo. 
- Alm de discreto, rpido - murmurou enquanto respirava fundo -  Est bem, aqui no h nada que no estivesse quando estava iluminado. Volte por onde veio e deixe 
de se comportar como uma idiota -  disse a si mesma. 
      Mas  medida que se aprofundava no bosque, mais sombrio este se tornava e maior era o nevoeiro que envolvia o caminho. Teria jurado que ouvia msica, como 
de fossem sinos... ou talvez uma risada. 
      Harmonizava com o som do riacho e o farfalhar das folhas agitadas pelo vento. 
      Um rdio, pensou Rowan. Ou uma televiso. Os sons se transmitiam de modo estranho em alguns lugares. Liam teria posto um pouco de msica e, por qualquer razo, 
ela podia escut-la. O curioso era que parecia proceder de sua prpria choupana. O vento fazia esses truques. 
      Suspirou aliviada quando por fim, divisou o refgio... mas ficou esttica ao ver um par de olhos cintilantes entre as sombras. Um segundo depois, algumas folhas 
se moveram  frente e o animal desapareceu. Rowan apertou o passo e no o reduziu at atingir a choupana. E no voltou a respirar com normalidade at estar em seu 
interior e ter fechado a porta com tranca. 
      Acendeu todas as luzes do trreo e, j mais calma, serviu um copo de vinho de uma das garrafas que tinha levado consigo. Ergueu o copo e, antes de engolir 
o lquido, brindou: -Pelos comeos estranhos, aos vizinhos misteriosos e aos cachorros invisveis. 
      Depois, para sentir-se mais cmoda, esquentou uma sopa de envelope e a tomou de p, sonhando, olhando pela janela da cozinha, como costumava fazer em seu apartamento 
da cidade. 
      
      Mas os sonhos de agora eram melhores, mais claros. Sonhos com rvores gigantes, gua e ondas de cristas brancas, crepsculos. Sonhos sobre um homem bonito 
de olhos marrons dourados que a salvava de cair no mar e a olhava sorridente. Suspirou. Preferia ter reagido de outro modo, ter encontrado um modo de flertar com 
ele, de lhe falar com naturalidade, para que a tivesse olhado com interesse, em vez de com impacincia. 
      O que era uma estupidez, pois era certo que Liam Donovan no estaria perdendo o tempo pensando nela. Sem dvida, era intil abandonar-se nesse tipo de fantasia. 
Pegou o prato que tinha usado e subiu as escadas. Uma vez l em cima, deu-se o capricho de encher a banheira com gua quente e borbulhas perfumadas, e se deixou 
afundar em seu interior com um livro e um segundo copo de vinho. 
      Em seguida deu-se conta que aquele era um luxo que no costumava a se permitir. 
      -Mas isso vai mudar - disse enquanto recostava as costas e gemia de prazer- Como tantas outras coisas. 
      Quando a gua ficou morna, levantou-se para se secar e estrear um dos dois pijamas de l que tinha comprado. Depois acendeu a lareira do dormitrio, tombou 
sobre a cama e se acomodou, disposta a prosseguir com a leitura de seu livro. Dez minutos depois estava dormindo, com os culos de perto escorregando sobre o nariz, 
as luzes acessas e o vinho esquentando no copo. 
      Sonhou com um lobo negro e gil que entrava na ponta das patas no dormitrio e a observava com curiosidade enquanto dormia. Tinha os olhos dourados e parecia 
falar-lhe telepaticamente:
      
      
      -No estava procurando por voc - lhe dizia o animal- No quero o que vai me oferecer -  Volte para seu mundo, Rowan Murray. O meu no  para voc. 
      - S quero tempo - contestava ela em pensamento - Preciso de um pouco de tempo. 
      O lobo se aproximava da cama, de modo que Rowan quase podia tocar sua cabea com a mo. 
      - Se procurar o que busca aqui, poderemos ficar presos um ao outro. Para sempre.  Est disposta a correr o risco? 
      - J  hora de me arriscar - respondia Rowan enquanto acariciava o plo do lobo. Ento, o lobo se convertia num homem e se aproximava dela. 
      - O que aconteceria se eu lhe beijasse agora, Rowan? - perguntava.
      Rowan gemia e esticava os braos para lhe dar boas vindas.
      - Durma - adicionou Liam ao mesmo tempo que lhe tirava os culos e os colocava sobre a mesinha de noite. Depois apagou a luz, meteu as mos nos bolsos para 
no cair em tentao de toc-la e suspirou. 
      -Maldita seja - se lamentou -  No quero o que me oferece. No a quero. 
      E desapareceu. 
      Depois, muito depois, Rowan sonhou com um lobo negro como a meia-noite sobre os rochedos. 
      Erguia a cabea ao cu e uivava  lua que nadava no mar. 
      
     Captulo dois
      Durante os dias seguintes, Rowan se dedicou a procurar pelo lobo. Costumava encontr-lo pela manh, ou logo antes do crepsculo, parado entre as rvores. Observando 
a choupana, pensou ela. Observando-a. E se deu conta de que sentia certa decepo quando no o via. Tanta que comeou a deixar comida l fora, com a esperana de 
seduzi-lo e convert-lo num visitante que freqentasse o que Rowan j comeava a considerar seu pequeno e novo mundo. Pensava nele com freqncia. Acordava quase 
todas as manhs com retalhos de sonhos na memria. Sonhos nos quais o lobo se sentava junto  sua cama enquanto ela dormia, que s vezes esticava a mo para acariciar 
seu plo ou sentir seu potente lombo. 
      De vez em quando, o lobo e seu vizinho se misturavam. Nesses dias, acordava trmula, com uma sensao de frustrao sexual que a aborrecia e envergonhava. 
Quando recuperava a lucidez, recordava-se que Liam Donovan era o nico ser humano que tinha visto na ltima semana. Ademais, tratava-se de um homem espetacular, 
modelo perfeito para alimentar sonhos erticos. Passava a maior parte do tempo lendo ou desenhando, ou dando longos passeios. E tentando no pensar que j era hora 
de realizar o telefonema semanal que tinha prometido aos seus pais. Ainda que desfrutasse da paz, da solido, a falta de obrigaes com as quais ocupar o tempo, 
tambm tinha momentos em que se sentia dolorosamente solitria. Mas nem sequer quando a alucinava a necessidade de escutar outra voz, ou de estabelecer um mnimo 
contato humano, reuniu coragem nem encontrou uma desculpa razovel para procurar Liam. 
      Poderia oferecer-lhe uma xcara de caf, pensou enquanto o sol se perdia atrs das rvores. Ou convid-lo para jantar e bater um papo durante um tempo, pensou 
enquanto brincava com uma colher. 
      - Ser que ele nunca se sente sozinho? - se perguntou - O que ele faz durante todo o dia e toda  noite? 
      O vento soprou e um trovo soou ao longe. Aproximava-se uma tormenta, pensou Rowan enquanto se dirigia  entrada para abrir a porta e saldar o ar fresco. Ergueu 
a vista, olhou as nuvens negras que se amontoavam no cu e viu o reflexo de um relmpago longnquo. Pensou que seria muito agradvel dormir com o rudo da chuva 
caindo sobre o telhado. Ou, melhor ainda, aconchegar-se na cama com um livro e ler at bem tarde da noite enquanto o vento uivava e a chuva aoitava.
      Sorriu e, de repente, encontrou-se de frente ao lobo. Rowan deu um passo para trs e levou uma mo  garganta, onde tinha ido parar seu corao. O lobo estava 
muito perto, nunca tinha se aproximado tanto. 
      -Oi - o saudou depois de tranqilizar-se, ainda que sem desgrudar da porta, pois se precisasse iria fech-la. 
      -Voc  muito bonito. Procuro todos os dias por voc, mas nunca come o que eu te deixo. Sinto muito, no sou muito boa cozinhando... Mas me alegro de que tenha 
aparecido. No lhe farei mal, de verdade...Sabia? Tenho lido sobre lobos. No  estranho que eu tenha trazido um livro sobre voc? Nem sequer lembrava de t-lo colocado 
na mala, mas eu trouxe tantos livros... Por que est comigo, em vez de correr junto a uma loba? - acrescentou enquanto estendia a mo e lhe acariciava a plo. 
      Rowan percebeu a expresso sombria do lobo e, de repente, sobressaltou-se quando um relmpago cortou o cu, seguido por um potente trovo. O lobo tinha desaparecido. 
Tinha ficado sozinha. Rowan sentou na beirada do alpendre, dobrou os joelhos junto ao peito e contemplou a chuva caindo. 
      
      
      
       Estava perdendo tempo demais pensando nela. E isso o irritava. Liam se orgulhava de seu autocontrole. Quando uma pessoa possua um poder, devia saber controlar-se, 
porque um poder indmito podia corromper e destruir. 
      Desde do dia de seu nascimento tinham-lhe ensinado as vantagens e as responsabilidades que tinha na vida. A solido era o modo de escapar desta ltima, ao 
menos momentaneamente. 
      Porque sabia que ningum podia escapar a seu destino. E o filho de um prncipe, por mais do que o desagradasse, tinha a obrigao de aceitar o seu legado. 
Sozinho, em sua choupana, pensava nela, no susto levado ao v-lo, no temor que tinha assomado seu rosto inclusive enquanto o tinha acariciado. 
      Ainda que se forasse para se afastar da mulher, ela tinha uma doura que o prendia. Rowan estava tentando ganhar sua confiana, deixando comida junto a sua 
porta, falando com aquela voz suave e nervosa ao mesmo tempo. Perguntava-se quantas mulheres sozinhas no meio de um bosque teriam a coragem ou o desejo de falar 
com um lobo e tentar ganhar sua amizade. E ela acreditava que era uma covarde... Liam tinha vistoriado os pensamentos de Rowan, um segundo, o suficiente para l-los. 
No tinha nem idia do que levava mais profundamente, no tinha explorado em demasia, no tinham se permitido. Era uma mulher com um sentido familiar muito arraigado, 
leal e com uma tendncia lamentvel a subestimar-se. Sacudiu a cabea enquanto tomava um gole de caf e observava a tormenta. Que, demnios, deveria fazer com ela? 
      Se a tinham enviado, e ele a aceitasse, no faria seno submeter-se  vontade de um destino que Liam no tinha escolhido. Por outra parte, tinha necessidades 
intensas. Apesar de tudo, era uma bela mulher, vulnervel e um pouco perdida. No era de se estranhar que se sentisse atrado por ela, mais ainda depois do longo 
perodo de solido que se tinha imposto. Mas os sentimentos que estava experimentando eram mais profundos, potentes e mais exigentes que nunca. E quando os sentimentos 
eram intensos demais, poderia perder o controle. Sem controle no podia tomar decises e ele tinha lhe dado esse ano como prazo mximo para tom-las. 
      O amor se aproxima. 
      Apertou os dentes e colocou a xcara de caf sobre a mesa. 
      - Maldita seja, agora estou arrumado! - murmurou ao ouvir aquele sussurro. 
      - Sempre to renitente - ouviu a voz de sua me dizer - Vai deix-la partir? 
      -  melhor para os dois. Ela no  como ns. 
      - Quando estiver preparado, olhe no corao dela e no seu. Confie no que enxergar ali - recomendou a me - Mandarei saudaes a seu pai, de sua parte. 
      - Sim. Diga que eu o amo. 
      - Ele sabe. Volte logo para casa, Liam Donovan. Sentimos sua falta. 
      Em seguida, um raio iluminou o cu e caiu como uma lana contra a terra. Depois soou um trovo e Liam compreendeu que era a voz de seu pai, reforando as palavras 
da esposa.
       - Est bem, darei uma olhada, e verei como essa mulher sobrevive  tormenta - disse por fim. Virou-se para a lareira, apontou para uma chama e disse:
      - Raios de fogo e estrondosos troves, o que sente Rowan eu sentirei tambm.
      Meteu as mos nos bolsos enquanto o fogo se estabilizava. Uma luz iluminou a lareira e, por fim, pde ver a Rowan entre as chamas. Agarrada a uma vela que 
iluminava sua pele plida no meio da escurido. 
      Estava mergulhando nas gavetas da cozinha, falando consigo mesma, como tinha costume. Teve um sobressalto quando o raio seguinte rompeu o cu noturno. 
      No tinha lhe ocorrido que ela pudesse estar assustada, recriminou-se Liam, passando a mo pelo cabelo. Ser que Belinda no tinha lhe explicado onde estavam 
as lanternas nem as luzes de emergncia? Parece que no. 
      No podia deix-la assim, tremendo e tropeando em tudo, podia? 
      
      
      -  s uma tempestade, vai passar logo - repetia Rowan enquanto acendia mais velas.  A escurido no lhe dava medo, mas o raio tinha cado to prximo do refgio... 
Se no tivesse ficado sentada l fora, sonhando acordada enquanto a tormenta se aproximava, teria tido tempo de acender a lareira, e teria luz e calor e estaria 
desfrutando de um ambiente acolhedor. Mas tinha ficado sem eletricidade, os telefones no funcionavam e a tormenta parecia estar descarregando justo sobre sua choupana. 
Tinha dzias de velas, isso sim. Velas brancas e velas azuis, velas vermelhas, verdes. Era como se Belinda tivesse pensado em montar uma loja. Reservou as mais bonitas. 
Depois de tudo, j tinha acendido umas cinqenta, as quais proporcionavam luz suficiente e uma maravilhosa mistura de aromas que lhe apaziguava os nervos. 
      - Tudo bem - disse a si mesma enquanto prendia uma ltima vela e esfregava as mos  - Com isto vejo suficiente para acender a lareira. Depois me sentarei no 
sof e esperarei a que a tormenta passe. 
      Mas antes de se agachar junto  lareira, o vento soprou com fora. A porta da choupana se abriu inesperadamente e a metade das velas se apagou. Rowan levantou 
de imediato, deu meia volta... e gritou. 
      Liam estava a uns poucos passos, com o cabelo enredado e o reflexo das velas danando nos olhos. 
      - Parece que voltei a assustar voc - disse ele com suavidade- Perdoe-me. 
      - Eu... Deus! - Rowan suspirou e deixou o corpo cair em uma cadeira - A porta... 
      -Estava aberta -Liam se virou, e fechou-a, deixando l fora o vento e a chuva. Rowan estava segura de que a tinha fechado antes de se trancar no refgio. Mas 
era bvio que estava enganada, pensou enquanto se esforava para que o corao batesse num ritmo mais normal. 
      - Imaginei que poderia estar em apuros... Pela tempestade. 
      - Acabou a luz - disse Rowan simplesmente. 
      -  o que notei. Est com frio? -Liam se aproximou da lareira e pegou um par de lenhas e alguns fsforos. Podia t-la acendido por outros meios menos convencionais, 
mas imaginou que Rowan j tinha tido bastante surpresas por uma noite. 
      - Sim... Queria iluminar isto um pouco antes de fazer acender a lareira. Belinda tem muitas velas. 
      - Natural - comentou ele enquanto as chamas consumiam as lenhas - Em seguida chegou o calor. H um gerador na parte traseira. Se quiser posso coloc-lo em 
funcionamento, ainda que no acredito que a tormenta dure muito. 
      Ficou quieta, com a luz da lareira danando em seu rosto, olhando-o. Rowan se esqueceu da chuva e da escurido. Perguntou-se se o cabelo de Liam seria to 
suave como parecia... e por que estava imaginando que Liam se aproximava dela e aproximava sua boca at deix-la a um suspiro de seus lbios. 
      - Est sonhando acorda outra vez, Rowan. 
      - O que? -perguntou. Piscou ruborizada e sacudiu a cabea - Perdoe-me,  a tempestade... Quer um pouco de vinho? Tenho um italiano muito bom. Em seguida volto 
- adicionou, fugindo rpida para a cozinha. Por todos os santos!, murmurou Rowan enquanto tirava a garrafa da geladeira. Por que ficava to nervosa com a proximidade 
de Liam? J tinha estado a ss com homens atraentes em outras ocasies. Era uma mulher adulta, no era? 
      Encheu de vinho duas taas. Quando se voltou, com uma em cada mo, deparou-se com Liam s suas costas. 
      -Sempre tem que ser to silencioso!? - replicou Rowan sem consegui se controlar. 
      Depois observou o sbito e fabuloso sorriso de Liam, brilhante e cegante como um raio. 
      - Suponho que no. 
      Liam decidiu que tinha direito a dar-se algum capricho, assim, sem deixar de olh-la nos olhos, ergueu a mo delicada, inclinou a cabea e a beijou. Por sua 
vez, Rowan s conseguiu emitir um pequeno gemido. 
      -Obrigada pelo vinho - disse ento, ao mesmo tempo em que tomava uma das duas taas - Voc tem um rosto lindo, Rowan Murray. No parei de pensar em voc desde 
a ltima vez em que a vi. 
      - Verdade? 
      -Acreditava que no pensaria em voc?
      Era to bvio seu desconcerto que se tornava tentador aproveitar-se dela. Pensou em dar um passo adiante e lhe acariciar o pescoo com um dedo. Contornar sua 
pele suave, clida e frgil. Depois unir suas bocas e provar seus lbios, misturados com o sabor do vinho. Seria incapaz de deter-se e interromper algo to singelo 
e inocente. 
      -Vamos para a lareira - props Liam por fim  - Estaremos mais aquecidos. 
      Rowan identificou a dor que notava em seu interior. Era a mesma dor com a qual acordava sempre que sonhava com ele. 
      - S vim aqui para tranqiliz-la - continuou Liam - Estava me dando pena. Sente-se e acalma-se um pouco. A tormenta passar em seguida... e eu tambm no 
ficarei muito - adicionou depois de ambos  entrarem no salo. 
      - Gosto que me acompanhe. No estou acostumada a ficar sozinha tanto tempo. 
      Rowan se sentou e sorriu. Mas ele continuou de p junto  lareira, olhando-a. Com uma olhar que lhe recordava o do... 
      -No tinha vindo para isso? - perguntou Liam para interromper-lhe os pensamentos, antes que ela descobrisse algo para o qual ainda no estava preparada  - 
Para dar-se tempo e ficar s? 
      - Sim, e gosto. Mas  um momento nico. Fui professora vrios anos. Estou acostumada a estar rodeada de pessoas. 
      - Voc gostava? 
      - Dos alunos?
      - No, das pessoas - corrigiu Liam - Em geral. 
      - Claro... sim gosto -Rowan riu e se recostou sobre a cadeira - E voc, no? 
      - No especialmente - Liam bebeu um gole do vinho - Muitas so exigentes, egostas, egocntricas. E ainda que isso no seja um problema em si, com freqncia 
se magoam. 
      -No creio que a maioria se magoe de propsito - respondeu Rowan - No entendo por que  to negativo. 
      - Se no acredita  porque  uma romntica, alm de ingnua - contestou ele - O que a torna muito doce. 
      - Devo sentir-me ofendida ou elogiada? - se perguntou Rowan em voz alta, sorrindo calma, ainda que...
      Liam sentou-se na poltrona que tinha frente a dela. 
      -  a verdade, pode aceit-la sem tom-la como uma ofensa nem como um insulto. Simplesmente,  a verdade - afirmou Liam. Pausa - O que voc ensina? 
      -Literatura... ou fazia isso.
      - Isso explica que tenha tantos livros - comentou em aluso a vrios volumes que tinha sobre a mesa. 
      - Ler  um de meus maiores prazeres. Me encanta entrar na trama de um conto ou de uma novela. 
      - Mas isto... - Liam esticou um brao e agarrou um livro que tinha sobre a mesa - Histria dos lobos. Isto no  um conto precisamente. 
      - No, comprei-o um dia levada por um impulso e o inclu entre os demais sem dar-me conta. Mas me alegro de t-lo feito - Rowan  acariciou uma mecha do cabelo, 
num gesto tpico dela  - Com certeza j viu o lobo negro que anda por esta regio - adicionou. 
      Liam a olhou nos olhos enquanto bebia um novo gole de vinho. 
      - No posso dizer que no o tenha visto. 
      - Eu o encontro quase todos os dias.  lindo, e no parece fugir das pessoas. Esta mesma noite, pouco antes de  comear a chover, ele veio at minha porta. 
E s vezes o ouo uivando. Voc nuca ouviu?
      - Eu estou mais perto do mar - contestou ele - Isso  o que eu ouo. Os lobos so animais selvagens, Rowan, como estou certo que tenha lido em seu livro. E 
os lobos solitrios so os mais selvagens de todos. 
      -No pretendo domestic-lo. Mas creio que temos uma curiosidade recproca - Rowan olhou pela janela e se perguntou se o lobo teria encontrado algum lugar seco 
onde se proteger - No caam por prazer nem por crueldade. Caam para alimentar-se. Na maioria das vezes vivem em grupo, protegem uns aos outros, regem-se pelo instinto 
natural e... - deixou a frase pendurando, sobressaltada por um novo relmpago. 
      - A natureza  violenta. Pode ser generosa ou cruel - observou Liam, devolvendo o livro  mesa. 
      - Basta ter cuidado -respondeu ela.
      Estavam muito juntos, seus joelhos se roavam. Rowan podia sentir a fragrncia masculina dele, quase animal e, com certeza, muito perigosa. 
      - Exato. Convm ter cuidado com os instintos - disse Liam com um sorriso enigmtico - Vou ligar o gerador. Ficar mais calma com um pouco de eletricidade. 
      - Sim, suponho que tenha razo - Rowan se ps de p. Perguntava-se por que lhe batia to forte o corao. 
      No tinha nada que ver com a tormenta de l fora... e tudo com a que se tinha desatado dentro dela. 
      - Obrigada pela ajuda. 
      - No h de que - contestou Liam - S ser um segundo...  verdade, muito bom o vinho - adicionou pouco antes de sair para a cozinha, deixando atrs  Rowan, 
que tinha ficado parada no salo uns segundos. 
      Quando entrou na cozinha, as luzes se acenderam. Rowan deu um grito, depois riu de si mesma, ainda que se perguntasse como era possvel que Liam se movesse 
to rpido. A cozinha estava vazia e as luzes acesas.  Mas era como se nunca tivesse estado ali. Abriu a porta traseira e fez uma careta de desagrado quando o vento 
e a chuva lhe golpearam o rosto. 
      -Liam? - o chamou. Mas no tinha ningum ao redor - No se v. Por favor, no me deixe sozinha -lhe pediu tremendo, enquanto a tormenta lhe empapava a camisa. 
      Sem seguida um relmpago iluminou todo o bosque... e lhe permitiu ver o lobo, parado de frente  porta. 
      - Deus! - sussurrou Rowan. Acendeu as luzes do alpendre da porta dos fundos e pde v-lo com mais clareza. Estava molhado e a estava olhando  - Deveria entrar 
e proteger-se da chuva. 
      Sentiu um arrepio quando o lobo subiu as escadas do alpendre para se aproximar. Rowan no reparou que estava contendo a respirao at que o animal lhe roou 
uma perna. 
      - Bem, parece que tenho um lobo em casa. Um lobo muito bonito - murmurou ela. Depois o convidou a passar dentro de casa e fechou a porta dos fundos - Aqui 
estaremos mais aquecidos. - Rowan ficou assombrada e fascinada quando o lobo comeou a andar em direo a sala, onde se acomodou frente  lareira. Depois girou a 
cabea, como se a estivesse esperando.
      - Bom garoto - disse ela enquanto se aproximava com precauo. Ergueu a mo e, quando viu que o lobo no uivava nem rosnava, atreveu-se a pos-la sobre o lombo 
do animal-  Possui algum dono? No, com certeza voc  livre. 
      Acariciou-lhe o pescoo com suavidade e os olhos do lobo se engrandeceram. Rowan o interpretou como uma expresso de prazer. 
      - Gosta? Eu tambm. Acariciar  to agradvel como ser acariciado, ainda que faa muito tempo ningum me acaricie de verdade.. Mas voc no quer que eu lhe 
conte minha vida. No  muito interessante - murmurou Rowan  - Acredito que a sua deva ser. Deve ter um monto de histrias incrveis que contar. 
      Ele cheirava a bosque e a chuva. A animal selvagem. E, curiosamente, a algo familiar tambm. Seguiu acariciando-lhe o lombo, os flancos, a cabea, cada vez 
mais confiada. 
      - Aqui se secar -lhe disse. E, de repente, franziu o cenho e ficou pensativa - Liam no estava molhado. Tinha chegado no meio da tormenta, mas ele no estava 
molhado - adicionou desconcertada. 
      Olhou pela janela enquanto seguia acariciando a pelagem do lobo, to negro como o cabelo de Liam. . 
      - Como  possvel? - prosseguiu Rowan - Ainda que tivesse vindo de carro, tinha que sair at chegar  porta. 
      O lobo chegou mais perto dela e esfregou a cabea contra uma das pernas de Rowan. Esta voltou a acarici-lo, sorrindo, e o gemido prazeroso do lobo lhe pareceu 
muito humano e masculino. 
      - Talvez tambm se sinta sozinho. 
      Depois ficaram em silncio; fazendo companhia, enquanto a tormenta avanava para a praia, os troves se afastavam e a chuva tornava num dbil zumbido.
      No estranhou que o lobo a seguisse pela casa como se fosse a coisa mais normal do mundo. Rowan apagou as velas e as luzes, subiu as escadas, entrou no dormitrio 
e acendeu a lareira deste. 
      - Eu gosto - sussurrou ela enquanto se sentava na cadeira em frente s chamas crepitantes - Inclusive quando me sinto sozinha, como me sentia esta noite, gosto 
de estar aqui.  como se sempre tivesse precisado vir a este lugar.
      Girou a cabea, esboou um dbil sorriso e se olharam. Olhos azuis frente a olhos marrom dourados. Passou a mo sob a mandbula do lobo e lhe acariciou o pescoo. 
      - Ningum acreditaria. Ningum acreditaria se contasse que tenho estado numa choupana em Oregon, sozinha, falando com um lobo negro e precioso... E pode ser 
que esteja sonhando. Isso me cai muito bem - murmurou Rowan enquanto se punha de p  - Mas todos temos o direito de sonhar, no? Por outro lado, suponho que  lamentvel 
que os sonhos sejam mais interessantes de nossas vidas. No posso seguir assim. E no significa que tenha que subir uma montanha nem saltar em pra-quedas de um 
avio... 
      Deixou de escut-la. Tinha prestado ateno em todo o momento, mas agora, enquanto falava, Rowan tirou a malha e comeou a desabotoar a camisa. Quando ela 
ficou de suti, ele nem sequer ouvia suas palavras. 
      Era baixa e esbelta. Quando levou a mo ao boto da cala, o homem que tinha dentro do lobo ficou sem saliva. Seu sangue ferveu e seu corao disparou enquanto 
Rowan baixava as calas. 
      Quis saborear a carne, sentir a maciez de suas pernas, introduzir a lngua sob a lingerie branca at faze-la estremecer. Rowan se sentou para tirar os calados. 
Depois, quando desabotoou o suti, o lobo grunhiu. Imaginou-se abocanhando esses pequenos morros tenros, esfregando seus mamilos rosados, inclinando a cabea at... 
      - Deus! - exclamou ela de repente, surpreendida por um novo relmpago -Pensei que a tempestade j tinha passado - adicionou. 
      Ento se fixou nos olhos brilhantes do lobo e, num gesto instintivo, cobriu os seios com os braos. Tinha um olhar to humano e faminto pensou Rowan, assustada. 
      - Por que me sinto de repente como Chapeuzinho Vermelho? - tratou de caoar -  Sou uma tonta - afirmou. Mas no pde disfarar o tremor das mos enquanto vestia 
a parte de cima do pijama. De fato, deu um pequeno gritinho quando o lobo a tirou de uma das suas mos com os dentes.
      Rowan riu e atirou-se tambm sobre o pijama. A luta a fez rir. 
      - Acha bonito? - perguntou ao lobo- Acabo de compr-lo. Pode ser que voc no goste, mas abriga muito; assim, pare, solte-o j. -O lobo obedeceu de imediato, 
o qual a desconcertou sobremaneira. - Voc gosta de brincadeiras, ? - comentou Rowan enquanto examinava o estado do pijama - Bem, ao menos no o rasgou. 
      Observou-a se vestir. Inclusive isso lhe parecia ertico. E antes que ela vestisse as calas, deu-se o capricho de deslizar a lngua desde seu tornozelo at 
a parte traseira do joelho. 
      Rowan sorriu e se agachou para acariciar-lhe as orelhas, como se tratasse do cachorro da casa. 
      -Eu tambm gosto de voc - lhe disse. 
      Depois soltou a presilha e, enquanto escovava os cabelos, o lobo saltou sobre a cama e deitou na beirada .
      - Ah, no! Voc no pode ficar a - exclamou enquanto deslizava a escova por seu cabelo. 
      O lobo a olhou sem pestanejar. Rowan teria jurado que ele estava sorrindo. Suspirou, deixou a escova, aproximou-se de um lado da cama e, com a voz que empregava 
com seus alunos, ordenou-lhe que descesse da cama e ficasse no cho. 
      -No vai dormir na cama - Rowan lhe deu um empurro, mas ao ver que o lobo lhe mostrava os dentes, desistiu - Est bem, por uma noite no acontecer nada. 
      Assim, olhando-o precavida, introduziu-se sob os lenis. O lobo se limitou a apoiar a cabea entre as patas dianteiras. Como no se movia, Rowan ps os culos, 
acomodou-se sobre o travesseiro e se disps a ler um pouco. 
      Segundos depois, o lobo se aproximou e deitou junto a ela, repousando a cabea sobre seu colo. Rowan o acariciou e comeou a ler em voz alta. Leu at que as 
plpebras lhe pesaram e, mais uma vez, voltou a dormir com um livro entre os braos e a luz acesa. A brisa soprou e o lobo se transformou em homem. Liam lhe acariciou 
a testa, pegou o livro, tirou os culos e o colocou tudo sobre a mesinha de cabeceira. 
      Depois levantou-lhe a cabea para tirar os travesseiros e a recostou sobre o colcho. 
      - Durma, Rowan - murmurou Liam enquanto roava uma face com os dedos. Sua fragrncia, sedosa e feminina, bastava para deix-lo louco. Cada vez que ela respirava 
com os lbios entreabertos parecia estar convidando-o para que a beijasse. Agarrou-lhe uma mo, entrelaou os dedos de ambos e fechou os olhos - Sonhe comigo, pois 
dormir no  s dormir. D-me o que preciso e ter o que deseja de mim - acrescentou. 
      Rowan gemeu. Moveu-se. Levantou o brao esquerdo e separou os lbios. O pulso de Liam se revolucionou enquanto lhe fazia amor com a mente. Saboreou-a, tocou-a 
com os pensamentos. Entregou-se a ela. 
      Perdida em sonhos, aqueciam o corpo, tremendo sob as mos de uma fantasia. Cheirou-o, percebeu essa fragrncia meio animal que j a tinha excitado em sonhos 
mais de uma vez.  Imagens, sensaes e desejos se misturaram em sua cabea. Deu-lhes as boas vindas, murmurou seu nome, abriu-se a ele em corpo e alma. 
      A onda de pensamentos fogosos a fizeram estremecer. Rowan ouviu seu nome, repetido por Liam com desespero e reverncia, vrias vezes, at serem  arrastados 
ambos pelo prazer. 
      Depois chegou o silncio. Liam se sentou, com os olhos ainda fechados e sem soltar-lhe a mo. Ouviu a chuva e a respirao de Rowan. E, temeroso de no poder 
resistir  tentao de deitar-se junto a ela, levantou-se, apagou a luz... e, desapareceu.
      
     Captulo trs
      Acordou cedo, gloriosamente relaxada. Sentia-se contente e tinha a cabea leve. Saiu da cama, foi tomar um banho e s quando estava sob o chuveiro se lembrou. 
De repente, agarrou uma toalha e correu para o dormitrio. A cama estava vazia. No tinha nenhum lobo enrodilhado em frente  lareira. Baixou as escadas e explorou 
a casa. A porta da cozinha estava aberta e deixava entrar o frio da manh. 
      Saiu descala e amaldioou enquanto olhava para o bosque. 
      Como ele teria sado? E para onde? Desde quando os lobos sabiam abrir portas? 
      No o tinha imaginado. No, negava-se a admitir que tinham sido fantasias suas. Seria tanto como reconhecer que estava ficando louca, pensou com um sorriso 
intranqilo enquanto voltava  cozinha. 
      O lobo tinha estado em sua casa. Tinha se sentado a seu lado e tinha se deitado sobre a cama. Recordava perfeitamente o tato de sua pele, o calor que tinha 
experimentado ao apoiar o lobo  cabea sobre seu colo.  Por estranho que tivesse sido tudo, tinha acontecido. E se tivesse funcionado um s neurnio do crebro, 
teria agarrado uma cmara e tirado algumas fotografias. Mas, para que? Para quem as mostraria? 
      O lobo era seu brinquedo, no queria compartilh-lo com ningum. Subiu as escadas e voltou ao chuveiro, perguntando-se quanto tempo demoraria para o lobo regressar. 
Surpreendeu-se cantando e sorriu. No recordava ter acordado to contente e satisfeita em toda sua vida. No era esse o objetivo desses trs meses de tranqilidade? 
Descobrir que a fazia feliz?
      Ento, o que mais dava do que a resposta fosse passar uma noite chuvosa em companhia de um lobo? 
      Saiu do chuveiro, secou-se e limpou o vapor do espelho do banho. Depois olhou seu reflexo e perguntou-se se no tinha outro aspecto. Tinha em seus olhos uma 
luz que no tinha visto brilhar at ento. O que os tinha acendido? Perguntou-se enquanto se contemplava com curiosidade. 
      Os sonhos. Uns sonhos ardentes e estremecedores. Sonhos erticos. Recordava cores e formas, uma mo sobre seus seios... Fechou os olhos, afastou a toalha e 
se tocou nos seios, tratando de encontrar o caminho por onde tinham viajado as carcias da noite anterior. Nunca tinha sentido algo parecido. Como era possvel, 
ento, que o tivesse sentido em sonhos? E por que tinha deitado com um lobo e sonhado com um homem? Com Liam. Sabia que tinha sido Liam. Quase podia notar a forma 
de sua boca sobre a dela. Mas, como era possvel? Perguntou-se enquanto deslizava um dedo sobre seus lbios.  Como podia estar to segura do que sentiria se Liam 
a beijasse? 
      - Porque o desejo - se respondeu - Porque desejo Liam como nunca desejei nenhum homem. E porque sou to boba que no tenho nem idia de como realizar meus 
sonhos salvo, quando estou dormindo... precisamente em sonhos. 
      Rowan se vestiu e desceu para preparar um caf. Abriu as janelas e deixou entrar o ar fresco e limpo que a chuva tinha deixado. 
      Pensou em tomar caf da manh com cereais, torradas ou um iogurte. Eram oito da manh e tinha um absurdo desejo de bolachas de chocolate. Abriu o armrio dos 
cereais e, de repente, voltou a fech-lo. 
      Se queria bolachas de chocolate, teria bolachas de chocolate. Assim, com um sorriso que lhe iluminava os olhos, pegou a farinha e acar, misturou-os, chupou-se 
os dedos sem que ningum lhe recordasse que devia se limpar entre cada passo do processo. 
      - Vamos, vamos, quero uma bolacha - murmurou impaciente enquanto estas se esquentavam no forno - Bom trabalho. Muito bom trabalho - exclamou satisfeita quando 
por fim pde abocanhar a primeira bolacha. Comeu uma dzia antes de que sasse a segunda fornada. Pareceu-lhe decadente, infantil. E sensacional. 
      Quando o telefone soou, deixou a forma de lado e pegou o telefone com as mos sujas. 
      - Diga? 
      - Bom dia, Rowan. 
      Ao princpio no reconheceu a voz, mas, de repente, deu-se conta de que era Alan. 
      - Bom dia.
      - Espero no ter te acordado. 
      - No, j estava acordada. Estava... - Rowan sorriu enquanto pegava outra bolacha - Estava tomando caf da manh. 
      - Fico feliz. Precisa se alimentar bem, voc estava comendo muito pouco aqui. 
      - Desta vez no. Pode ser que o ar da montanha esteja abrindo meu apetite. 
      - Voc parece diferente.. 
      - Verdade? - contestou Rowan. 
      - Sim, est tudo bem?
      - Claro, maravilhosa - assegurou ela. 
      Como ia explicar para seu noivo, to srio e sensato, que tinha preparado trs fornadas de bolachas de chocolate s oito da manh e que tinha passado a noite 
anterior com um lobo? 
      - Estou lendo muito, passeio, fao algum desenho. Est uma manh linda. O cu est totalmente azul. 
      - A parte meteorolgica disse que ontem  noite teve uma tempestade tremenda por a. Tentei te ligar, mas no dava sinal.
      - Sim, teve uma tormenta, mas... 
      - Estava preocupado, Rowan - interrompeu ele - Se no tivesse conseguido falar contigo agora, teria ido te procurar. 
      S pensar que Alan pudesse invadir seu pequeno mundo mgico entrou em pnico. 
      -No precisa se preocupar, de verdade - assegurou ela - Estou bem. A tempestade foi muito emocionante. E tenho luzes de emergncia. 
      - No gosto de pensar que est sozinha numa cabana no meio do nada. O que aconteceria se ficasse doente ou com o pneu do carro furado? 
      A alegria se foi. J tinha ouvido dizer essas palavras com o mesmo tom de voz mil vezes. 
      - Alan, aqui  um refgio espaoso, lindo e muito seguro; no um barraco. Estou a mseros cinco quilmetros de uma cidade, assim que no estou no meio do nada. 
Se ficar doente, irei ao mdico. E se o pneu do carro furar, suponho que arrumarei outro para troc-lo.
      - Mas est isolada. Ontem  noite voc ficou incomunicvel. 
      - Por pouco tempo. O telefone j est funcionando - replicou Rowan - E tenho um celular no carro. Fora isso, me considero uma mulher inteligente, estou perfeitamente 
de sade, tenho vinte e sete anos e o motivo de vir aqui era precisamente estar s.
      Sobreveio um segundo de silncio, o suficientemente longo para que Rowan se desse conta de que tinha ferido os sentimentos de seu noivo. 
      - Alan... - tratou de desculpar-se. 
      - Esperava que quisesse voltar para casa, mas d a sensao de que no  bem assim. Sinto, Rowan. Sua famlia sente saudades. S queria que voc soubesse. 
      - Tambm sinto, e no pretendia ser brusca - disse - Suponho que estou um pouco na defensiva. No, no estou preparada para voltar. Se falar com meus pais, 
diga a eles que ligarei esta noite, e que estou bem. 
      - Verei seu pai daqui a pouco - contestou Alan com voz seca - O avisarei. 
      - Obrigada. Fico feliz por ter ligado. Ento... escreverei esta semana. 
      - Muito bem. Adeus, Rowan. 
      Pendurou o telefone. A alegria que a tinha invadido ao acordar tinha se dissipado por completo. Olhou o desastre de pratos e vasilhas sujas e, como penitncia, 
ps-se a limp-los todos.
      - No, me nego a acabar com o meu o dia - disse determinadamente. 
      E, de repente, lhe ocorreu que podia sair para dar uma volta. Colocou num pote parte das bolachas que tinham sobrado, ps uma jaqueta e abriu a porta. No 
tinha nem idia de onde estaria a choupana de Liam, mas este tinha comentado que estava perto do mar. Estava claro que ele se disps a auxili-la... se ela precisava 
sua ajuda em alguma emergncia. Passeou entre as rvores, verdes e frondosos. Ouviu os trinos dos pssaros e aspirou a fragrncia dos pinheiros. Quanto mais andava, 
mais voltavam a elevar seus  nimos. Deteve-se um segundo, s para fechar os olhos e deixar que o vento lhe acariciasse o rosto. Como ia explicar isso a um homem 
to lgico e racional como Alan? 
      Como se fazer compreender o prazer que sentia ao escutar o atrito das copas das rvores, o gozo e a paz de ficar quieta no meio de tanta natureza? 
      - No vou voltar - decidiu Rowan de sbito - No penso voltar. Nego-me. No sei aonde irei, mas no vou voltar - repetiu. 
      Depois se colocou a rir. Seguiu caminhando, sorridente e feliz por sua resoluo, at que,  volta de uma esquina, encontrou -se com uma gama branca que a 
deixou boquiaberta. Ficaram olhando-se nos olhos, como cativadas. Rowan deu um passo adiante e, ento, a gama se adentrou entre umas rvores. Sem hesitar , Rowan 
cruzou o ribeiro que a separava do animal e correu atrs da elegante gama, mas sem conseguir alcan-la.  De repente, Rowan se encontrou num descampado, rodeado 
por rvores majestosas. Dentro tinha um crculo de pedras cinzas, umas pequenas como um sapato e outras que lhe chegavam  cabea. 
      Assombrada, estendeu um brao para tocar a pedra mais prxima. Teria jurado que viu uma vibrao, como se tivesse roado a corda de uma harpa. Levada pela 
curiosidade, comeou a avanar entre duas pedras, mas em seguida retrocedeu. Parecia que o ar que tinha dentro do crculo tinha tremido. 
      A luz era diferente, mais intensa, e o som do mar se ouvia mais -prximo. 
      Disse a si mesma que era uma mulher racional, que as pedras no tinham vida e que o ar era o mesmo dentro do crculo e um passo afora. Mas, racional ou no, 
preferiu rodear as pedras, antes que passar entre elas e se lembrou da gama, a qual parecia ter estado esperando-a, pois seguia quieta num caminho sombrio, olhando-a 
com interesse. 
      Nessa ocasio, quando Rowan a perseguiu, terminou perdendo por completo o sentido da orientao. Podia ouvir o mar, mas no sabia se  esquerda ou  direita. 
O caminho se estreitou e alargou at desaparecer bruscamente e deix-la rodeada de rvores e arbustos. 
      Assim, decidiu desandar seus passos e se encontrou que o caminho tinha uma bifurcao. 
      Por mais que quisesse, no conseguia recordar por qual havia ido. 
      Ento,  esquerda, reviu  gama branca, s um instante. Rowan suspirou e foi atrs dela, passando atravs de umas moitas de folhas e espinhos, tentando de 
no se ferir e a viu. 
      A choupana estava colada ao alcantilado, flanqueada por rvores por trs lados e por pedras pela parte de atrs. Rowan afastou o cabelo do rosto e  secou uma 
gota de sangue que do arranho que tinha sofrido ao atravessar os arbustos. Era menor que a choupana de Belinda, o alpendre era largo, mas no tinha teto, e na segunda 
planta sobressaa uma pequena e linda sacada.  Quando afastou  vista do balco, viu Liam na varanda. Tinha os polegares dentro dos bolsos das calas, vestia uma 
camiseta preta com a manga dobrada  at os cotovelos... e no parecia especialmente contente de v-la. 
      - Oi, Rowan - a saudou de todos modos - Quer tomar um ch? -Entrou na choupana sem esperar a que ela respondesse. Ao aproximar-se, teve a impresso de ouvir 
uma melodia de gaitas e instrumentos de corda. 
      A choupana parecia mais espaosa por dentro, ainda que sups que se devia  escassez de mveis. No salo no tinha seno uma cadeira, um sof e uma lareira 
sobre a que descansavam uma pedra verde do tamanho de um punho e uma esttua de mulher de alabastro, com os braos em alto e a cabea para atrs, totalmente nua. 
Quis aproximar-se para ver-lhe a face, mas lhe pareceu uma indiscrio. Assim foi  cozinha, onde Liam a esperava com a gua j fervendo. 
      - No estava certa de que ia te encontrar - arrancou Rowan. 
      - No? - perguntou ele, olhando-a com intensidade aos olhos. 
      - No, tinha a esperana, mas... no estava certa - contestou ela com voz nervosa- Fiz bolachas. Trouxe algumas para lhe agradecer por ter-me ajudado ontem 
 noite. 
      - De que tipo? - perguntou ele, sorridente, enquanto vertia o gua em um bule amarelo. Ainda que soubesse, porque as tinha farejado, como tinha farejado ela 
aproximando enquanto ainda estava no bosque. 
      - De chocolate, do que mais seriam? - replicou Rowan enquanto oferecia as bolachas - Esto muito boas. J comi um monte delas.
      - Ento sente-se. Vai ser bom com-las com o ch - respondeu Liam - Deve de ter ficado gelada passeando. Faz um vento muito frio esta manh. 
      -A verdade  que no sei quanto tempo fiquei  fora - respondeu ela, ao mesmo tempo em se sentava a mesa da cozinha - Me distra com uma... - mas se calou quando 
Liam  acariciou sua bochecha. 
      - Fez um arranho no rosto - disse com suavidade enquanto a gota de sangue caa clida sobre o polegar dele. 
      - Me... enrosquei com uns arbustos - Rowan estava perdida, podia perder-se nos olhos de Liam. Estava desejando-o. Este voltou a acarici-la e tirou o espinho 
que permanecia fincado em sua pele. 
      - Disse que se distraiu? - perguntou Liam enquanto se sentava frente dela - Quando estava no bosque. 
      - Ah... sim. Distrai-me com uma gama branca.
      - Uma gama branca? - Liam ergueu uma sobrancelha enquanto servia o ch. 
      - Nunca viu? 
      - Sim, ainda que faa bastante tempo. 
      - Ela no  linda? 
      - Muito - concordou ele. 
      -O caso  que a vi, e no pude evitar segu-la. Acabei num descampado com um crculo de pedras. 
      - Ela te conduziu at ali? -perguntou Liam, interessado.
      -Suponho que possa dizer que sim. Conhece o lugar? Jamais pensei encontrar algo assim por a. Quando se pensa nesse tipo de monumentos pr-histricos, imagino-os 
na Irlanda, em Gales... mas no em Oregon. 
      - Entrou? 
      - No, foi tolice, mas me assustei um pouco, assim dei a volta no crculo e me perdi. 
      - No se perdeu, voc est aqui. 
      - Mas parecia que eu estava perdida. O caminho desapareceu e no conseguia me orientar... O ch est estupendo - comentou Rowan. 
      Estava quente, forte e suave ao mesmo tempo, e tinha algo doce que lhe dava um sabor muito rico. 
      - Obrigado - contestou ele, sorridente. 
      Depois provou uma das bolachas.
       - Pois elas tambm esto deliciosas. Gosta de cozinhar?
      - Sim, ainda que os resultados no sejam sempre bons - respondeu Rowan, cujo nimo crescia segundo a segundo - Gostei da sua casa -adicionou. 
      -  pequena, mas para mim basta. 
      - E tem cada vista... -Rowan se levantou e se aproximou da janela -Espetaculares. Deve de ser impressionante ver daqui uma tempestade como a de ontem  noite. 
      - Conseguiu dormir bem? 
      Sentiu um calor sufocante. No podia lhe dizer que tinha sonhado que fazia amor com ele. 
      -No tenho recordao ter dormido melhor em toda minha vida - respondeu por fim. 
      - Fico feliz - afirmou Liam, sorridente - De saber que minha companhia te acalmou - completou ao observar o gesto de estranheza dela. 
      -Sim... - disse Rowan, a qual tinha a estranha impresso de que Liam tinha adivinhado seus pensamentos -  seu escritrio? - adicionou, para mudar de assunto, 
olhando para um parte do cmodo na qual tinha um computador ligado.
      - Pode-se cham-lo assim. 
      - Ento o interrompi. 
      - Nada que no possa esperar -assegurou Liam - Quer v-lo? 
      - Sim... se no se importa. 
      Como resposta, limitou-se a convid-la com um gesto e esperou a que Rowan passasse antes que ele.
      Era uma pea pequena, mas tinha uma janela que podia admirar os alcantilados. Perguntou-se como poderia concentrar-se no trabalho com essas vistas. Depois 
se jogou a rir ao ver o que tinha no monitor. 
      - Voc estava jogando? 
      - Voc no gosta de jogos? -contestou Liam. 
      - Eles me do nos nervos. Sobretudo, esses de aventuras. Cada movimento  vital, no agento a tenso - Rowan voltou a rir, aproximou-se da tela e reconheceu 
o jogo - S cheguei ao terceiro nvel. Sempre me matam ao chegar ao Portal Encantado. 
      - Sempre h armadilhas para chegar s coisas Encantadas - replicou Liam - Se no, no haveria tanta satisfao ao atingi-las. Queres jogar uma partida? 
      -No, minhas mos vo ficar suadas e meus dedos trmulos.  humilhante demais. 
      - O leva muito a srio - comentou Liam. 
      -  que os jogos so uma coisa muito sria - respondeu ela, convicta. olhou a tela inicial e ficou assombrada ao ver a estrutura do Legado dos Donovan. -  
o seu jogo?, Programa jogos de computador? - perguntou entusiasmada. 
      -  divertido. 
      -  muito mais do que divertido. Os grficos so lindos. Mas a histria  a melhor.  mgica. Um conto de fadas com desafios, recompensas e castigos. 
      - Em todos os contos de fadas h castigos e recompensas - disse ele. Depois chegou mais perto e deslizou os dedos pelo cabelo de Rowan - Gosto quando deixa 
soltos os seus cabelos. Soltos e enrolados. 
      - Esqueci de  prend-los esta manh - respondeu ela com voz rouca. 
      - E o vento o penteou - murmurou Liam - Posso cheirar o vento e o mar em seu cabelo - adicionou enquanto lhe acariciava o rosto. 
      Afrouxaram-se os joelhos. O sangue corria to rpido pelas veias que podia ouvir o rugido da corrente, palpitando-lhe nas tmporas. No podia se mover, mal 
podia respirar. Assim que ficou quieta, de p, olhando-o aos olhos e esperando.
      - Rowan Murray, quer que eu te toque? - perguntou, colocando uma mo sobre o peito dela, justo entre as curvas de seus seios - Assim? - adicionou enquanto 
estendia os dedos. 
      Suspirou, os olhos  nublaram-se, a respirao se entrecortou. Notava o calor daqueles dedos, que estavam lhe abrasando a pele. Com tudo, seguiu sem mover-se, 
parada, sem se aproximar dele nem afastar.
      - S tem que dizer que no - murmurou Liam, ao mesmo tempo em que posava os lbios sobre seu pescoo - Quero saborear o ar e o vento sobre sua pele. No vai 
fazer nada para me impedir? O que aconteceria se eu te beijasse agora? - acrescentou com um n na garganta. 
      Rowan fechou os olhos, separou os lbios e, quando Liam se apoderou de sua boca, perdeu o controle e a vontade. Ficou ofuscada pela paixo e emitiu um primeiro 
som que poderia ter interpretado como um protesto...e um segundo que foi, sem dvida, um gemido de prazer. 
      Atuou com mais delicadeza do que ela tinha esperado, talvez mais do que ele mesmo queria. Estava-lhe lambendo, sugando e mordiscando os lbios. Por fim, jogou-se 
em seus braos, derrotada. 
      Liam lhe acariciou a nuca, jogou para trs a cabea para aprofundar o beijo e permitir que suas lnguas se misturassem. Rowan sentiu um arrepio, agarrou-lhe 
os ombros, primeiro para sujeitar-se e depois para desfrutar de seus msculos.
      Depois lhe acariciou o cabelo. Veio  cabea o lobo, recordou todas as fantasias que tinham povoado seus sonhos nas ltimas noites, na cama... e explodiu. 
Procurou a boca de Liam com avidez e firmeza. Exigiu-lhe que a abraasse mais forte, que convertesse o beijo numa mordida selvagem. 
      -No est preparada para mim - sussurrou Liam, temeroso de fincar-lhe os dentes - Nem eu estou para voc. Pode ser que chegue um momento em que isso no importe 
e ento queiramos nos arriscar. Mas agora, sim importa. Volte para casa. L estar a salvo - afirmou, separando-se de Rowan. 
      -Ningum fez sentir-me assim, nunca -confessou esta, ainda embriagada- No pensei que fosse possvel. 
      Algo brilhou nos olhos de Liam, que a fez tremer de desejo. Depois murmurou umas palavras numa lngua que ela no compreendeu e apoiou sua frente na de Rowan. 
      - A sinceridade pode ser perigosa - disse ele - Quero ser justo com voc. Tenha cuidado com o que me oferece, porque  provvel que te pea mais.  Volte para 
casa, mas no por onde veio. Siga o caminho que h em frente que ele te levar direto para casa - adicionou. 
      -Liam, eu quero... 
      - Sei bem o que quer - a interrompeu ele enquanto a guiava para fora, atirando-a de um brao - Se fosse to simples como subir ao dormitrio e darmos uma revoluo 
na cama, j estaramos l. Mas  mais complicado, assim que volte para casa - insistiu ele. Praticamente a estava empurrando, o qual fez acordar o gnio de Rowan. 
       - Est bem, porque no quero que seja simples! - replicou com fascas saindo dos olhos - No volte a pr as suas mos em cima se no est disposto a complicar 
as coisas! 
      Depois deu meia volta e se dirigiu para o caminho que Liam tinha lhe dito, enquanto ele permaneceu no alpendre olhando-a. Seguiu observando-a muito depois 
de t-la perdido de vista e sorriu quando a viu entrar em casa, fechando a porta rudemente.
      
     Captulo  Quatro
      O imbecil a tinha jogado para fora da casa, amaldioou Rowan enquanto entrava na sua. Primeiro a beijava e abraado com aquele corpo to viril e fabuloso, 
e depois a punha no olho da rua. Era to mortificante! Entrou no salo, ainda irritada, e deu um par de voltas, incapaz de se sentar. Liam tinha dado todos os passos, 
tinha sido ele quem a tinha beijado. Ela no tinha feito nada, maldio! 
      Tinha se limitado a ficar quieta como uma boneca, reconheceu frustrada e envergonhada enquanto ia  cozinha. 
      - Sou uma idiota, Rowan - disse enquanto se deixava cair sobre uma cadeira - Uma autntica idiota. 
      Tinha ido a sua procura, no? Tinha se embrenhado no bosque com um pote de bolachas, como a Chapeuzinho Vermelho, tinha se deixado seduzir pelo lobo. Mas o 
pior de tudo, era ter entrado em seu territrio, do que o fato de ele ter permitido que ela partisse. Deus!, Estava to desesperada que tinha se rendido aos ps 
de um homem que mal conhecia?
      Claro que devia reconhecer que era um homem bonito, atraente...e misterioso. Tinha algo que a cativava e era evidente que ele percebia isso.  E quando Liam 
a tinha tocado, ela tinha se entregue... E depois o tinha acossado. Em realidade, tambm no era to estranho que a tivesse expulsado de sua casa. Ainda que no 
tinha motivos para ter sido to cruel. Disse que no estava preparada para ele, tinha-a humilhado. 
      - Como ele pode saber para o que estou preparada quando nem eu mesma sei? -  pensou Rowan em voz alta - Em fim, est claro que ele no me deseja. Ento, me 
ocuparei de no voltar a cruzar com o caminho dele. Vim aqui a despejar minha vida, no par me  complicar ainda mais com um ermito irlands. 
      Ento, ela decidiu que iria a uma livraria, para comprar alguns manuais com explicaes prticas sobre encanamento ou eletricidade, para no ter que recorrer 
a Liam se voltava a surgir algum problema. 
      No tinha inteno de lhe pedir ajuda por nada do mundo. Ento as arrumaria sozinha. E se Liam aparecesse por ali para ajudar, pensou enquanto tomava a bolsa, 
diria que podia se cuidar sozinha. 
      Saiu do refgio, entrou no Ranger Rover, fechou a porta com um baque forte, e ps em marcha o motor. Graas a isso, pensou precavida, compraria um livro sobre 
manuteno de automveis, caso acontecesse algo ao seu. 
      Avanou com cuidado por um caminho, refreando a vontade de pisar a fundo no acelerador, e justo ao entrar na via principal, viu um ave majestosa. 
      Um guia, sups, enquanto pisava no freio para parar e estud-la. 
      Ainda que no sabia que existissem guias com uma plumagem prateada, nem se era normal que estivesse quieta sobre uma placa de trnsito, olhando os carros 
que passavam. 
      Certamente, a fauna de Oregon era excepcional, pensou Rowan. Incapaz de resistir-se, baixou o vidro da janela e colocou a cabea para fora. 
      - muito bonita - disse a ave - E com certeza  muito elegante voando. Pergunto-me o que sentir cortando o cu... Voc sabe, no ? 
      Tinha os olhos verdes. Um guia prateada com olhos verdes. Por um instante, pareceu-lhe ver um reflexo dourado entre suas plumas, como se levasse pendurado 
um medalho. Imaginao sua, decidiu enquanto voltava a subir a janela. 
      - Lobos, gamas e guias. Para que viver na cidade? - se perguntou Rowan - Adeus, majestade - se despediu a seguir. 
      Quando o Ranger Rover se afastou, o guia abriu as asas e se ergueu imponente para o cu.
      Voou sobre as rvores do bosque, deu voltas e iniciou a descida. Um redemoinho branco a envolveu, seguido de uma luz azul intensa. Ento, aterrissou no bosque 
com suavidade, sobre dois ps. 
      Era um homem alto, com uma mecha prateada e umas feies  angulosas, que poderiam ter sido esculpidas com mrmore em alguma colina de Irlanda. 
      - Foge como um coelhinho assustado - murmurou o homem - e depois joga a culpa na raposa.
      -  jovem, Finn - respondeu uma mulher que saiu do nada, de repente, muito bela, de longos cabelos e pele branca, suave como o alabastro - E no sabe o que 
h em seu interior. 
      - Precisa manter um pouco mais esse gnio que mostrou quando saiu da casa de Liam - observou o homem, sorridente - Voc poderia dar uma mo, Arianna. 
      A mulher riu e segurou o rosto de seu esposo com ambas mos. Numa brilhava o anel de ouro de seu casamento e na outra, um rubi vermelho como o fogo. 
      -Eles esto no caminho certo, Finn. Devemos deixar que avancem a seu ritmo. 
      -E quem conduziu  garota para o crculo de pedras e depois  choupana do menino? - respondeu ele, erguendo uma sobrancelha. 
      - Bem, nunca disse que no possamos dar algum empurrozinho de vez em quando - contestou ela - A garota tem seus problemas e Liam...  um homem difcil. Como 
seu pai. 
      - Eu acredito que saiu mais a sua me - contestou Finn, sorridente.  
      - E eu acredito que a garota tenha gostado - comentou Arianna enquanto acariciava a nuca a seu marido - Disse que voc  bonito e majestoso. Como  vaidoso...
      - Sou bonito. Voc mesma me disse muitas vezes - respondeu Finn, sorridente - Em fim, deixaremos ela vontade um pouco mais. Agora vamos para casa. J sinto 
falta Irlanda. 
      E depois de um redemoinho de nevoeiro branco, voltaram a casa. 
      
      
      
      Uma vez de volta no refgio, Rowan esquentou uma sopa enquanto devorava um captulo sobre noes bsicas de encanamento. Anoitecia. 
      Pela primeira vez desde sua chegada ali, no se deteve para contemplar o pr-do-sol, ao diminuir a luz, limitou-se a aproximar-se mais s pginas. Tinha os 
cotovelos apoiados sobre a mesa da cozinha, o ch estava esfriando e quase desejava que estragasse alguma tubulao, para pr a prova seus recm adquiridos conhecimentos. 
Sentia-se preparada, de maneira que decidiu abordar os captulos sobre eletricidade.  Mas antes faria o telefonema, aquele que estava adiando. Contemplou a possibilidade 
de tomar antes uma taa de vinho, mas decidiu que seria um comportamento prprio de uma pessoa de carter fraco. Tirou os culos de leitura, fechou-os, introduziu 
um marca pginas no livro e o fechou. E olhou o telefone. 
      Era horrvel ter medo de ligar para sua famlia. 
      Enrolou um pouco mais, com o pretexto de ordenar os livros que tinha comprado. Eram mais de doze e ainda estava surpreendida por ter escolhido tantos sobre 
mitos e lendas. Com certeza a entreteriam, pensou, e gastou um pouco mais de tempo ainda enquanto escolhia qual levaria para ler na cama. Depois lembrou que tinha 
que conseguir lenha para a lareira, lavar e secar o prato da sopa. 
      Saiu a dar uma volta pelo bosque procurando pelo lobo, que no tinha visto o dia todo. Quando viu que no tinha nada mais com o que se distrair, pegou o telefone 
e discou. 
      Vinte minutos depois, estava sentada sobre as escadas do alpendre traseiro. A luz da cozinha refletia pelas costas. E estava chorando. Tinha estado a ponto 
de sucumbir  presso de sua me; se render diante o tom ofendido dela. Sim, claro que voltaria a casa. Voltaria a dar aulas, faria o doutorado, se casaria com Alan 
e teria filhos. Viveria numa casa bonita num bairro seguro. Faria o que fosse para faz-los felizes. Se negar a isso seria muito duro... Mas mais necessrio ainda. 
As lgrimas corriam de seus olhos, mas nasciam no corao. Gostaria de entender por que sempre se sentia empurrada para uma direo que no era a que ela desejava 
tomar. Estava segura de que tinha outros caminhos, de que algo a esperava alm das expectativas de sua famlia. Quando o lobo apareceu e posou a cabea sobre suas 
mos, Rowan o abraou e apertou a cara contra seu pescoo. 
      - Odeio magoar os outros. 
      As lgrimas lhe umedeceram o pescoo. E comoveram o corao do lobo, que se esfregou contra ela para confort-la. 
      - Se no seguir seu prprio caminho, trair a sua famlia - lhe disse Liam telepaticamente - O amor abre portas, no as fecha. Uma vez que as tenha transpassado, 
eles seguiro a seu lado. 
      Rowan suspirou e secou seu rosto numa bochecha do lobo. 
      - No posso voltar, ainda que uma parte de mim o deseje. Se o fizer, sei que algo em meu interior... se partir - disse ao lobo - Nunca seguiria uma gama branca 
nem falaria com um guia. Nunca deixaria que um irlands irresistvel mal-educado me beijasse, nem faria algo to divertido e tonto como preparar bolachas de chocolate 
para o caf da manh. Preciso fazer este tipo de coisas, ser tipo de pessoa que as faz. Isso  o que eles no entendem, sabe? E tm medo porque me amam. - Voltou 
a suspirar enquanto acariciava a cabea do lobo, com a vista perdida para as sombras do bosque. 
      - Assim que tenho que conseguir sair por conta prpria, para que deixem de ter medo. Em parte me assusta mudar de vida, mas me assusta mais ainda no  mudar 
nada - prosseguiu Rowan - Sou uma covarde - Os olhos do lobo se engrandeceram, brilharam, um pequeno gemido a fez pestanejar. Tinham as faces muito juntas e Rowan 
podia ver seus letais dentes brancos. Acariciou-lhe novamente com dedos trmulos. - Est com fome? Tenho bolachas - props Rowan enquanto se punha de p. 
      O lobo grunhiu, seguiu-a, e ela foi dando passos para atrs. Ao chegar  porta, pensou em fech-la inesperadamente. Depois de tudo, era um animal selvagem, 
no podia confiar nele. Mas ao olh-lo nos olhos recordou que o lobo se tinha enroscado contra ela para consol-la... e deixou a porta aberta. 
      - No acredito que faa parte de sua dieta habitual, mas asseguro que est muito boa - disse Rowan enquanto lhe estendia uma mo com uma bolacha de chocolate. 
Teve que sufocar um grito de prazer quando o lobo a comeu, com suma delicadeza, da ponta de seus dedos - Ora, parece que descobrimos que o doce amansa s feras. 
Pegue outra, mas esta  a ltima.
      Quando o lobo se ergueu sobre as patas traseiras, com tanta agilidade como elegncia, e ps as dianteiras sobre os ombros de Rowan, esta se ficou sem respirao, 
olhando-o aos olhos fixamente. Depois ele lambeu o pescoo e a fez rir. 
      - Que par somos! - exclamou ela. 
      O lobo voltou a agachar, no sem antes abocanhar a bolacha que Rowan tinha na mo.
      - Isso. muito bem. Sabe? O que preciso  um banho quente e um livro. E uma boa taa de vinho. No vou pensar mais no que os demais querem. Nem em vizinhos 
atraentes de bocas voluptuosas. Vou concentrar-me no maravilha que  ter tanto espao e tanto tempo livre para mim - adicionou enquanto fechava o jarro das bolachas 
e o colocava sobre a geladeira. Abriu-a, tirou uma garrafa, serviu-se de uma taa e a ergueu como se fora a brindar. 
      - Para voc. - disse ao lobo - Por que no sobe e me faz companhia enquanto tomo banho?
      O lobo arreganhou os dentes e emitiu um som parecido a uma risada que queria dizer: por que no? 
      
      
      Estava fascinado. No era uma sensao cmoda, mas no podia tirar da cabea. Esforava-se para no esquecer que ela era uma mulher normal, com noivo inclusive, 
com a qual jamais poderia ter futuro. Mas simplesmente, no conseguia se separar dela. Acreditou que tinha conseguido se livrar dela ao jog-la de sua casa daquele 
modo to brusco. Mas gostou de assistir quele arranque de gnio que tinha vislumbrado nos olhos de Rowan. Em qualquer caso, tinha-o feito para no pensar nela durante 
uns dias. Era o mais inteligente e o mais seguro a fazer.
      Mas a tinha ouvido chorar. Enquanto programava um jogo frente ao computador, na sala, tinha ouvido o pranto de Rowan, o qual tinha rasgado o corao. Sentiu-se 
culpado e, incapaz de ficar de braos cruzados, foi a seu encontro para consol-la. Depois se irritou ao ouvi-la chamar a si mesma covarde. E a o que tinha feito 
a covarde quando um lobo selvagem tinha posto a rosnar? Oferecer-lhe uma bolacha de chocolate. Uma bolacha de chocolate, por todos os santos!
      Ela era absolutamente adorvel. Depois tinha se entretido e torturado vendo-a despir-se. Aquela mulher tinha uma forma de tirar a roupa capaz de enlouquecer 
qualquer um. Depois, vestida com um roupo vermelho que no se deu ao trabalho de fechar, tinha enchido a banheira com um gel borbulhante com cheiro a jasmim. 
      Acendeu algumas velas e colocou msica a um volume sedutoramente baixo. Liam reparou que ela estava sonhando acordada enquanto tirava o roupo, e se conteve 
para no se tocar em sua cabea e descobrir o que a estava fazendo sorrir. 
      Tinha um corpo precioso, esbelto e suave, de curvas delicadas. Ossos frgeis, ps pequenos e tmidos seios rosados. Queria sabore-los, percorr-los com a 
lngua... e lhe tinha custado um enorme esforo no morder o traseiro, firme e nu, quando Rowan tinha se inclinado para fechar a torneira do gua quente. Ao mesmo 
tempo que se sentia irritado, a admirava pelo fato de no ser vaidosa. Que no tivesse conscincia de sua beleza e que falasse com ele sobre tolices. Tinha entrado 
na gua lentamente, para que seu corpo fosse se acostumando  temperatura, enquanto o vapor subia e as borbulhas brincavam sobre seus seios. 
      Tinha vontade de meter-se na banheira convertido em homem.
      
       Rowan tinha rido quando o lobo tinha se aproximou para cheir-la. Tinha limitado a acariciar-lhe a cabea com ar ausente enquanto agarrava um livro com a 
outra. Conceitos bsicos de eletricidade e encanamento para inexperientes e amadores.
      - Aqui diz que se deve ter sempre algumas ferramentas mnimas a mo. Creio que vi algumas na despensa, mas ser melhor fazer uma lista para confirmar. A prxima 
vez que acabar a luz, eu arrumarei sozinha. No preciso que ningum me resgate, e muito menos Liam Donovan - tinha comentado ela. 
      De repente, meteu sua lngua de lobo no copo de vinho. 
      - No! Isso  um sauvignon! - tinha exclamado Rowan, afastado a copo - e agora est falando de como trocar um cabo. No  que eu tenha a inteno de faz-lo, 
mas no parece muito complicado. Sou boa em seguir instrues... e isso pode ser um problema. Estou muito acostumada a seguir as instrues dos outros. Por isso 
se surpreendem tanto quando tomo uma deciso por minha conta. - Depois deixou o livro, e levantou uma perna da gua e esfregou a coxa. - e eu mesma me surpreendi. 
O quanto estou gostando esta aventura - continuou Rowan enquanto as borbulhas subiam e baixavam sobre seus seios - Porque tudo est sendo uma grande aventura. 
      Seu cheiro ao sair da banheira, meia hora depois, tinha-o seduzido por completo. E no lhe tinha parecido menos excitante v-la pr o pijama. Ao ajoelhar-se 
para acender a lareira do dormitrio, tinha-se esfregado contra ela e, de repente, tinham comeado a brigar de brincadeira sobre o tapete. 
      Ela lhe coava a barriga e ele lhe lambia as bochechas. 
      - Me alegro tanto de que voc esteja  aqui!  bom ter um amigo que no espera outra coisa que amizade - tinha dito Rowan de repente, enquanto lhe acariciava 
o lombo. Depois tinha enrodilhado frente  lareira olhando para o fogo - Sempre gostei de fazer isso. Quando era pequena, tinha certeza de que via coisas nas chamas. 
Coisas mgicas, bonitas. Castelos, nuvens, alcantilados. Prncipes enfeitiados e colinas encantadas. Costumava pensar que iria at l, envolvida num redemoinho, 
transportada para um mundo mgico... Onde esto agora todas essas coisas? 
      E adormeceu. Uma vez dormindo, Liam se permitiu transformar-se em homem, e acariciar-lhe os cabelos enquanto olhava o fogo que Rowan tinha acendido. 
      - Eu posso lhe ensinar como se transportar a um mundo mgico envolvida num redemoinho. Mas s voc pode decidir isso, Rowan - disse Liam enquanto ela suspirava 
em sonhos - Deve ter pressa. Apresse-se e descubra o que  que deseja e para onde quer ir. Se decidir vir comigo, Rowan Murray, eu te ensinarei um mundo de magia 
- tinha finalizou.
      Depois se ergueu e levantou-a em seus braos para lev-la  cama e deu um beijo na sua testa. Saiu da choupana como um homem e se adentrou na escurido da 
noite como um lobo.
      
      
      
      
      Ela passou a semana seguinte impulsionada por uma vitalidade que a animava a encher cada minuto de cada dia com alguma novidade. Percorreu os bosques, adentrou-se 
nas colinas e desenhou tudo que lhe era agradvel  vista.  medida que a temperatura aumentava, as flores comeavam a aparecer. De noite seguia fresca, mas a primavera 
j estava disposta a reinar. Durante essa semana s viu o lobo. 
      Era raro que este no a acompanhasse ao menos uma hora ao dia. Passeando entre as rvores, esperando com pacincia enquanto ela observava uma flor ou um charco 
com rs. O telefonema semanal a seus pais a incomodou, mas se sentia com foras e no demorou em recuperar-se. E tambm escreveu uma longa carta a Alan, mas no 
disse nada de regressar. Acordava contente todas as manhs e todas as noites se deitava satisfeita. Sua nica frustrao era que ainda tinha que descobrir o que 
devia fazer. A no ser, pensava em ocasies, que o que devesse fazer fosse viver s com seus livros, seus desenhos e o lobo. 
      
      
      Liam no acordava contente todas as manhs. Nem se deitava satisfeito todas as noites. Jogava a culpa a Rowan, ainda que sabia que era injusto. Se esta tivesse 
sido menos inocente, teria aproveitado a oportunidade que ela lhe tinha oferecido. Teria satisfeito a necessidade fsica... e provavelmente emocional. Negava-se 
a aceitar o que queira que o destino lhe tivesse reservado, at no ter ele pleno controle sobre seu prprio corpo e sua mente. Estava de p, olhando para o mar 
durante uma tarde ensolarada, de vento suave e cheio de fragrncias primaverais. Tinha sado para respirar. No conseguia se concentrar no trabalho. E ainda que 
soubesse que era s uma diverso, orgulhava-se muito dos jogos que programava. Tocou o cristal que  tinha colocado no bolso. Deveria t-lo tranqilizado, mas sua 
cabea seguiu to revolta como o mar que contemplava. Notava a impacincia no ar. Impacincia dele, mas tambm de outros. No entanto, fosse qual fosse o destino 
que o aguardasse, os passos para chegar a ele ou afastar-se eram coisa sua. No o surpreendeu ver uma gaivota branca no cu, de olhos brilhantes como os dele. 
      - Oi, mame - a saudou depois de que a gaivota pousou  sobre uma rocha. 
      - Oi, minha vida - respondeu Arianna, sorridente, depois de transformar-se em mulher.
      - Senti sua falta - disse Liam ao mesmo tempo em que a abraava - Cheiras a casa. 
      - Ns tambm sentimos sua falta - respondeu ela - Parece cansado. Est com problemas para dormir. 
      - Sim, no parece estranho? 
      - No - Arianna negou e lhe deu um beijo na bochecha de seu filho. Depois olhou ao mar - Este lugar que escolheu  lindo. Sempre soube escolher, Liam, e sempre 
ter essa opo... Rowan  adorvel, e tem um grande corao -adicionou, olhando-o nos olhos. 
      - Voc que a enviou? 
      -O dia em que ela foi te visitar? Sim, ensinei-lhe o caminho - Arianna deu os ombros e se sentou sobre a rocha sobre a qual tinha aterrissado - Mas no a enviei 
aqui, ao bosque. H poderes superiores alheios aos nossos que assim o dispuseram...a achou atraente, verdade? 
      - Por que no ia ach-la?
      - No  o tipo de mulher que costuma te atrair, ao menos para voc lev-la  cama. 
      - Sou adulto -replicou Liam - No tenho por que falar de minha vida sexual com minha me. 
      - O sexo que vai unido ao respeito e ao carinho,  muito saudvel - insistiu ela - E  normal que me preocupe pela sade de meu nico filho, no? No se deitou 
com ela porque tem medo de que seja algo mais do que sexo. 
      - O que quer que eu faa! Durmo com ela e depois a deixo de corao partido? - contestou ele, irritado. 
      - Por que tem certeza que vai mago-la? 
      -  inevitvel. 
      - Sempre  inevitvel magoar -respondeu Arianna - Voc acredita que seu pai e eu no nos magoamos nunca nestes trinta anos? 
      - Ela no  como ns - respondeu Liam - Se permitir que sintamos mais do que j sentimos o um pelo outro, terei que dar as costas a minhas obrigaes. Obrigaes 
que devo enfrentar. Sei que papai quer que ocupe seu posto.
      - No to rpido - contestou Arianna, rindo - Mas sim, quando chegar o momento, espera-se que voc assuma a direo da famlia Donovan. 
      -  um poder que posso transferir a outro membro. Tenho direito. 
      - Verdade - concordou a me - Tem o direito a abrir mo e a deixar que seja outro que leve o amuleto.  isso o que deseja?
      -No sei - respondeu Liam, frustrado - Eu no sou como papai. No me relaciono com as pessoas como ele. No tenho sua prudncia, sua pacincia nem sua compaixo. 
      -Verdade, mas tem suas prprias virtudes - replicou Arianna - Est capacitado para assumir essa responsabilidade. 
      - J pensei nisso. Mas sei que se me comprometer com uma mulher que no tem sangue de elfo, terei que renunciar  direo da famlia. Se me permitir am-la, 
darei as costas a minhas obrigaes com a famlia. 
      - Por todos os santos! Por que no olhou ainda? - exclamou a me, crispada - Se tem alguns dons so para us-los! 
      - Os usarei se quiser! Sou livre! 
      - O que voc ,  um cabea-dura - replicou a me- E no me levante a voz, Liam Donovan. 
      - J no tenho doze anos - contestou este. 
      - Tanto faz que tenha cem anos ou doze. Sou sua me e tem que me mostrar respeito.
      - Sim, senhora - replicou Liam. 
      - Assim est melhor. E me faa o favor de parar de se torturar com o que o destino te reserva e olhe de uma vez. E se os seus princpios no te permitem, pergunte 
pelo menos pela famlia de sua me - Arianna suspirou e acariciou o cabelo de Liam - Venha c, e me d um beijo. Rowan vai vir em seguida - adicionou sorridente. 
      Deram-se um beijo e, de repente, bateu as asas brancas e ergueu o vo.
      
     Captulo Cinco
      No a tinha notado, isso o irritava. A visita de sua me o tinha aborrecido, razo pela qual se achava bloqueada sua capacidade perceptiva. S agora, ao voltar-se, 
aspirou a fragrncia de jasmins de Rowan. A viu sair do bosque, ainda que esta no conseguisse v-lo. Liam tinha o sol detrs e ela estava olhando em outra direo 
enquanto subia pelo caminho dos alcantilados. Levava o cabelo para atrs, presos por uma presilha marrom, cujo o vento jogava e levantava. Carregava uma bolsa no 
ombro e se tinha vestido umas cala cinza desbotada e uma camisa da cor dos narcisos. V-la falar consigo mesma enquanto subia na rocha o relaxou e enojou ao mesmo 
tempo. Depois, ambas sensaes ficaram em segundo plano, pois se divertiu em observar como Rowan, ao avist-lo, franziu o cenho desagradado. 
      - Bom dia - a saudou Liam. 
      Ela assentiu com a cabea e agarrou a tira da bolsa com ambas mos, como se no soubesse que outra coisa fazer com elas. Seu olhar era frio, em contraste com 
essas mos nervosas. 
      - Oi. Teria ido para outro lugar se soubesse que estava aqui. Suponho que queira ficar s. 
      - No especialmente. 
      - Pois eu quero - respondeu Rowan, para em seguida ps-se a andar em direo as rochas, afastando-se de Liam. 
      - Est irritada, Rowan Murray? 
      - Est parecendo isso - contestou ela, com orgulho, sem deixar de andar. 
      - Vai passar logo. Voc sabe que no  rancorosa.
      Rowan encolheu os ombros, consciente de que estava comportando-se como uma menina. Tinha sado para desenhar o mar, os barquinhos que se divisavam no horizonte, 
os pssaros do cu. No para v-lo e recordar o que tinha passado entre ambos, as sensaes que tinham acordado em seu interior. Mas tambm no ia evitar a toda 
costa, como um ratinho assustado ante um grande gato. Apertou os dentes, sentou-se sobre uma rocha e abriu a bolsa, da qual sacou uma garrafa de gua, um caderno 
e um lpis. Obrigando-se a se concentrar, olhou para o mar e tratou de absorver toda sua beleza. Comeou a desenhar, dizendo a si mesma que no o olharia. Porque 
com certeza Liam a seguia. Por que, sentia seus msculos estavam to tensos e o corao batendo descompassado.
      Mas no olharia. Ainda que ao final sim. Ele estava ali, a no muitos passos, com as mos metidas nos bolsos e a vista perdida no mar. J era m sorte, sups 
Rowan, que fosse um homem to atraente, capaz de estar a, de p e despenteado pelo vento, e que seu perfil lhe recordasse ao Lorde Byron. Ou a um cavaleiro antes 
da batalha, ou um prncipe vigiando seu territrio. Sim, podia ser tudo isso e mais, to romntico com vaqueiros e camisetas como qualquer guerreiro de brilhante 
armadura. 
      -No quero brigar com voc, Rowan - acreditou ter ouvido. Mas era impossvel. Estavam demasiado longe para que lhe tivessem chegado essas palavras sussurradas. 
Assim que sups que essa seria a resposta que Liam daria se ela dissesse o que pensava. Tomou ar, voltou a olhar o caderno e a desagradou comprovar que, sem dar-se 
conta, tinha comeado a desenhar o Liam. Ento, mudou de pgina.
      -No tem sentido que fique brava comigo... nem consigo mesma. 
      Nesta ocasio soube que sim, ele tinha falado, ergueu  olhar e viu que Liam  tinha se aproximado dela. 
      Teve que entrecerrar os olhos e colocar-se o canto da mo sobre a testa, como uma viseira, para que o sol no a cegasse. 
      Quando ele sentou a seu lado, Rowan suspirou. Depois, ao ver que no falava e que parecia disposto a fazer companhia, comeou a golpear o lpis sobre o caderno. 
      - A costa  muito longa. Importa-se em sentar em outro lugar? - terminou dizendo. 
      - Gosto deste lugar - replicou ele. Rowan fez meno de se levantar, mas Liam a segurou - No seja boba. 
      -No me chame de boba. Estou farta de que me digam que sou boba - replicou Rowan - e voc nem sequer me conhece. 
      - O que voc est desenhando? - perguntou Liam de repente.
      - Agora nada - contestou ela enquanto guardava o caderno na bolsa. Depois voltou a tentar se erguer, mas Liam a reteve de novo - Est bem, vamos conversar. 
Reconheo que tinha a esperana de te encontrar. Senti-me atrada... estou certa de que est acostumado que as mulheres se sintam atrada por voc. Queria te agradecer 
por me ajudar na noite da tempestade, ainda que na verdade era s uma desculpa. Reconheo que te procurei em sua casa, mas foi voc quem me beijou. 
      - Sim foi o que fiz, sim - murmurou Liam e queria voltar a beij-la, nesse instante em que tinha a boca em forma de uma linha e seus olhos brilhavam irritados 
e cheio de fogo ao mesmo tempo. 
      -E minha reao foi excessiva - reconheceu Rowan, ainda aborrecida.  Voc tinha todo o direito do mundo de me pedir que fosse embora, mas no daquele modo 
to brusco. Ningum tem direito de ser descorts. Mas, vamos, no me estranha que queira se manter afastado de mim.
      - Vamos com calma: sim, estou acostumado que as mulheres se sintam atradas para mim. O qual me parece perfeito, pois eu tambm gosto de mulheres - disparou 
ele - Pode ser que eu parea arrogante, mas acho que a falsa modstia  pura hipocrisia. Por outro lado, ainda  verdade que gosto de estar s a maioria do tempo, 
mas, sua visita me alegrou. E te beijei porque o desejava, porque tem uma boca muito bonita. 
      Liam olhou a face surpresa dela e se deu conta de que ningum lhe tinha dito isso antes. Negou com a cabea, incapaz de compreender a estupidez do resto do 
gnero masculino.
      - Te beijei porque seus olhos me recordam aos dos elfos que danam nas colinas de meu pas. Porque tem um cabelo brilhante e uma pele to suave como o gua 
- prosseguiu ele. 
      -No - o interrompeu Rowan - No faa isso. No  justo. 
      Pode ser que no fosse justo enfatizar a beleza de uma mulher que no estava acostumada a ouvir elogios, mas encolheu de ombros. 
      -  a verdade. E eu tambm perdi o controle durante alguns segundos. Por isso fui brusco. Sinto muito, Rowan. 
      - Sente por ter sido brusco ou ter perdido o controle comigo? 
      - As duas coisas, para ser sincero. Disse que no estava preparado para voc e falava a srio. 
      Ouvir a verdade, sem rodeios, diminuiu a irritao de Rowan... e a fez tremer ligeiramente. Ficou em silncio, com a vista fixa nas mos, enquanto as ondas 
chocavam abaixo e as gaivotas dominavam o cu.
      - Pode ser que eu te entenda, um pouco. Estou num momento difcil de minha vida - disse Rowan por fim  - Tenho que tomar uma deciso... Creio que a gente fica 
mais vulnervel quando chega ao final de algo e tem de escolher o que vai fazer a seguir... No te conheo, Liam, e no sei o que te dizer, nem o que fazer - adicionou, 
olhando-o no rosto. 
      Teria algum homem vivo capaz de suportar uma resposta to sincera e espontnea? perguntou-se ele. 
      - Me convide para tomar um ch. 
      - O que? 
      - Quero me convide para tomar um ch - Liam sorriu - Vai comear a chover e ser melhor do que nos refugiemos - acrescentou. Depois de tudo, seu pai no era 
o nico que podia fazer mudar o clima em seu proveito, no? 
      - Chover? Mas o sol... - Rowan se calou ao ver que o cu se apagava e se cobria de nuvens de repente. 
      Em seguida, comeou a chuviscar.
      - Achei que o cu ia ficar o dia todo - afirmou enquanto metia a garrafa de gua na bolsa. Depois se levantou, aceitando a mo que Liam tinha estendido.
      - S sero alguns pingos - disse ele enquanto a guiava pelas rochas para o caminho de abaixo -  A chuva te incomoda? 
       -No, na verdade gosto - contestou ela - O sol continua brilhando. 
      - Veremos um arco ris - prometeu Liam, uma vez abaixo - Bem, ento me convida para um ch? 
      - Acho que sim. - Rowan no conseguiu evitar de sorrir. 
      - Viu? Te falei. No sabe ficar irritada por muito tempo. 
      - S preciso praticar - respondeu ela. 
      -  provvel que eu te d motivos de sobra para que o faa -respondeu Liam entre risos. 
      - Tem o costume de irritar as pessoas? 
      - Exato. Sou um homem difcil - respondeu enquanto caminhavam sob as rvores do bosque  - Meus pais dizem que no conhecem ningum mais renitente do que eu. 
      - Esto na  Irlanda?
      - Sim - respondeu Liam. Ainda que no podia estar seguro se no olhava. Preferia no saber se estavam escondidos por perto, vigiando-o. 
      - Sente falta deles? 
      - Sim, ainda que... estamos sempre em contato - improvisou ele - E voc? Sente falta a sua famlia? - adicionou ao advertir o tom sombrio de Rowan ao perguntar. 
      - Me sinto culpada porque no sinto falta tanto como deveria. Nunca tinha estado s antes e... 
      - Est gostando - completou Liam. 
      - Muito - Rowan riu. Depois tirou as chaves do bolso. 
      - No tem o por que se sentir mal por isso... Por que usa tranca? -perguntou ele, surpreso. 
      - O costume - respondeu Rowan - Vou preparar o ch. Esta manh fiz uns biscoitos de limo, mas se queimaram um pouco - adicionou caminho da cozinha.
      Estava limpa, observou ele, e lhe tinha dado seu toque pessoal, para faz-la mais acolhedora. O conjunto de objetos convertem uma casa num lar. Tinha algumas 
flores muito bonitas sobre uma garrafa de vidro, a qual tinha colocado sobre a mesa, junto a uma cestinha branca com mas verdes. Sentou-se numa das cadeiras, deleitando-se 
com o manso cair da chuva. E pensou nas palavras de sua me. No, no utilizaria seus poderes. Uma coisa era passar-lhe alguma idia telepaticamente e outra conferir 
seu passado sem pedir-lhe permisso. 
      Igual que ele exigia que respeitassem sua intimidade, devia respeitar a dos demais. 
      - O que seus pais fazem? - perguntou-lhe por fim. 
      - So professores na universidade, ali em So Francisco - contestou enquanto se esquentava o gua do ch - Meu pai  catedrtico de Ingls e sua me? - quis 
saber Liam. 
      Enquanto isso, Rowan tirou o caderno de desenhos da bolsa, e deixou sobre a mesa. 
      - D aulas de Histria - respondeu ao mesmo tempo em que jogava a infuso num bule com formato de fada e asas aladas- So muito bons professores. O ano passado 
nomearam a minha me diretora e... 
      Ficou-se muda ao descobrir que Liam estava olhando os desenhos que tinha feito do lobo.
      - So lindos - assegurou ele sem levantar o olhar, enquanto passava ao seguinte desenho, das rvores e samambaias do bosque. Tinha dado forma alada s folhas, 
percebeu Liam, sorridente. Era sinal de que tinha visto s fadas. 
      -No valem nada -Rowan desejou arrancar-lhe o caderno e fech-lo, mas os bons modos a impediram e quando ele a olhou nos olhos, estremeceu-se. 
      - Por que fala isso, e se esfora em acreditar, quando tem talento e  alm disso gosta do que faz?
      -S o fao em meus momentos livres...de vez em quando. 
      Liam passou  seguinte pgina, na que podia ver um lindo desenho da choupana de Belinda. 
      - E se ofende quando a chamam de boba? - murmurou ele- Pois  boba se no se dedica ao que gosta, em vez de ficar de braos cruzados. 
      - Isso  ridculo. Eu no fico de braos cruzados - contestou Rowan enquanto servia o ch -  um hobby somente. Todos temos algum. 
      -  seu dom - corrigiu Liam - e o tem desprezado.
      - No se vive de fazer desenhos. 
      - E isso que tem a ver? 
      - Nada. S que s vezes se precisa comer, vestir-se, pagar as contas da casa - ironizou Rowan - Essas coisas triviais do mundo real. 
      - Ento venda sua arte e converta-a numa forma de ganhar a vida. 
      - Ningum vai comprar um desenho a lpis de uma professora de ingls.
      - Eu compro este - Liam se levantou e mostrou um dos muitos desenhos que tinha feito do lobo, cujos olhos brilhavam com um reflexo desafiante idntico ao que 
agora iluminava os olhos dele - Quanto vale? 
      -No vou te vender, e nem voc vai comprar s para ficar com a razo -replicou Rowan -  Venha c, sente-se e tome o ch. 
      - Ento me d de presente. Gostei dele. E este tambm - disse Liam, assinalando o desenho das rvores e os samambaias - Seria til um desenho assim para o 
jogo que estou programando. J que no tenho talento para desenhar. 
      - E quem se encarrega ento dos grficos? - perguntou ela, com a esperana de mudar de tema, ao mesmo tempo em que pegava os doces de limo. 
      - No h ningum fixo - Liam provou um dos doces. Ainda que era inegvel que estavam um pouco queimados por embaixo, o resto estava deliciosos - Seus pais 
desenham? 
      -No - contestou Rowan. S de pensar comeou a rir. No podia imaginar seus pais sonhando com um lpis frente a uma folha em branco - Me matricularam numa 
academia quando era pequena e eu gosto. Minha me tem emoldurado um desenho no escritrio da universidade, desde quando era adolescente. 
      - Ou seja, valoriza seu talento. 
      - Ou seja, gosta da sua filha - corrigiu Rowan depois de tomar um gole  ch. 
      - Ento, suponho que tambm gostar que sua filha desenvolva seus talentos e aptides - replicou ele - Talvez algum de seus avs fosse artista? 
      - No, meu av por parte de pai era tambm professor. E sua esposa era o que poderia chamar uma mulher de seu tempo. Ainda cuida da casa. 
      - E por parte de me? 
      - Meu av est aposentado. Vivem em San Diego. Minha av faz algumas coisas de croch muito bonitas. 
      - Suponho que se pode chamar de arte - concedeu Rowan - Agora que estou pensando... sua me sim era pintora. Temos algumas aquarelas dela. Creio que minha 
av e seu irmo tm as demais. Era... excntrica - adicionou sorridente. 
      - Em que sentido? 
      - No cheguei a conhec-la, mas meus pais dizem que lia a mo e falava com os animais... tudo na contramo da vontade de seu marido. Se no me engano, era 
um ingls muito pragmtico. E ela uma irlandesa sonhadora.
      - Ento ela era da Irlanda - Liam sentiu uma vibrao pela medula - Como se chamava? 
      -Eh... O'Meara -respondeu ela depois de mergulhar na memria. Depois deu outro gole de ch, relaxada, enquanto Liam escutava com o corao disparado - .Minha 
me me deu o nome dela. Suponho que foi por isso que ela me deixou seu medalho.  muito antigo. Dourado, com bordas prateadas. 
      - Ou seja, se chamava Rowan O'Meara - disse ele, ao mesmo tempo em que deixava de lado o ch. 
      - Exato. Creio que h uma histria muito romntica, se no a inventaram, sobre como  conheceu meu bisav: uma vez ele foi de frias  Irlanda. Ela estava pintando 
os desfiladeiros, em Clare.  curioso. No sei por que me lembro de que era nesse condado - comentou Rowan  - O caso  que foi um amor  primeira vista, e ela deixou 
sua casa e a sua famlia para ir para a Inglaterra com ele. Depois emigraram para o Estados Unidos e acabaram assentando-se em So Francisco. 
      Rowan O'Meara, de Clare. O destino tinha dado uma volta para preparar uma nova armadilha.  Liam bebeu um gole de ch para limpar a garganta. 
      - Meu segundo sobrenome, o de minha me,  O'Meara informou Liam -  Sua bisav foi uma prima distante da minha. O que quer dizer que voc e eu somos primos. 
      - Est brincando comigo!- exclamou Rowan, radiante, assombrada e feliz ao mesmo tempo. 
      - Quando a assunto  famlia nunca brinco.
      - Com certeza, o mundo  pequeno - Rowan riu e ergueu sua xcara - Prazer em conhec-lo, primo Liam. 
      Por todos os santos! Pensou enquanto brindava com Rowan. A mulher que lhe estava sorrindo com esses olhos irlands azuis, tinha sangue de elfo e nem sequer 
o sabia. 
      - Olhe, j apareceu o arco ris - avisou ele. No tinha olhado pela janela, mas sabia que o colorido arco j estava sulcando o cu. No por ele. Tinha sido 
seu pai quem tinha feito a magia.
      - Que bonito! - exclamou Rowan depois de levantar e olhar pela janela  - Vamos l fora.  lindo! 
      Saiu correndo, desceu as escadas do alpendre e olhou para acima. Nunca tinha visto um arco ris to ntido e bem definido. Destacava em contraste com o cu 
e banhava as copas das rvores com cada um de suas cores. 
      - Nunca tinha visto um to bonito - assegurou.
      Quando ele a alcanou, Rowan estendeu uma mo e bastou esse leve contato para desconcert-lo e comov-lo. Com tudo, enquanto olhava o cu, prometeu-se que 
no se apaixonaria por ela a no ser que assim o desejasse. 
      Negava-se que o manipulassem, a que o destino o manejasse como se fosse um pio.
      Tomaria sua prpria sua deciso. Mas isso no queria dizer que, por enquanto, no pudesse dar-se algum capricho. 
      - Isto no significa mais nem menos do que o outro. 
      - O que? 
      - Isto - Liam emoldurou a face de Rowan com as palmas das mos, inclinou-se e posou os lbios sobre os dela. - Suaves como a seda, delicados como a chuva que 
ainda cai sob o sol. 
      Deixaria que o beijo fosse terno, pensou ele. Era melhor para os dois frear o instinto selvagem que rugia em seu interior. Mais seguro, mais inteligente. Bastava-lhe 
provar a inocncia de seus lbios. Faria o possvel para que no se apaixonasse por ele, tinha medo de lhe magoar.  Mas quando Rowan apoiou uma mo sobre um de seus 
ombros, quando comeou a devolver-lhe o beijo, Liam sentiu que seu instinto lhe fincava as garras, lutando por se libertar. 
      Rowan estava se entregando, no estava reservando nada, seguia beijando-o, ao mesmo tempo em que lhe acariciava os ombros. 
      Liam se separou antes que o desejo nublasse seu juzo por completo. E quando Rowan o olhou nos olhos com os lbios ainda entreabertos, soltou-a: 
      - Suponho que  a qumica - comentou ela quando encontrou a voz. 
      - A qumica pode ser perigosa - respondeu Liam. 
      - No se pode descobrir nada se no faz experimentos - replicou Rowan. 
      Surpreendeu-se em ouvir sair de sua boca um comentrio to sedutor; mas, de alguma maneira, pareceu-lhe natural convidar a Liam a que seguisse adiante. 
      - Neste caso,  melhor do que conhea os elementos da mistura. Pergunto-me at que ponto est disposta a descobri-los. 
      - Vim aqui para descobrir todo tipo de coisas - Rowan suspirou - No esperava te encontrar.
      -        Entendi, primeiro quer encontrar  verdadeira Rowan Murray - disse ele - Se agora entrssemos em casa, se nos deitssemos juntos, descobriria em seguida 
uma parte dela.  isso o que quer? 
      -No - contestou Rowan, apesar de que seu corpo o desejava aos gritos - Porque ento seria simples revoluo, como voc diz. E no quero me conformar com algo 
simples.
      - Ainda assim, creio que voltarei a te beijar quando eu quiser. 
      - Acho que te deixarei que me beije quando eu desejar tambm - respondeu ela com um sorriso desafiante. 
      - Tem um pouco dessa mulher irlandesa - afirmou Liam, devolvendo-lhe o sorriso. 
      -  possvel - disse Rowan, super feliz - Talvez deva inteirar-me mais das coisas. 
      - O far  - comentou ele, j sem sorrir - E quando o fizer, espero que saiba como reagir. Escolha um dia da semana que vem e venha me visitar. Com o caderno 
dos desenhos. 
      - Para que? 
      - Me ocorreu uma idia. 
      Mal no podia fazer, pensou Rowan. e lhe daria um pouco de tempo para pensar em tudo o que tinha passado nessa manh. 
      - De acordo, mas tanto faz o dia. Tenho todos os dias livres. 
      -Voc saber o dia adequado quando ele chegar - contestou Liam enquanto lhe acariciava o cabelo - Como eu saberei. 
      - E isso o que ? Uma espcie estranha de telepatia irlandesa? 
      - No imagina como - murmurou Liam - Que voc tenha um bom dia, prima Rowan. 
      Ele fez uma carcia no rosto e depois deu meia volta e se foi. Bem, pensou ela, por enquanto, o dia no ia nada mal. 
      
      
      
      
      
      
      E quando voltou a encontrar-se com Liam, em sonhos, deu-lhe as boas vindas. Quando este se introduziu em seu crebro, seduziu-a, excitou-a, f-la suspirar, 
almejar, gemer. Tremeu de prazer, sussurrou seu nome e, de alguma maneira, teve a certeza de que ele era to vulnervel como, ela. Ainda que s fora por um segundo, 
soube que Liam no seria capaz de negar nada do que pedisse. 
      Mas no sabia o que pedir. Inclusive enquanto se satisfazia com seu corpo e deixava voar a imaginao, uma, parte dela pensava: o que deveria perguntar? O 
que precisava saber? A escuras, com uma meia lua derramando sua luz de prata atravs da janela, acordou, sozinha. Afundou a cabea no travesseiro e escutou os uivos 
do lobo, tambm solitrio.
      
     Captulo seis
      Rowan assistiu ao florescimento da primavera. E com esta, algo pareceu florescer dentro dela tambm. 
      Os narcisos embriagavam o ar com sua fragrncia. A pequena parreira que se via pela janela da cozinha comeava a dar frutos, que danavam com o vento. Dentro 
do bosque, as azleas tomavam tons brancos e rosados, e as dedaleiras se abriam em racimos. Tinha muitas mais flores. Rowan prometeu comprar-se um livro sobre a 
flora de Oregon em sua prxima viagem  cidade. Queria conhecer seus ciclos e aprender todos seus nomes. Ela tambm estava radiante. No tinha mais cor em seu rosto? 
Perguntava-se. Mais luz em seus olhos? Sabia que: sorria com mais freqncia, gostava do fato que seus lbios se curvarem sem um motivo aparente, enquanto passeava 
ou desenhava, ou simplesmente enquanto estava sentada no alpendre, lendo durante horas. 
      
      J no se sentia solitria pelas noites. Quando o lobo a visitava, falava com ele sobre o que estivesse pensando naquele instante.  E quando se ausentava, 
alegrava-se de passar a noite a ss. No estava segura de que tinha mudado, mas sim de que algo o tinha feito. E de que a esperavam mais e maiores mudanas. Talvez 
fora sua deciso de no regressar a So Francisco, de no seguir dando aulas e no se comprar um apartamento ao lado da casa de seus pais. Nunca tinha desejado nada 
daquilo. No tinha sentido a menor necessidade de encher o armrio de roupa nem de fazer viagens custosas durante as Frias. Ademais, contava com a pequena herana 
que tinha recebido de um parente de sua me. 
      Herana que tinha investido e tinha visto dar rendimentos durante os ltimos anos. Tinha dinheiro suficiente para pagar a entrada de uma casa em algum lugar. 
Algum lugar calmo e bonito pensou, enquanto tomava uma xcara de caf no alpendre, de p, para dar as boas vindas a uma nova manh. Tinha que ser um uma casa. Acabou-se 
o viver em edifcios. Tinha que ser um lugar no campo. J no poderia ser feliz com o rudo e o agito de uma cidade. Teria um jardim, aprenderia a plantar flores, 
e talvez estaria perto de um ribeiro ou um lago. Tinha que estar perto do mar, para poder passear pela orla e ouvir o murmrio da gua pela noite, enquanto conciliava 
o sonho. 
      Talvez, s talvez, na prxima viagem  cidade fosse ver algum corretor de imveis. S para se informar dos preos. Era um passo muito grande: escolher um lugar, 
comprar uma casa, mobili-la, mant-la. Mas estava decidida a dar o passo, disse a si mesma enquanto brincava com sua caneta. E encontrar um trabalho goste. No 
precisava muito dinheiro. Bastaria com ganhar o suficiente para manter-se enquanto se dedicava a pintar, a cuidar do jardim e consertar ela s as avarias de sua 
casa. Se encontrasse algo perto, no teria que deixar o lobo. Nem Liam. Rowan negou com a cabea. No, no podia contar com Liam para o futuro, som-lo as razes 
pelas que estava, planejando se estabelecer nessa regio. Ele era independente e iria embora quando quisesse. 
      Igual o lobo, disse num suspiro. Depois de tudo, nenhum dos dois lhe pertencia. Ambos eram seres solitrios, belas criaturas que no tinham dono. E que tinham 
entrado em sua vida e tinham contribudo para que esta mudasse, sups. Ainda que as mudanas maiores dependiam dela. Depois de trs semanas na choupana de Belinda, 
parecia preparada para enfrent-los. J estava preparada. Era o momento de dar os passos definitivos. 
      De repente, pareceu-lhe ouvir um sussurro dentro de sua cabea. Um sussurro que pronunciava seu nome na distncia, suave, mansamente. Liam tinha dito que iria 
reconhece-lo recordou Rowan. Que saberia o momento adequado. Pois no tinha melhor momento do que esse, no qual estava to segura de si mesma.
      
      
      Sabia que ela estava a caminho. Tentou no se aproximar dela durante os dias anteriores, ainda que no tinha conseguido se distanciar de tudo, pois o preocupava 
imagin-la sozinha no bosque. No entanto, era muito fcil comprovar que se encontrava bem. No podia negar que adorava quando Rowan lhe abria a porta e se agachava 
para lhe acariciar a cabea ou o lombo. No tinha medo do lobo, pensou Liam. De fato, era mais precavida quando se apresentava diante dela como homem. 
      Mas agora vinha para ver ao homem. Liam acreditava que tinha um bom plano, para os dois. Um plano que lhe daria a oportunidade de que desenvolvesse seus poderes 
e seu talento... e que lhes daria tempo para ir conhecendo-se melhor  um ao outro. 
      No voltaria a toc-la at ento. Tinha se prometido. Era muito difcil provar sua doura e no possuir tudo.
      Ainda que pelas noites se permitia entrar em seus sonhos, dar-lhe prazer e deix-la descansar radiante. Ainda que ele ficava insatisfeito. Em qualquer caso, 
estava-a preparando para a noite em que esses sonhos se fariam realidade. Para a noite na que seriam suas mos, em vez de seus pensamentos, que percorreriam seu 
corpo. S de pensar sentiu um n no estmago. Enfurecido por tal reao, ordenou a seu crebro que se aquietasse, e a seu corpo que relaxasse. Mas se enfureceu ainda 
mais quando comprovou que seus poderes no bastavam para aliviar toda a tenso. 
       - Ainda no chegou o dia em que no possa controlar uma atrao fsica por uma mulher meio bruxa - murmurou enquanto entrava em sua choupana. 
      Porque se negava a esper-la de p no alpendre, com olhos ansiosos de apaixonado, aguardando-a. De maneira que dedicou a dar voltas e a amaldioar em galico, 
at que ouviu que o chamavam  porta. 
      Liam abriu mal-humorado. E a viu, com o sol iluminando-a pelas costas, com um sorriso radiante nos lbios e o cabelo soltando-se da presilha, segurando algumas 
flores roxas numa mo. 
      - Bom dia - saudou Rowan - Creio que so violetas, mas no estou totalmente segura. Tenho que comprar um livro. 
      Ofereceu a flor e Liam sentiu que seu corao estremecia. A inocncia brilhava nos olhos de Rowan, cujas bochechas brilhavam acanhadas. E tinha violetas na 
mo. S podia ficar olhando-a. E desej-la. 
      - No gosta das flores? - perguntou ela ao ver que Liam no respondia. 
      - Sim, sim. Me perdoe, estava distrado - reagiu por fim. Por Deus ! Tinha que se acalmar! - Entre, Rowan Murray.  bem-vinda, e suas flores tambm - adicionou, 
mais amvel do que teria gostado. 
      - Se vim em uma m hora - comentou Rowan. Mas Liam foi para o lado, para deix-la passar - Me ocorreu de vir aqui antes de ir at a cidade. 
      - Para comprar mais livros? - perguntou ele. Deixou a porta aberta, como se oferecesse um caminho para fuga. 
      - E para falar com um corredor de imveis. Estou pensando em comprar algo por aqui. 
      - Verdade? -Liam ergueu uma sobrancelha -  este seu lugar? 
      - Isso parece. Pode ser - Rowan encolheu de ombros - Algum tem que ser. 
      - E se decidiu... como disse antes... como ir ganhar a vida? 
      - No exatamente - respondeu ela. A luz de seus olhos se atenuou um pouco - Mas o farei. 
      Liam lamentou ter posto essa preocupao no rosto de Rowan.
      - Tenho uma idia a respeito. Vamos  cozinha, ver se encontramos onde colocar as flores. 
      - J foi ao bosque? Est lindo com a primavera. E a choupana de Belinda est rodeada de flores. No conheo nem a metade delas, nem as que tm em seu jardim. 
      -A maioria so comuns, teis para uma coisa ou outra - respondeu Liam enquanto colocava as violetas num vaso azul.
      - Tem mais atrs - comentou Rowan depois de olhar pela janela da cozinha - So ervas? 
      - Sim, so. 
      - Para cozinhar. 
      - Para isso... e para outras coisas - Liam sorriu - Tambm vai comprar um livro sobre ervas? 
      - Provavelmente - contestou ela, rindo - H tantas coisas s quais nunca prestei ateno. Agora quero descobrir tudo. 
      - E isso voc mesma. 
      - Suponho... 
      - E? - incapaz de resistir, Liam brincou com as pontas do cabelo - O que descobriu sobre Rowan? 
      - Que ela no  to incapaz como pensava. 
      - E por que pensava isso? - replicou ele, incomodado. 
      - Bem, no em todos os sentidos. Sei ensinar e sei como aplicar o que aprendo. Eram as coisas pequenas e era com as realmente grandes que nunca sabia o que 
fazer. Me dava bem no meio termo. Mas no me fixava nos detalhes e permitia que dirigissem minha vida nas decises mais importantes. 
      - Vou te dar uma sugesto a respeito disso que chama de coisas grandes. Espero que depois faa o que mais lhe agradar. 
      - Q que? 
      - Logo - contestou Liam - Antes quero que veja o que tenho estado fazendo - Intrigada, seguiu-o ao escritrio. O computador estava ligado e no protetor de 
tela podiam ver luas, estrelas e alguns smbolos que no pde entender. Liam tocou uma tecla e o texto apareceu no monitor. 
      - O que parece? - perguntou ele. 
      Rowan se inclinou para ler melhor e, segundos depois comeou a rir. 
      - Acho que no sei decifrar essa mistura de signos e palavras em outro idioma. 
      Liam olhou para o monitor e suspirou impaciente. Tinha estado to metido na trama, que se tinha esquecido dessa questo. Ainda que podia arrum-lo. Esteve 
a ponto de estalar os dedos para que se traduzisse o texto, mas se freou a tempo. 
      Depois fingiu que digitava um par de instrues enquanto realizava o conjuro mentalmente. 
      - Aqui est - disse depois de que a tela apagou e acendeu de novo - Sente-se e leia. 
      Rowan obedeceu super feliz e bastaram algumas poucas linhas para compreender:
      -  a segunda parte de Myor - disse em aluso ao jogo de computador do que tinham falado da outra vez -  genial. Terminou? 
      - Continue lendo, e ver por si mesma. 
      - Sim, sim -Rowan voltou os olhos para a tela e se disps a aproveitar - Oh!, Seqestram  protagonista! E o feiticeiro das foras do mal neutralizou seus 
poderes com um conjuro. 
      - Bruxo - murmurou Liam - Ainda que seja um homem, tambm  um bruxo - corrigiu. 
      - Verdade? Pois o bruxo trancou todos os poderes da protagonista numa caixa mgica. Fez isso porque est apaixonado por ela, no ? 
      - O que? 
      - Tem que ser por isso - insistiu Rowan - Brinda  bonita e forte, est cheia de vitalidade.  normal que a deseje, e essa  a nica forma que tem para obrig-la 
a estar com ele... E aqui est o feiticeiro bom... bruxo, quero dizer, que lutar contra o mau para resgat-la.  fantstico.
      Tinha o nariz colado  tela, j que no levava os culos de ler. 
      - Olha quantas armadilhas ter que sortear para chegar at ela. E quando a libertar Brinda no poder utilizar sua magia para sair do castelo - prosseguiu 
Rowan - Tero que explorar sua imaginao e ajudar para sarem juntos. O Vale das Tormentas. Soa ameaante, apaixonado.  justo o que faltava  primeira parte. 
      - Como disse? - perguntou Liam, mais assombrado do que ofendido. 
      - Era uma aventura cheia de magia, mas lhe faltava o toque romntico. Alegra-me que o tenha dado desta vez. Rilan e Brinda se apaixonaro loucamente enquanto 
enfrentam juntos todos os perigos - disse Rowan enquanto se voltava para olhar a Liam - Depois de derrotar o bruxo mau, encontraro a caixa, e ser o poder de seu 
amor romper o conjuro, "abra-a e devolva a Brinda seus poderes". E vivero felizes para sempre...no? -adicionou, um pouco vacilante ao ver a expresso de estupefao 
de Liam.
      - Sim, sim - respondeu este. Teria que retocar a trama, mas Rowan tinha razo. Mais tarde faria as mudanas - O que acha dos drages mgicos da Terra dos Espelhos? 
      - Drages mgicos? 
      -Aqui - Liam se aproximou e marcou um pargrafo na tela - Leia e me diga o que pensa - adicionou, sussurrando junto ao ouvido de Rowan.
      Ela teve que se concentrar para no prestar ateno s batidas que deu o corao e se ps a ler. 
      - Fabuloso. Simplesmente, fabuloso. J os imagino fugindo num dos drages, voando sobre as guas vermelhas do mar e as colinas tomadas pela neblina.
      - Verdade? Me mostre como voc v. Desenhe para mim -Liam tirou o caderno de sua bolsa - Eu no tenho a imagem muito clara. 
      - No? No sei como pode escrever isto sem v-la - Rowan agarrou um lpis e comeou a desenhar - O drago tem que ser majestoso: feroz e belo, de asas douradas 
e olhos como rubis. Grande, esbelto e potente... Selvagem e perigoso - ia dizendo ao mesmo tempo em que desenhava. 
      Era exatamente o que queria, pensou Liam enquanto o desenho ia tomando vida. Nada de drages raros ou amestrados. Estava-o refletindo  perfeio: uma cabea 
feroz e orgulhosa, um corpo grande e poderoso, de largas asas, uma cauda com forma de chicote e aspecto de grande agilidade. 
      - Faa-me outro -pediu com impacincia enquanto guardava o primeiro -  Do mar e as colinas.
      - Certo - Rowan sups que ter um esquema do palco poderia ajud-lo a terminar de construir a histria. Fechou os olhos um momento e evocou a paisagem: um mar 
largo e resplandecente com ondas que rompem contra as rochas, mal visveis pela bruma, um tnue raio de luz filtrando-se entre as nuvens e a sombra das montanhas 
ao fundo. 
      Quando terminou, Liam ficou com o desenho e pediu que lhe fizesse um de Yilard, o bruxo mau. 
      A julgar por seu sorriso, era evidente que Rowan estava adorando o que estava desenhando.
       Decidiu que tinha que ser atraente. Muito atraente. Nada de gnomos com verrugas e uma corcunda nas costas, somente um homem alto, elegante, com cabelo longo 
e olhos negros. Vestiu-o com uma tnica longa, vermelha, como a de um prncipe. 
      - Por que no o desenhou feio? - perguntou Liam. 
      - Porque ele no  feio - contestou ela com contundncia - Se fosse, pareceria que Brinda o recusa s por sua aparncia, quando  de seu corao que ela no 
gosta. E essa maldade se v refletida em seus olhos. 
      - Mas o heri tem que ser mais bonito. 
      - Com certeza, ter que ser. Mas no ser um desses homenzinhos afeminados com o cabelo encaracolado e dourados - respondeu Rowan enquanto iniciava o desenho 
do bruxo bom - Ser moreno, ter valor, mas tambm algum defeito. Gosto que os heris sejam humanos. Ainda assim, arriscar sua vida por Brinda. Primeiro por uma 
questo de honra. Depois por amor. 
      Rowan se colocou a rir ao observar o desenho que tinha feito. 
      - De que ri? 
      -Se parece um pouco contigo - contestou ela - Mas, por que no?  sua histria. Afinal de contas, todo mundo quer ser o heri de sua prpria histria. E  
uma histria boa, Liam. Posso ler o resto? 
      -Ainda no - disse ele. Depois de ouvir as idias da Rowan, teria que realizar algumas mudanas, pensou enquanto desligava o computador. 
      -Ah - disse ela, decepcionada - S queria ver que passa depois de que saem voando da Terra dos Espelhos. 
      - Antes eu gostaria que considerasse minha proposta. 
      - Que proposta? 
      - Uma proposta de negcios. Desenhe para mim os grficos. Todos.  muito trabalho. H muitos nveis e sou muito exigente com os detalhes. 
      - Quer que eu faa os desenhos da sua histria? - perguntou Rowan quando se recuperou da surpresa.
      - No  uma tarefa simples. Precisarei de centenas de esquemas, todo tipo de palcos e ngulos. 
      - No tenho experincia. 
      - No? - Liam lhe mostrou o desenho do drago. 
      - O fiz de repente - replicou Rowan, tratando de controlar os nervos  - Sem pensar. 
      -  assim que funciona? Pois ento. No pense, apenas desenhe.
      Rowan se levantou. No podia acreditar, no podia quase nem respirar. 
      - No est falando srio. 
      - Isso  muito srio - assegurou Liam - No era voc que dizia que queria se dedicar a algo que a fizesse feliz? 
      -Sim... - Rowan se levou uma mo ao peito. 
      - Ento, se quiser, trabalhe comigo nisto. Ganhar o que precisa para viver. Minha empresa se encarregar disso. Em fim, depende de voc, Rowan. 
      - Espere, espere um momento - pediu. Depois deu meia volta e avanou para a janela. O cu seguia azul, observou, e o bosque, verde. E o vento soprava com a 
mesma suavidade de antes. A nica coisa que iria mudar era sua vida. Se aceitasse. Ganharia a vida fazendo algo que a alegria? Seria possvel? Poderia ser real? 
      Ento compreendeu que no era medo o que a aterrorizava , e sim uma imensa insegurana. 
      - Acredita de verdade? Acha que meus desenhos podem ser teis para seu jogo?
      - Se no fossem, no teria te proposto. A deciso  sua. 
      -  minha - repetiu ela num sussurro. Ficou em silncio alguns segundos, para assimilar as conseqncias daquela oferta, at que, por fim, seus olhos se iluminaram 
- Ento sim, eu gostaria muito. Adoraria trabalhar voc. Quando comeamos? 
      Liam tomou a mo que ela lhe estendeu e a estreitou com firmeza. 
      - J comeamos. 
      
      
      
      
      Mais tarde, quando estava Rowan na cozinha de sua choupana, celebrando sua deciso com uma taa de vinho e um sanduche de queijo, tratou de recordar se alguma 
vez tinha sido mais feliz. Acreditava que no. 
      Ao final no tinha ido  cidade para comprar livros nem para ver o corredor de imveis, mas depois iria. 
      A mudana tinha aberto a porta de um novo trabalho. Um trabalho que a entusiasmava. Tinha uma oportunidade, uma oportunidade ao alcance da mo, de mudar rumo. 
      No  que agradar Liam Donovan fosse fcil. Ao invs, pensou enquanto se lambia o queijo dos dedo era um homem exigente, de carter forte e muito, muito perfeccionista. 
Teve que fazer doze desenhos dos Gnomos da Ria at que Liam o aceitasse e tinha manifestado aceitao com um rosnado acompanhado por um movimento afirmativo da cabea. 
      Tudo bem. No precisava que lhe dessem palmadinhas nas costas nem receber grandes afagos. O que importava era o fato dele esperar bons resultados dela e de 
pensar que juntos podiam formar uma boa equipe. 
      Uma equipe. Abraou a palavra com o corao. Isso a fazia sentir parte de algo. Depois de tantos anos desejando, ajudaria a contar histrias. No com palavras, 
pois nunca tinha tido talento para elas; mas sim desenhando, o que mais gostava do mundo, ainda que somente agora tivesse percebido isso como um desejo. 
      Contudo, era uma mulher prtica, de modo que tinha deixado de lado sua alegria por uns instantes para discutir com ele as condies de trabalho. 
      Mesmo assim ainda no foi capaz de dissimular a cara de assombro que tinha posto ao ouvir o valor que Liam tinha oferecido pagar. 
      No teria o menor problema para comprar uma casa, pensou sorrindo enquanto se servia uma segunda taa. Poderia comprar mais livros, plantas, antiguidades para 
mobiliar a nova casa e viver feliz para sempre, se brindando consigo mesma. 
      Sozinha. 
      Sacudiu a cabea diante do pensamento. J estava se acostumando  solido. 
      Acostumando-se a desfrut-la. Pode ser que seguisse sentindo-se atrada por Liam, mas compreendia que no teria nenhuma relao pessoal entre ambos agora que 
trabalhavam juntos. 
      Com certeza, ele no tinha mostrado o menor interesse nesse sentido. E ainda que lhe ferisse um pouco o seu orgulho, tambm estava acostumada a isso. Durante 
o ltimo ano no instituto, tinha se apaixonado perdidamente pelo diretor da sala de aula de debate. Podia recordar as ccegas no estmago cada vez que o via. E como 
tinha desejado ser mais aberta, mais bonita e ter mais confiana em sim mesma, como a garota com a que ele saa. 
      Depois, na universidade, tinha posto seus olhos num professor de ingls, um poeta de olhar triste e esprito pessimista da vida. Tinha estado segura de que 
ela poderia inspir-lo e anim-lo. Ao cabo de seis meses a persegu-lo e duas semanas saindo juntos, acabaram fazendo amor... depois do qual a abandonou por outra 
mulher. Mas no se arrependia. Depois de todo, tinham sido duas semanas apaixonadas, dignas da melhor novela romntica e tinha entregado sua virgindade ao homem 
com certa sensibilidade, ainda que escassa noo de monogamia. 
      No demorou muito em descobrir que no o tinha amado. Na verdade, amava a idia que tinha formado dele. Depois disso, deixou de sofrer por aquela brusca ruptura. 
Simplesmente, os homens no a achavam... interessante. Nem sexy, nem misteriosa. E, por desgraa, esse era o tipo de homens que mais a atraam a ela. 
      Certamente, Liam era tudo isso e mais. 
      Alan, ao contrrio, no respondia a esse padro. O doce, sensato e constante Alan. Ainda que o quisesse, sabia desde o momento em que comearam a sair que 
jamais sentiria uma excitao selvagem por ele, uma necessidade imperiosa e alucinante.
      Tinha tentado. Seus pais tinham se apegado a ele, e ela tinha imaginado que acabaria se apaixonando por ele e vivendo feliz ao seu lado. 
      Mas no tinha sido essa perspectiva ou de uma vida cmoda e sem graa que a tinha feito fugir ao final? Agora estava segura de que agido certo ao fugir. Teria 
sido um erro conformar-se com menos de... ningum, sups. Conformar-se com menos do que estava encontrando agora: seu lugar, seus desejos, suas carncias e seu talento.
      
      Ao princpio no a compreenderiam, mas acabariam fazendo-o. Estava convencida disso. Uma vez a vissem em sua casa, ganhando a vida desenhando, a compreenderiam. 
E talvez, s talvez, sentiriam orgulhosos dela. Olhou para o telefone, vacilou e desistiu. No, ainda no. Ainda no ligaria para seus pais para contar o que ia 
fazer. No queria ouvir suas dvidas, sua preocupao, sua impacincia dissimulada no tom de voz, e estragar esse momento. Era um momento to maravilhoso... Assim 
que quando bateram  porta, levantou-se de um pulo. Era Liam, tinha que ser Liam, o qual era perfeito. 
      Viria com mais trabalho e poderiam sentar na cozinha e bater um papo a respeito. Prepararia um ch, talvez tomariam uma taa de vinho. Tinha tido outra idia 
sobre a Terra dos Espelhos e sobre o reflexo do mar vermelho quando Brinda volta a casa. 
      Ansiosa por contar, correu a abrir a porta. E sua expresso sorridente deu passo a outra de estupefao.
      - Rowan, no deveria abrir a porta sem perguntar ante quem .   confiante demais. 
      Com a brisa da primavera soprando a suas costas, Alan entrou na choupana. 
      
     Captulo Sete
      - Alan, que faz aqui? 
      Em seguida deu-se conta de que tinha empregado um tom seco e pouco acolhedor, quase acusatrio inclusive. E viu no rosto de seu noivo que tinha lhe magoado. 
      - J se passaram trs semanas, Rowan. Pensamos que gostaria de ver algum - contestou Alan ao mesmo tempo em que se alisava o cabelo - E, a verdade, seus pais 
ficaram preocupados depois de seu ltimo telefonema. 
      - Por que? -perguntou ela, forando-se a sorrir - No vejo nenhuma razo. Disse que estava bem. 
      -Talvez foi isso o que os alarmou. 
      A preocupao de Alan a fez se sentir culpada.
      - Por que isso iria preocup-los? - respondeu Rowan enquanto ele tirava o casaco. 
      - Nenhum de ns sabe o que faz aqui na verdade... nem o que pretende conseguir se isolando de todo mundo. 
      - J expliquei mil vezes - contestou ela com voz cansada. Maldio! Era sua vida! Por que tinham que questionar todas suas decises? 
      Em qualquer caso, optou por comportar-se educadamente.
      - Sente-se, por favor. Quer algo? Ch, caf? 
      - No quero nada, obrigada - Alan se sentou. 
      Sentia-se fora de lugar com seu traje cinza, sua camisa branca de Oxford e sua clssica gravata. No lhe tinha ocorrido afroux-la durante a viagem. Olhou 
a pea e pensou que a choupana era rstica e que estava demasiadamente isolada. Onde estava a cultura: os museus, as bibliotecas, os teatros? Como Rowan podia suportar 
esconder-se no meio do bosque durante semanas e semanas? Estava seguro de que o nica coisa que precisava era algum que lhe desse um empurrozinho, e em seguida 
faria as malas para voltar com ele e para seus pais. 
      - Que demnios faz aqui durante todo o dia? - perguntou Alan, sorridente. 
      - J disse nas cartas, Alan - Rowan se sentou frente a ele-  Preciso tempo para pensar, para tentar clarear a mente. Dou longos passeios, leio, escuto msica. 
Desenhei muito. De fato... 
      -Rowan, tudo isso  normal durante uns poucos dias - a interrompeu com impacincia  - Mas este no  lugar para voc.  fcil ler nas entrelinhas que est 
desenvolvendo uma espcie de gosto romntico pela solido, por viver no meio do nada. 
      - Alan, te asseguro que estou contente - insistiu ela. 
      No se o parecia. Em realidade, notava-a irritada. Convicto de que podia ajud-la, deu-lhe uma palmadinha numa mo. 
      -Pode ser que por enquanto esteja. Mas o que passar dentro de outras duas semanas, quando se der conta de que tudo isto s  um interldio? -perguntou Alan 
- Ento ser tarde demais para recuperar seu posto de professora e matricular-se nos cursos de vero que tinha planejado para o doutorado. 
      Rowan entrelaou as mos sobre o colo, para evitar fech-las em punho sobre os braos da cadeira. 
      - No  um interldio.  minha vida.
      - Exato - a face de Alan se iluminou, igual ao rosto de um aluno de raciocnio lento quando conseguia compreender um conceito complexo  - e sua vida est em 
So Francisco. Querida, tanto voc como eu sabemos que precisamos de mais estmulos intelectuais dos que podemos encontrar aqui. Precisa seguir com seus estudos, 
com seus alunos. Sei que sente falta. E os cursos que iria dar? E no deu sua palavra sobre o artigo que ia escrever para o jornal. 
      - No dei palavra alguma porque no escrevi. Nem o farei - replicou Rowan, furiosa, enquanto se punha de p - E eu no tinha pensado em oferecer nenhum curso; 
vocs tinham pensado por mim. Como planejaram toda minha vida at agora. No quero estudar, no quero dar aulas, no quero nenhum estmulo intelectual que no seja 
eu mesma. J disse a voc e tambm disse aos meus pais; mas vocs se negam a escutar. 
      Alan piscou, surpreendido por aquela sbita mudana. 
      - porque nos preocupamos com voc, Rowan - Alan se levantou e empregou um tom de voz conciliatrio. Sabia que Rowan no costumava irritar-se, mas tambm sabia 
que no tinha forma de faz-la compreender enquanto no se acalmasse. No tinha outro remdio alm esperar. 
      - Eu sei que vocs se preocupam muito por mim - disse ela, frustrada - Por isso quero que me oua e que me compreenda. Ou, se no pode compreender-me, que 
ao menos aceite minhas decises. Estou fazendo o que preciso fazer. E no vou voltar, Alan - sentenciou, olhando-o nos olhos. 
      Este ficou srio, como quando expunha um argumento filosfico e ela no concordava.
      -Esperava que a esta altura voc estivesse cansada desta tolice e voltasse comigo esta mesma noite; mas estou disposto a encontrar um hotel pela regio e esperar 
uns poucos dias. 
      -No, Alan, voc no me entendeu. Estou dizendo que no vou voltar para San Franciso. Nunca. Nem agora nem mais adiante. 
      Por fim tinha dito! Rowan sentiu que se liberava de um grande peso, por mais do que pressentisse a irritao de Alan. 
      - Isso  uma tolice.  sua casa, com certeza que vai voltar. 
      -  sua casa e a casa de meus pais. Mas isso no significa que seja a minha -Rowan lhe agarrou as mos. 
      Estava to contente com seus planos que queria compartilh-los com ele.
      - Por favor, tente compreender. Aqui sou feliz. Sinto-me  vontade,  meu lugar. Nunca me tinha sentido assim nunca. At consegui um trabalho. Vou desenhar 
os grficos de um jogo de computador.   divertidssimo, Alan. E vou comprar uma casa pelos arredores. Minha prpria casa, perto do mar. Vou ter um jardim e vou 
aprender a cozinhar e... 
      -Ficou louca? - atalhou Alan. Agora foi este quem agarrou e apertou as mos de Rowan. No tinha captado o tom alegre de suas palavras; s seu sentido, ainda 
que para ele fosse tudo uma loucura - Jogos de computador? Jardins? Est ouvindo o que disse?
      - Sim, pela primeira vez em minha vida  o que estou fazendo. Est me machucando, Alan. 
      - Estou te machucando? -replicou este, quase gritando, agarrando-a agora pelos ombros  - E o que acontece com meus sentimentos? Com o que eu quero? Maldita 
seja, Rowan, tive muita pacincia com voc. E de repente, no se sabe por que, decidiu mudar nossa relao. Um dia somos noivos e no dia seguinte j no o somos. 
No te pressionei, no te forcei para que nos casssemos imediatamente. 
      Rowan sabia que tinha parte de culpa. Tinha-o ferido de modo desnecessrio por no ter se expressado bem. 
      - Alan, eu sinto. Sinto muito. No era uma questo de tempo. Era... 
      - Permiti esta fuga incompreensvel - prosseguiu ele, encolerizado - Te dei liberdade, pensando que era isso o que queria antes que nos casssemos. E agora 
me vem com jogos de computador? Com casas no bosque? 
      -Sim, Alan... 
      Estava a ponto de chorar, tinha posto uma mo sobre o peito dele, no para empurr-lo, apenas para acalm-lo. De repente, o lobo entrou pela janela, feito 
uma fria, mostrando os caninos e grunhindo. 
      Lanou-se sobre Alan e o desequilibrou. A som da mesa se quebrando soou quando os dois caram por cima dela.
      Antes que Rowan pudesse fazer alguma coisa, Alan estava no cho, totalmente plido, com o lobo em cima de seu pescoo. 
      - No, no! -gritou ela. O terror lhe deu energia e deciso. Atirou-se em cima deles e abraou o pescoo do lobo com ambos braos - No o machuque. Ele no 
estava me machucando -disse. 
      Notava a tenso do lobo, ouvia seus rosnados, ameaantes como troves tormentosos. Comeou a imaginar as mordidas, o sangue, os gritos e, sem pens-lo duas 
vezes, interps a cabea entre ambos e olhou ao lobo aos olhos. 
      - No estava me machucando - repetiu com voz calma  -  um amigo. Est irritado, mas nunca me machucaria. Deixe-o, por favor. 
      O lobo grunhiu de novo, algo brilhou em seus olhos, quase humano. Rowan apoiou uma bochecha contra a dele e lhe acariciou o lombo. 
      - Calma, no aconteceu nada -disse ao mesmo tempo em que lhe dava um beijo - J passou. O lobo saiu de cima dele mas continuava entre os dois. - Sinto muito, 
Alan - desculpou Rowan enquanto se punha de p, sem deixar de acariciar ao lobo - Est bem?
      - Deus! - exclamou histrico, ainda aterrorizado. Mal podia respirar. Faltava-lhe ar e tinha o peito dolorido pela investida do lobo - Afaste-se dele, Rowan. 
Afaste-se. V pra cima - adicionou. Ainda que tremessem as mos, agarrou um lustre para atacar o lobo. 
      - No se atreva a toc-lo! - gritou ela, indignada, ao mesmo tempo em que lhe tirava o lustre - Ele s estava me protegendo. Pensava que voc estava me atacando. 
      - Te protegendo? Por Deus, Rowan  um lobo! 
      Jogou-se para trs quando Alan tentou agarr-la, depois se deixou levar pelo instinto e disse a primeira mentira de sua vida: 
      - Como pode achar que  um lobo? No seja ridculo!  um cachorro - assegurou Rowan, a qual teve impresso de notar um certo desagrado na expresso do lobo 
- Meu cachorro. E fez justo o que se espera de um cachorro bem adestrado. Acreditava que estava em perigo e me protegeu - insistiu. 
      - Um cachorro? - repetiu Alan, pouco convicto - Tem um cachorro? -perguntou, olhando-a nos olhos. 
      -Sim - disse Rowan, incmoda com a mentira - E... como v,  impossvel estar mais segura do que com ele a meu lado. 
      - De que raa ? 
      - No sei bem - contestou ela - Mas  um companheiro maravilhoso e  evidente que no corro nenhum perigo ainda que esteja sozinha. Se no tivesse intervindo 
para acalm-lo, teria te mordido. 
      - Parece um lobo - insistiu ele. 
      - Vamos, Alan - Rowan se obrigou a jogar uma risada - Alguma vez ouviste que os lobos entrem saltando pela janela e obedeam as ordens de uma mulher?  maravilhoso, 
e fiel como um labrador -adicionou enquanto seguia acariciando-o. 
      O lobo lhe lanou um olhar de desagrado e depois se afastou, at sentar-se junto  lareira. 
      - Viu? -adicionou Rowan, aliviada. 
      - Nunca disse que queria ter um cachorro. Acho que sou alrgico - comentou Alan enquanto preparava um leno para o primeiro espirro.
      - Nunca te disse vrias coisas - replicou ela, cruzando os braos -  e o sinto. Sinto no saber o que dizer nem como diz-lo at agora. 
      - Importa-se em deix-lo fora? - perguntou Alan, que no podia deixar de olhar de lado para lobo. 
      Colocar ele para fora? Tinha vontade de rir, mas se conteve. O lobo entrava e saa como lhe agradava. 
      - Ele no far nada, prometo. Venha, sente-se. Ainda no passou o seu susto. 
      - Elementar -murmurou Alan. 
      Teria pedido um copo de brandy, mas sups que Rowan teria que abandonar o salo para servir, e no queria arriscar-se a ficar a ss com aquela besta negra. 
      Como se pretendesse confirmar o acertado de tal deciso, o lobo lhe ensinou os dentes. 
      - Alan, sinto muito - repetiu Rowan enquanto se sentava frente a ele - Sinto no ter sabido antes o que queria, sinto no ser o que voc esperava de mim. Mas 
no posso fazer nada ao respeito, no posso voltar a ser a que era. 
      - Rowan, seja sensata - pediu ele, ao mesmo tempo em que alisava o cabelo. 
      - Estou sendo sensata. Gosto muito de voc, Alan. Foi um amigo maravilhoso para mim. Mas seja sincero: no est apaixonado de mim. 
      - Claro que te amo, Rowan. 
      - Se estivesse apaixonado por mim de verdade, no teria aceitado que parssemos de dormir juntos -respondeu ela, esboando um sorriso afetuoso - Alan, fomos 
bons amigos, mas como amantes fomos medocres. No teve paixo entre ns. 
      Discutir esse assunto to abertamente o incomodava. Estava nervoso, teria se levantado para passear pelo salo, mas a presena do lobo o intimidava. 
      - Por que tem que ter? 
      - No sei por que, mas sei que  necessria - contestou Rowan enquanto lhe ajustava o n da gravata - Voc  o filho que meus pais sempre desejaram.  amvel, 
inteligente, me proporcionaria estabilidade. Sempre quiseram que nos casssemos, acreditavam que era o melhor para ns dois... e te convenceram do mesmo. Mas,  
isso o que quer? Para valer, Alan? 
      - No posso imaginar que no faa parte de minha vida - respondeu ele depois de uns segundos de reflexo. 
      - Sempre farei parte da sua vida- assegurou Rowan. Depois aproximou a face e lhe deu um beijo nos lbios. 
      O lobo se levantou no mesmo instante e rosnou. Rowan se afastou e olhou  Alan nos olhos. - Sentiu o sangue ferver ou o corao te bater descompassado? No, 
Alan. No o sentiu porque no me deseja como deseja um homem apaixonado.  questo de paixo - adicionou depois de beij-lo, sem deixar-lhe responder. 
      - Se voltar, poderamos tentar - props Alan - No quero te perder, Rowan. Voc  importante para mim - adicionou quando ela de negou com a cabea.
      - Ento...deixe-me ser feliz. Mostre que se importa comigo e aceite o que quero fazer. 
      - No posso te impedir- respondeu Alan, resignado  - Voc mudou Rowan. Em trs semanas mudou muito. Talvez seja feliz, ou esteja se julgando estar feliz. Seja 
como for, seguiremos a diante caso mude de idia. 
      - Sei. 
      - Preciso ir. O aeroporto est longe. 
      - Posso... posso te oferecer um jantar. Se quiser, pode passar a noite aqui e voltar amanh. 
      - melhor que eu v agora - Alan se ps de p depois de olhar com precauo ao lobo - No sei que pensar, Rowan, e no sei que vou dizer aos seus pais. Tinham 
certeza de que voltaria comigo. 
      -Diga a eles que os amo. E que estou feliz. 
      -Direi... e tentarei convenc-los. Mas tendo em conta que nem eu mesmo acredito em tudo... - Alan voltou a espirrar - No se levante, eu saio sozinho... E 
coloque uma corrente  nessa besta, se assegure de que no perca a cabea e... 
      Espirrou de novo e teve a impresso de que o cachorro estava rindo dele. O que era ridculo. 
      - Te ligarei - conseguiu dizer, pouco antes de sair do refgio. 
      
      
      
      - Eu o magoei - disse Rowan ao lobo depois de suspirar. Depois apoiou uma bochecha sobre a cabea do animal enquanto ouvia afastar o carro de Alan  - Mas era 
inevitvel. Como era inevitvel que rompssemos... Voc foi muito valente. E deste ao pobre um susto de morte. A mim tambm, sabe? Entrou como uma fera, mostrando 
os dentes... Quero voc junto de mim,  todo to simples... -adicionou, enroscando-se contra o lobo. 
      E assim permaneceram muito, muito tempo, olhando as chamas da lareira, o lobo escutando a respirao de Rowan.
      
      Liam a manteve perto e ocupada durante as trs semanas seguintes. Rowan adorava o trabalho, o qual facilitava ret-la a seu lado. Era verdade que podia ter 
feito quase todos o desenhos por sua conta, na choupana de Belinda, mas no tinha negado a ir  de Liam quando este o tinha pedido. 
      
      S queria... t-la sob vigilncia, disse-se. Observ-la, para decidir o que fazer a seguir. E quando faz-lo. No  que desejasse sua companhia Sempre tinha 
preferido trabalhar s e, com certeza, no precisava t-la diante para que o distrasse com seu aroma e sua delicadeza. Nem sua conversa, interessante e agradvel. 
E tambm no precisava para nada as bolachas e os docinhos que lhe levava com freqncia. 
      Na metade das vezes estavam um pouco queimados, mas incrivelmente doces. No  que no pudesse passar sem ela, dizia-se todos os dias enquanto esperava ansioso 
sua chegada. Se ia v-la pela noite, em forma de lobo, s era porque sabia que estava sozinha e que ela gostava dessas visitas. Pode ser que ele gostasse de deitar-se 
ao seu lado na cama, escutando-a ler em voz alta qualquer um de seus livros, vendo como dormia com os culos postos e a luz acesa e ficava olhando-a enquanto dormia, 
no era porque ela fosse to preciosa e frgil. Era porque Rowan era um enigma que precisava resolver. Seu corao; tratava de convencer-se, estava bem protegido. 
Sabia que o seguinte passo estava prximo; o momento em que deixaria nas mos dela a deciso sobre o futuro entre ambos. 
      Mas antes, Rowan tinha que saber quem era. Podia ter-se deitado com ela sem revelar sua identidade. Tinha feito antes com outras mulheres. Mas no tinha visto 
razo alguma para abrir-se a elas. Seus poderes, seu legado, sua vida eram coisa dele. No entanto, talvez no sucedesse o mesmo com Rowan. Ela tambm tinha poderes, 
um legado que desconhecia. Tambm teria que lhe dizer isso chegado o momento; teria que a convencer do que corria por seu sangue. 
      O que depois fizesse a respeito, dependia s dela. A deciso de inform-la, da mudana, sim era dele. Mas seguia protegendo o corao. Uma coisa era desej-la 
e outra muito mais arriscada era am-la. A noite do solstcio, mgica entre todas as noites, preparou o crculo. No corao do bosque, situou-se no centro do crculo 
de pedras.  O ar cantava a seu arredor. Era o doce canto dos antepassados, da melodia da juventude e da tenso com a qual o olhavam e esperavam... 
      O canto da esperana. As velas eram brancas, delgadas, igual que as flores que jaziam entre mdias. Levava uma tnica da cor da lua, cingida com uma fita com 
jias. O vento espalhou o cabelo quando ergueu a cabea para receber o ltimo raio de sol, que se refletiu nas rvores, em todos seus ramos, brilhantes como espadas 
ardentes. Liam viu o vo de uma guia branca, que acabou posando-se sobre a pedra mais alta. 
      - Pai, eu conheo teus desejos, mas se eles me governam, poderei eu substituir-te e governar com sabedoria? - perguntou-lhe Liam, saudando-o com formalidade, 
com uma reverncia. Depois ergueu o rosto e os braos, e exclamou - Chamo ao fogo, chamo ao vento!,  clamo aos dois elementos! 
      Ato seguido, o vento comeou a soprar com fora, em espiral, e duas colunas de fogo gelado brotaram do solo. Os olhos comearam a iluminar-se, como duas chamas 
gmeas. 
      -Pelo sangue dos meus!, Pelo poder de minha mo!  Ela  minha e a reclamo! - adicionou. 
      Depois virou e acendeu cada uma das velas chasqueando os dedos, at que as chamas se converteram em arcos. O vento soprou ainda mais forte, uivando como uma 
matilha de lobos, carregado a fragrncia das flores e do mar. Colou-se sob sua tnica, despenteou-o. Liam saboreou nele o poder da noite. 
      - Lua cheia, lua branca, ilumine o caminho! Guia-a e tr-la a meu lado!, Que conhea seu destino! - proclamou. 
      Baixou os braos e olhou, atravs da noite e das rvores do bosque, para a cama na que ela dormia intranqila. 
      - Rowan -a chamou Liam com um suspiro -  a hora. No te farei mal.  a nica coisa que te prometo. No precisa acordar. Siga sonhando, estou te esperando. 
      Algo... chamava-a. Podia ouvi-lo: um sussurro na cabea, uma pergunta. Girou-se sobre o colcho em procura da resposta, esticou os braos e se levantou da 
cama. Levava um camiso de seda que lhe acariciava as coxas. Depois se ps uma bata, azul como seus olhos, e se calou as sapatilhas. Comeou a andar. 
      Envolta em um sonho real, desceu as escadas, passeando os dedos pelo balastre. Brilhavam-lhe os olhos, seus lbios sorriam, ia encontrar-se com o homem a 
que amava. Pensou nele, em Liam, enquanto saa da choupana e se adentrava no nevoeiro. No via as rvores, nem o caminho do bosque. O ar parecia suspirar, depois 
dividir-se. Avanou entre moitas sem medo, para essa cortina branca, conduzida pela lua cheia, que presidia a noite no cu, e pelas estrelas, brilhantes como pequenos 
cristais. 
      As rvores tremiam com o vento. Ouviu o canto de um guia e encaminhou-se sem pensar para o som. At que a viu, grande e prateada como o nevoeiro, com um medalho 
dourado no peito e um brilho de seus olhos verdes. Era como andar por um conto de fadas. Parte dela era consciente do que sucedia, abraava a magia da situao, 
enquanto outra parte seguia adormecida, ainda no estava preparada para ver e saber. Mas o corao batia com fora e constncia e seus passos eram ligeiros e velozes. 
Via olhos que a olhavam entre os ramos, ouvia risos alegres procedentes das samambaias. 
      O nevoeiro se desvanecia passo a passo, metro a metro, guiando-a. E a  gua cantava com tranqilidade. 
      Viu as luzes brilhando, chamas que acendiam a noite. Cheirou a mar, a cera, a flores. Seu sorriso se alargava  medida que se aproximava ao crculo de pedras. 
O nevoeiro tremia ao redor, mas no se aproximava das velas e das flores. Ento o viu no centro, de p, com uma bata branca como o luar, com o brilho das jias reluzindo. 
      O corao deu um pulo ao v-lo, estremeceu-se mais do que tinha pensado, mas Liam seguiu adiante: 
      - Quer entrar, Rowan? - pediu-lhe, estendendo-lhe uma mo. Uma parte dela o desejava, outra vacilava. 
      Mas seguia sorrindo. 
      - Com certeza -decidiu finalmente. E entrou no crculo, entre as pedras.
      Algo vibrou no ar, por sua pele, dentro de seu corao. Ouviu sussurrar s pedras. As luzes das velas se tremularam, depois cresceram de novo. Roou os dedos 
nos de Liam, olhou-o totalmente confiante. 
      - Sonho com voc cada noite - lhe disse suspirando  - e te desejo cada dia- adicionou. 
      - No compreende as vantagens nem os inconvenientes -Liam lhe ps uma  mo no ombro - E deve compreender. 
      - Sei que te desejo. J me seduziu, Liam. 
      - Eu tambm tenho necessidades -respondeu este, com certa sensao de culpabilidade. 
      - E a mim? No precisa de mim?  - Rowan lhe fez uma carcia, suave como sua prpria voz. 
      - Te desejo - reconheceu ele. Confessar que precisava dela era demasiado arriscado. 
      - Estou aqui -o olhou aos olhos - No vai me beijar? 
      - Sim - Liam se inclinou, sem deixar de olh-la aos olhos - Lembre-se disto, Lembre-se disso se puder - adicionou.
      Depois lhe roou os lbios com a boca, uma vez, e outra. Saboreou-a. Depois a mordiscou. 
      Quando suspirou de prazer, Liam a abraou com fora, desfrutou da magia, do momento, do corpo que estava estreitando. Suas lnguas se uniram, esquentaram-lhe 
o sangue, aceleraram-lhe o corao. 
      As duas colunas de fogo gelado ardiam adornando-o por ambos lados. 
      - Toque-me, Liam. Tenho te esperado por muito tempo.
      Possu-la ali, nesse instante. A primitiva necessidade de penetr-la sem esperar mais batalhava com seu sentido do dever. E da se ela soubesse? O que importava 
o que ele pudesse ganhar ou perder? 
      S existia esse presente ardoroso no que a estava abraando. 
      - Faa amor comigo- insistiu Rowan depois de separar a boca e deslizar-se para seu pescoo. J sabia que seria um ato fabuloso, veloz, potente. E o desejava 
desesperadamente. Liam lhe tirou a bata de um brusco movimento e lhe fincou os dentes sobre a pele nua dos ombros. 
      - Sabe quem sou? - lhe perguntou. 
      - Liam - respondeu ela. 
      - Sabe o que eu sou? - adicionou ele depois de dar um passo atrs, olhando-a aos olhos, alucinados pela paixo. 
      - Sei que  diferente - foi tudo quanto pde contestar. 
      - Voc tem medo de descobrir -lhe disse Liam. E se isso lhe dava medo, quanto se assustaria ao conhecer o sangue que corria por suas veias? - Ainda no est 
preparada para entregar-se a mim. Nem para aceitar-me. 
      - Por que no  suficiente ainda? - perguntou Rowan, tremendo. 
      - A magia implica responsabilidade. Esta noite, a noite mais curta do ano, ela dana por todo o bosque, canta nas colinas de Irlanda, cavalga nos mares e corta 
o cu. A noite est em festa e tudo  possvel. Mas  o amanh  que importa - Liam acariciou o cabelo e deu um beijo em ambas as faces-  Amanh, Rowan Murray dos 
O'Meara, lembrar  do que quiser recordar. E a deciso ser sua. 
      Liam deu um passo atrs e abriu os braos. 
      - A noite passar rapidamente. Brilhante. Depois chegar aurora, fiel amante - recitou sem deixar de olh-la aos olhos - Que seu sangue e meu sangue sejam 
um s, que a magia desta noite nos rena... Que durmas bem, Rowan - finalizou depois de agachar-se para agarrar um ramo de flores e entregar-lhe. E com um estalo 
do polegar provocou um relmpago que a devolveu  cama. 
      
     Captulo Oito
      O sol brilhava atravs da janela. Rowan afundou o rosto contra o travesseiro para no se acordar. Queria seguir dormindo. Seguir com esses sonhos to fantsticos 
e reais, dos que ainda recordava parte. 
      Nevoeiro, flores. Raios de lua e velas acesas. O vo de um guia de prata, o suave rolar da gua. E Liam, com uma bata branca, abraando-a no centro do crculo 
de pedras. Ainda podia sentir o sabor quente de sua lngua, sentir o ritmo acelerado de seu corao, a tenso de seus msculos. 
      Queria apenas dormir outra vez para recordar de tudo. Mas no conseguiu retomar o sonho, por mais voltas que deu na cama. Era to real, pensou enquanto se 
esfregava a face contra os lenis. To real e maravilhoso... Tinha tido sonhos muito estranhos e palpveis antes; sobretudo, quando era pequena. 
      Sua me sempre tinha dito que tinha muita imaginao. Mas precisava aprender a diferena entre a realidade e o imaginrio. Em muitas ocasies, teria escolhido 
viver em seu mundo imaginrio. Por medo a preocupar a seus pais, no tinha falado mais disso. E sups que se agora voltava a ter esse tipo de sonhos era porque tinha 
tomado a deciso de seguir seu prprio caminho. O que no a estranhava era ter sonhos romnticos e erticos sobre Liam. 
      Rowan esticou os braos e tratou de recordar tudo o que pde. Era semelhante ao jogo de computador no qual estavam trabalhando. Liam era o heri e ela, a herona. 
Tinha magia, nevoeiro, desejo e rejeio. Um crculo de pedras que sussurrava, um anel de velas cujas chamas no se apagavam apesar do vento. Duas colunas de fogo 
azul gelo. 
      Fechou os olhos e tratou de reconstruir as palavras que Liam lhe tinha dito. Lembrava-se bem de que a tinha beijado, mas, que lhe tinha dito? Algo sobre saber 
ou no saber, decises e responsabilidade. Se conseguisse ordenar tudo, talvez pudesse oferecer-lhe a trama de um novo jogo de computador. Mas o nico que recordava 
com clareza era o modo em que a tinha abraado, o que tinha sentido dentro dela. 
      Ento se advertiu que sua relao era trabalhista. Pensar nele nesse outro sentido era estpido e arriscado. A ltima coisa que queria era enganar-se, imaginando 
que Liam podia apaixonar-se por ela... como ela tinha se apaixonado por ele. Assim que preferiu concentrar-se na satisfao que lhe produzia esse trabalho. Ou na 
casa que tinha inteno de comprar. J era hora de que fizesse algo a esse respeito. Ainda que primeiro se levantaria, tomaria um caf e daria um passeio. 
      Jogou os lenis de lado e ali, sobre a cama, viu um ramo de flores. O corao se lhe subiu  garganta, ficou-se sem respirao. Impossvel, impossvel, insistia 
sua cabea. Fechou os olhos com fora, mas seguiu cheirando a fragrncia das flores. Era um dos ramos que tinha visto em seus sonhos junto s velas. Mas no podia 
ser. Tinha sido um sonho, um entre vrios que tinha tido desde que tinha chegado a esse lugar. Ela no tinha ido ao bosque pela noite, no meio do nevoeiro. No tinha 
entrado no crculo de pedras nem tinha visto a Liam. 
      A no ser que... 
      Sonambulismo, pensou aterrorizada. Tinha estado andando enquanto dormia? Saiu da cama sem despegar uma olhada nas flores e agarrou a bata. Estava mida, como 
se o orvalho se tivesse posado sobre ela.
      Cada vez recordava mais detalhes do sonho, com mais e mais clareza. 
      - No pode ser verdade -disse sem convencimento. 
      Vestiu-se com toda pressa e saiu correndo em procura de Liam. Ele era o responsvel. Era a nica coisa que tinha certeza. Talvez tinha jogado algum alucingeno 
no ch enquanto ela desenhava. 
      No lhe ocorria outra explicao razovel. E tinha que ter uma explicao razovel. Quando por fim chegou a sua casa, bateu  porta sem demora, apertando com 
fora o ramo de flores. 
      - O que voc fez comigo? - perguntou Rowan enquanto Liam abria a porta. 
      - Entre - disse este enquanto se colocava de lado. 
      - Quero saber o que voc me fez. Quero saber que significa isto - Rowan lhe atirou o ramo de flores. 
      - Voc me deu flores uma vez - respondeu ele com calma  - Sei que gosta.
      - Colocou alguma droga no ch? 
      - Como disse? -replicou Liam, ofendido. 
      -  a nica explicao. Alguma droga que me tenha feito imaginar coisas, fazer coisas. Eu nunca iria ao bosque de noite estando em meu perfeito juzo. 
      - No me dedico a preparar poes desse tipo - contestou ele, encolhendo os ombros. 
      -Ah, no! - Rowan o olhou aos olhos  -  que tipo de poes, ento? 
      - Algumas que aliviam a dor do corpo e do esprito. Ainda que no seja... minha especialidade. 
      - E qual  sua especialidade?
      - Se tivesses aberto sua mente um pouco, j saberia a resposta para essa pergunta -replicou Liam, impacientado. 
      Rowan se fixou em seus olhos. A imagem do lobo lhe veio  cabea e deu um passo atrs. 
      - Quem voc ? 
      - J sabe quem sou. E, maldita seja, dei-te tempo suficiente para que o assimilasse. 
      - Para que assimile, o que? - repetiu ela, ao mesmo tempo em que lhe fincava o indicador no seu peito  - No estou te entendendo. No sei o que espera que 
eu saiba. Quero respostas, Liam. Quero-as agora, ou deixe-me em paz. Nego-me  que continue jogando comigo desta maneira. Diga-me exatamente o que est acontecendo 
- adicionou, arrebatando-lhe o ramo de flores. 
      - Quer saber o que est acontecendo? Quer respostas? - Liam estava to furioso que no conseguiu controlar-se  - Pois aqui tem uma resposta.
       Ergueu os braos e, de repente, as pontas de seus dedos se iluminaram. Um redemoinho de nevoeiro envolveu seu corpo, deixando visveis nada mais que seus 
olhos, claros e brilhantes. 
      Eram os olhos do lobo, os quais cintilavam enquanto os caninos lhe cresciam e a pele ficava negra como a noite. Rowan ficou plida. De longe, podia ouvir a 
respirao entrecortada de seus pulmes, o grito que s soou em sua cabea. 
      Deu um passo atrs, e sentiu que sua vista se nublava. Quando as pernas se dobraram, Liam correu para segur-la antes que casse no cho. 
      - No, no vai desmaiar para me fazer sentir como se fosse um monstro - Liam a sentou numa cadeira e colocou a cabea entre as pernas -Respire profundamente, 
e da prxima vez, tenha cuidado com o que deseja. 
      Rowan ouvia um zumbido de vespas na cabea, sentia cem dedos gelados percorrendo  sua pele. Balbuciou algo quando Liam lhe levantou a cabea. Teria se afastado, 
mas ela a tinha bem segura. 
      - Olhe para mim e se acalme. 
      J recuperada, notou que Liam se comunicava com ela por meio do pensamento. O instinto a fez tentar bloquear a comunicao, ao mesmo tempo em que o empurrava. 
      - No, no brigue comigo. No vou lhe fazer mau -disse Liam. 
      - Eu ...seu sei -respondeu Rowan, inexplicavelmente segura disso  - Eu...quero um copo de gua. 
      Piscou ante o copo que no tinha visto at ento na mo de Liam.
      - S  gua - disse ele, incomodado, ao pressentir seu receio - Dou minha palavra. 
      - Sua palavra - Rowan bebeu um gole - ... um lobisomem - adicionou. Era ridculo. No podia acreditar, mas o tinha visto com seus prprios olhos. 
      Os olhos de Liam se arregalaram de estupefao.
      - Um lobisomem? Por todos os santos! De onde voc tira essas coisas? Um lobisomem- repetiu ele enquanto dava voltadas pela cmodo - Voc no  tola, somente 
teimosa.  de dia, no  verdade? Ou talvez esteja vendo uma lua cheia? Me atirei para devorar seu pescoo? Por Deus! Sou Liam Donovan! E eu sou bruxo - concluiu 
este com orgulho, olhando-a na face fixamente. 
      - Estupendo - Rowan soltou uma risada histrica - Isso est muito melhor. 
      -No tenha medo - pediu dodo ao ver que ela se cruzava de braos, em atitude defensiva - Te dei tempo para que o intusse, para que estivesse preparada. No 
teria te mostrado de um modo to brusco se no me tivesse pressionado.  
      - Tempo para que estivesse preparada? Para isto? - Rowan alisou o cabelo  - Como vou estar preparada para algo assim? Talvez esteja sonhando outra vez... Sonhando! 
Deus! 
      Liam leu os pensamentos e se obrigou a meter as mos nos bolsos. 
      - No aceitei nada que no estivesse disposta a oferecer-me - lhe disse. 
      - Voc me fez... Vinha a minha cama enquanto estava dormindo e... 
      - Contatos mente a mente - a interrompeu ele - No pus as mos em cima de voc... quase. 
      O sangue tinha regressado a suas bochechas, acendidas agora. 
      - No eram sonhos. 
      - O eram em parte. Teria se entregue, Rowan. Ns dois sabemos que  verdade. No vou me desculpar por meter-me em seus sonhos. 
      - Meter-se em meus sonhos - Rowan ordenou a seu corpo que se levantasse, mas precisou apoiar-se nos braos da cadeira para no perder o equilbrio - . Supe 
que tenho que acreditar?
      - Sim - contestou Liam com um dbil sorriso - Isso mesmo. 
      - Tenho que crer que  um bruxo, que podes converter-te em lobo e que podes colocar-se em meus sonhos quando lhe agradava. 
      - Quando ns dois desejvamos - corrigiu Liam. Talvez devia insistir nesse aspecto - Suspirava por mim, Rowan. Estremecia pensando em mim, e sorria quando 
te deixava adormecida - adicionou, ao mesmo tempo em que lhe acariciava os braos. 
      - O que disse s acontece nos livros, nos jogos de computador.
      - Tambm na vida real. Voc mesma o comprovou. Eu te levei ao mundo da magia. Sei que se lembras de ontem  noite, vejo-o em sua cabea. 
      - No entre dentro de mim - se ops Rowan, mortificada porque acreditava que seria capaz de faz-lo - Os pensamentos so uma coisa privada. 
      - Os teus so to transparentes que com freqncia, que no preciso entrar. No o farei mais, se isso a aborrece. 
      - Me aborrece  - Rowan se mordeu o lbio inferior  -  parapsiclogo? 
      - Tenho o poder de ver, se est se referindo a isso. De realizar um conjuro, de provocar uma tormenta - Liam se encolheu de ombros - O poder de transformar-me 
a meu desejo. 
      Um mutante. Deus! Claro que tinha lido a respeito dessas coisas. Em novelas, em livros sobre mitos e lendas. No podia ser real. E, no entanto, no podia negar 
o que acabava de ver... o que sabia no fundo de seu corao. 
      - Se apresentou diante de mim em forma de lobo - comentou por fim. 
      - E voc no teve medo de mim. Outros teriam se assustado, mas voc no. Voc me acolheu, me abraou, e chorou a meu lado. 
      - No sabia que era voc. Deveria saber... -Rowan deixou a frase interrompida,  medida que as recordaes se lhe golpearam na cabea  - Viu despir-me! Estava 
sentado enquanto eu me banhava. 
      - Tem um corpo lindo. Por que ia se envergonhar que o tenha visto? S faz algumas horas que me pediu para fazer amor. 
      -  diferente. 
      - Pea-me que te toque agora, conscientemente, e ser mais diferente ainda. 
      - Por que no...me tocou ainda? -perguntou ela depois de engolir saliva. 
      - Precisava tempo para voc me conhecer, e eu te conhecer. No tenho direito de te tirar a inocncia, ainda que a oferea, se no sabe a quem est se entregando. 
      - No sou virgem. J estive com outros homens. 
      Algo escuro e intenso brilhou nos olhos de Liam. Algo selvagem. Ainda assim, conseguiu falar com serenidade:
       -No tocaram em sua inocncia, no a mudaram. Mas eu sim o farei. Se eu me deitar com voc, Rowan, ser como a primeira vez. Te farei sentir um prazer com 
o qual arder... 
      No seguiu falando. Deslizou um dedo pelo pescoo de Rowan, a qual se estremeceu. Mas no se interrompeu. 
      Fosse quem fosse ou o que fosse, esse homem a comovia. 
      - E voc o que sentir? - perguntou ela. 
      - Prazer, desejo, necessidade - murmurou Liam enquanto lhe roava as bochechas com os lbios- A paixo que procurava e no encontrou nos outros homens. Desespero. 
Eu sinto isso por voc, quer queira, quer no. Tem muito poder sobre mim. Parece suficiente? 
      -No sei, ningum sentiu algo assim por mim... 
      -Eu sim - Liam desabotoou os dois primeiros botes da camisa-.Deixe-me v-la, Rowan, aqui, s claras. 
      -Liam - nomeou ela. Era uma loucura. No podia ser real. E, no entanto, seus sentimentos eram intensos demais como para que fossem fictcios. No, nada tinha 
sido mais real em toda sua vida, compreendeu assombrada- Acredito nisto... quero que me possua -adicionou com uma mistura de temor e desejo. 
      -Eu tambm - assegurou ele. Os dedos deixavam um rasto de fogo pela pele de Rowan,  medida que desabotoava sua camisa e a tirava de seus ombros- Esta manh 
saiu com pressa - adicionou com voz rouca ao ver que no vestia o suti.
      Deu-se o prazer de passar a ponta de um dedo sobre seus seios, sobre os mamilos.
      - Sabe que no posso det-lo -disse Rowan, rendida. 
      - Sim pode - Liam continuou acariciando-a com suavidade - Basta uma palavra. Ainda que espero que no o faa, porque ficarei louco se no fizer amor com voc 
agora. Quer que eu lhe toque? 
      - Sim - respondeu ela. 
      - Uma vez disse que no queria uma relao simples - recordou Liam enquanto desabotoava o boto das calas - No ser. Para nenhum dos dois - acrescentou enquanto 
introduzia os dedos sob a roupa ntima de Rowan. 
      - Por que quer que ocorra? -perguntou esta. 
      - Porque est em minha cabea, em meu sangue - respondeu Liam.
       O que era verdade, ainda que tentava de se convencer de que podia fechar as portas do corao. Por que resistir? Por que no aceitar, inclusive celebrar, 
essas sensaes fabulosas, o calor de seu ventre e o tremor de seu pulso? 
      Liam era o que queria, com uma fome que no tinha sentido por nenhum homem. 
      Assim devia se entregar, fosse qual fosse o preo que tivesse que pagar. Com tudo, as mos lhe tremeram ligeiramente enquanto se desfazia da camisa dele. Depois, 
maravilhada, posou-as sobre seu peito. Potente, clido. Uma fora a ponto de descontrolar-se. Ela sabia, mas no quis deixar de acariciar-lhe os ombros, de baixar 
as mos pelos msculos de seus braos. Ouviu um gemido felino, imaginou que se tratava do lobo, mas depois compreendeu que tinha sado dela mesma. 
      - J fiz isto antes... em sonhos - sussurrou Rowan, olhando-o aos olhos. 
      - E agora? -perguntou Liam com delicadeza, apesar da urgncia que o assolava - Dar um passo alm de seus sonhos? Deitar comigo, Rowan? 
      Esta subiu nos ps de Liam a modo de resposta, para poder estar mais perto de sua boca. 
      - Abrae-me - pediu ele, emocionado por esse gesto to belo. 
      Rowan sentiu que o ar tremulava, ouviu que o vento soprava. Teve a sensao de que se elevava, de que tudo dava voltas. Antes de chegar a ter medo, de repente, 
estava deitada sobre Liam, sobre uma cama to suave como um colcho de nuvens. 
      Abriu os olhos e viu raios de luz que se filtravam por um teto de madeira. 
      - Como? 
      - Tenho muita magia para te presentear, Rowan - disse ele enquanto lhe beijava o pescoo - Mais da que possa imaginar. Deu-se conta de que estavam na cama 
de Liam. Num abrir e fechar de olhos, tinham passado de um ambiente para outro. E agora, suas mos...como era possvel que o simples atrito da  pele contra pele 
despertasse sentimentos to profundos? 
      - Deixa-me entrar em seus pensamentos - lhe pediu ele sem deixar de acarici-la - Deixa-me que os toque e que te mostre. 
      Rowan abriu a mente e, de repente, no s sentiu o calor carnal, mas tambm se viu junto a Liam, unidos sobre uma cama iluminada pelo sol. 
      Cada sensao se refletia como se tivesse milhares de espelhos frente a seu corao. Liam precisou s um beijo para lev-la at a cume. Rowan gemeu, viu um 
crisol colorido, sentiu os lbios de Liam sobre os ombros. No tinha preo. Rowan era um tesouro. Era franca, tinha-se aberto a ele por completo. 
      
      Por fim podia percorrer seu corpo com as mos, sabore-la com a boca.
      O animal que batia em seu sangue queria devor-la, empurrar at chegar ao final. E ela no se oporia. Mas Liam no queria perder o controle, tinha que trat-la 
com ternura. Rowan se movia sobre dele, suspirava e se esticava elevada no prazer. Acariciava-o com toda liberdade, provocava incndios em sua pele. 
      Liam separou a cabea, olhou-a nos olhos e ela sorriu. 
      - Levei toda a vida esperando sentir-me assim - confessou Rowan enquanto lhe acariciava o cabelo  - Ainda que no soubesse o que estava me esperando.
      O amor se aproxima. 
      Liam recordou as palavras, como se fossem um aviso, um sinal, um sussurro. Preferiu no lhes dar ateno e voltou a afundar a boca nos seios de Rowan, a qual 
se ergueu e deu um pequeno grito. Depois gemeu e atraiu a cabea de Liam, pedindo-lhe que se colasse a ela mais e mais. Notou uma exploso de calor em seu mago. 
Liam a atormentou com a lngua e ela se abandonou a ele, tremula, enquanto o corpo e a mente ascendiam por uma espiral de prazer. Ningum a tinha tocado assim jamais. 
Parecia que Liam sabia melhor do que ela seus prprios segredos e desejos. O corao no lhe pertencia mais, abriu-se por completo para dar-lhe as boas vindas ao 
amor. e se agarrou a ele sem parar de pronunciar seu nome, enquanto rolavam loucamente sobre a cama, enquanto os corpos se umedeciam de desejo e as mentes se ofuscavam 
de prazer. 
      Rowan era... uma glria, pensou Liam enquanto atingia picos de prazer e emoo que jamais tinha compartilhado com nenhuma outra mulher.  Tinha os cinco sentidos 
embriagados pela fragrncia, o sabor, a textura de sua pele. Rowan lhe dava tudo o que ele lhe pedia, abrindo-se como uma flor, ptala a ptala. Beijo a beijo ia 
incendiando-lhe os ombros, o peito, de novo sua boca vida, enquanto arqueava a cintura contra Liam e notava a umidade clida que j cobria sua feminilidade. 
      Gemeu, teve um espasmo de prazer que a deixou tremendo, elevou levemente o corpo para fincar-lhe as unhas nas costas... At que Liam agarrou suas mos, tombou-a 
contra o colcho e esperou que Rowan abrisse os olhos e a olhasse: 
      - Agora. 
      A palavra retumbou como um juramento enquanto a penetrava. Permaneceu ali, quieto, observando a mirada de xtase de Rowan, enquanto se consumia com a excitao 
de estar dentro dela. 
      Ento, Rowan comeou a mover-se. Subiu os quadris e ele obedeceu sua splica, comeou a deslizar-se por seu interior, muito lentamente uma e outra vez. S 
via os olhos de Liam, dourados, mais e mais intensos  medida que se aproximavam do  lugar secreto onde o ar acariciava como se fosse veludo. 
      Abraou-o sem deixar de olh-lo enquanto o corao batia com potncia e parecia que iria estourar a qualquer momento. Quando chegou a exploso, apertou-se 
contra ele e gritou seu nome como se fosse um conjuro. Liam desabou sobre ela e repousou a cabea contra ela.
      
      Liam permanecia com a cabea entre seus seios e respirava lentamente. Rowan fechava os olhos para preservar a sensao de queda. Jamais tinha sentido uma harmonia 
semelhante com seus desejos nem com um homem. e nunca tinha desejado tanto entregar-se desse modo. Um pequeno sorriso lhe curvou os lbios enquanto acariciava o 
cabelo de Liam. Estavam desfalecidos, nus, midos e enredados. Perguntou-se quanto tempo passaria at que ele quisesse toc-la de novo. 
      - J quero - contestou Liam com voz rugosa. Lambeu a lateral de um seio e Rowan estremeceu. 
      - Os pensamentos so privados. 
      Era to doce compartilhar com ela o crepsculo do amor. Ergueu uma mo, acariciou-lhe os seios em seguida apertou um mamilo. 
      - J estive dentro de seus pensamentos -respondeu Liam enquanto o desejo acordava nela novamente - Tenho estado dentro de voc. J no tm sentido os segredos. 
      - Os pensamentos so privados - repetiu Rowan ao mesmo tempo em que gemia de prazer. 
      - Como queira - Liam saiu de sua mente ao mesmo tempo que voltava a introduzir-se dentro dela. 
      
      Devia de ter ficado adormecida. No recordava nada depois dessa segunda viagem ao paraso. Esticou-se na cama e viu que estava s. O sol da manh tinha dado 
lugar para uma tarde chuvosa. A monotonia das gotas a convidavam a fechar os olhos e voltar a dormir. 
      Mas a curiosidade era mais forte. Estava na cama de Liam, em sua casa. Alisou o cabelo, sorridente, e olhou ao redor. 
      A cama era incrvel. Um lago de plumas coberto por lenis sedosos, com um dossel de madeira negra com incrustaes de estrelas e smbolos e letras que no 
era capaz de decifrar. Tambm tinha uma lareira frente  cama. De uma espcie de pedra verde, decorada com cristais coloridos. Um tringulo de velas ocupava um dos 
lados. 
      Tinha uma cadeira alta, com estrelas como as do dossel. Um dos braos estava enfeitado com desenhos de luas crescentes. Dois lustres com forma de sereia dominavam 
as mesas que tinha em ambos lados da cama. Fascinada, acariciou suas incrustaes de bronze. Tinha poucos mveis, observou Rowan, mas era bvio que tinha bom gosto. 
      Levantou-se, esticou o corpo  e jogou o cabelo para trs. A chuva lhe produzia uma agradvel sensao de prazer. Em vez de procurar a roupa, abriu o armrio 
de Liam com a esperana de encontrar alguma camisa. 
      Encontrou-a... e sentiu um pequeno calafrio. Uma camisa longa e branca, de mangas largas. 
      Tinha-a usado a noite anterior. No crculo de pedras. Sob o luar. Era a bata de um bruxo. Fechou o armrio a toda pressa, deu meia volta e procurou sua roupa. 
Recordou que estava no andar debaixo. Liam a tinha despido no andar debaixo e depois... 
      O que estava fazendo? Em que estava pensando? Tudo aquilo tinha acontecido ou estava ficando louca? E se tivesse acontecido, se a magia no pertencia somente 
aos livros, ser que Liam a tinha utilizado para seduzi-la? Na falta de outra coisa, cobriu-se com um lenol... justo quando a porta do dormitrio se abriu. 
      Liam ergueu uma sobrancelha ao v-la, deu um passo  frente e notou a desconfiana de Rowan. 
      - O que aconteceu agora, que eu j no tenha explicado? - perguntou incomodado enquanto colocava a bandeja com o caf da manh sobre uma das cabeceiras. 
      - Como pode explicar o inexplicvel? 
      - Sou o que sou - respondeu Liam - Um bruxo descendente de uma famlia de bruxos, nascido com poderes especiais.
       No... no tinha outra opo alm de aceitar. Tinha-o visto, tinha-o sentido. 
      
      - Usou esses poderes comigo, Liam? - perguntou Rowan com voz serena. 
      - Voc me pediu para no entrar em sua mente. Dado que respeito seus desejos, tente especificar um pouco sua pergunta - replicou ele, irritado, enquanto se 
sentava a um lado da cama. . 
      - Me senti atrada por voc desde o primeiro momento. Comportei-me com voc como no me tinha comportado com nenhum outro homem. Acabo de me deitar com voc 
e senti coisas... -Rowan respirou profundo, olhou-o na face e acreditou ver um brilho triunfal em seus olhos - Voc me enfeitou para me levar para a cama? 
      O brilho se escureceu e o triunfo se converteu em fria num instante. Rowan retrocedeu um passo para trs, por instinto. Liam deixou a xcara de ch que tinha 
comeado a beber e um trovo soou  no muita distante. 
      - Se refere a alguma poo de amor? - perguntou - Sou bruxo, no um estuprador. Acredita que abusaria dos meus poderes, que mancharia meu nome para conseguir 
sexo? Eu no te persegui, mulher. No sei que ter infludo no destino, mas  voc a que veio para este lugar, para mim, por sua prpria vontade. E  livre para 
ir embora como veio - adicionou furioso. 
      - Como quer que no estranhe? - replicou Rowan - Supe que tenho que dar os ombros e aceitar tudo? Ah, Liam  bruxo! Que bom! Pode se transformar em lobo e 
ler meus pensamentos e me transportar de um ambiente para outro num abrir e fechar de olhos, que curioso! Sou uma mulher culta, que de repente se v no meio de uma 
espcie de conto fantstico. E farei as perguntas que me d vontade! 
      - Eu gosto quando se aborrece - murmurou Liam - Por que ser? 
      - No tenho nem idia - contestou ela -e eu no me irrito, de verdade. Eu nunca grito, ainda que esteja gritando agora. Como no costumo despir-me antes de 
chegar  cama e no me dedico a discutir com um homem coberta s com um lenol. Por isso te perguntei se me fez algo para que me comportasse assim. Acredito que 
seja lgico. 
      -Pode ser que seja. Ofensivo, mas lgico. A resposta  no - contestou com voz cansada enquanto voltava a sentar-se na cama - No te enfeiticei, Rowan. Em 
minha famlia h uma lei inquebrantvel: no podemos usar nossos poderes para machucar ningum. E eu no te magoarei. E no s por isso, mas porque meu orgulho me 
impede manipular seus sentimentos por mim. O que voc sente,  porque voc o sente... Suponho que queira se vestir -adicionou. Moveu um dedo e a roupa de Rowan apareceu 
sobre a cadeira.
      - E espera que eu no me assuste com estas coisas, no ? -Rowan soltou uma risada - Espera muito de mim, Liam. 
      Ele a olhou e pensou nos genes que corriam pelo sangue dela. Era bvio que ela ainda no estava pronta para descobrir isso, decidiu, desagradado por sua prpria 
impacincia. 
      - Sim, suponho que sim. Espero muito de voc, porque tem muito potencial, Rowan. Deveria confiar mais em si mesma. 
      -Ningum nunca teve f em mim - respondeu ela, mais calma, aproximando-se a Liam - Isso me parece mais mgico que todos seus truques. Comearei confiando no 
seguinte: o que sinto por voc  verdadeiro. Parece suficiente? 
      Liam ergueu uma mo e tomou a que segurava o lenol de Rowan. 
      - Suficiente - aceitou, comovido por uma ternura infinita - Sente-se, o ch  est esfriando. 
      -No quero ch - recusou Rowan. Excitava-a ser to descarada, afastar o lenol sem recato - E no quero me vestir. Mas quero voc. 
      
     Captulo Nove
      Estava enfeitiada. Mas no mediante um feitio, pensou Rowan, encantada. No por meio de nenhum conjuro ou fora sobrenatural. Estava apaixonada e essa, sups, 
era a mais antiga e natural prova de do que a magia existia. 
      Nunca tinha sentido to cmoda nem to inquieta com outro homem. Nunca tinha sido to tmida e to atrevida como com Liam. Olhando atrs, analisando seus prprios 
atos, suas reaes, palavras e desejos, compreendeu que tinha se apaixonado por ele ao v-lo nos alcantilados, quando Liam a tinha surpreendido falando sozinha sobre 
uma rocha. 
      Amor  primeira vista, pensou Rowan. Uma pgina mais para seu conto de fadas particular. E depois de se apaixonar, tinham desenvolvido uma amizade a qual valorizava 
muitssimo. Companhia, tranqilidade. 
      Sabia que Liam gostava t-la perto, para trabalhar, para falar, para sentarem calados e olhar as mudanas do cu ao pr-se o sol. Sabia disso por perceber 
como sorria ao v-la ou como lhe acariciava o cabelo distraidamente.
      Em ocasies como essas, notava que a inquietude interior de Liam se apaziguava. No era estranho, perguntou-se, que ela tivesse ido ao bosque a procura de 
paz e que a tivesse proporcionado a Liam? A vida, pensou enquanto se sentava a desenhar junto ao ribeiro, era maravilhosa. E agora, finalmente, estava comeando 
a viv-la. Era maravilhoso trabalhar em algo que gostava, sentar e desenhar, explorar seu talento, contemplar como se filtravam os raios do sol atravs das rvores, 
observar o brilho do gua. 
      Agora dispunha de tempo para tudo isso. Tempo para ela. J no tinha que madrugar todas as manhs, vestir uma roupa da qual no gostava, desesperar-se com 
o trnsito, dirigir sob a chuva com uma valise repleta de papis. E estar frente a seus alunos, sabendo que no era o suficientemente boa, sem dedicar a ateno 
que os garotos mereciam. No teria que regressar a uma casa no fim da tardes que nunca tinha considerado seu lar, nem jantar e dormir sozinha. Salvo as quartas-feiras 
e os domingos, quando seus pais a esperavam para jantar. J no teria que ouvir seus conselhos sobre como devia dirigir sua vida. Semana aps semana, ms aps ms, 
ano aps ano. No a estranhava que estivessem to desconcertados com aquela escapada. Como reagiriam se dissesse que tinha traspassado os limites do imaginvel e 
se tinha apaixonado de um bruxo? 
      A idia a fez rir. No, seria melhor no revelar certas questes. Seus queridssimos pais jamais acreditariam. A ela mesma custava a entender. No podia negar 
que era verdade, mas como era possvel? Como podia Liam fazer o que ela o tinha visto fazer? Tinha-o visto, fazia menos de uma semana. E, desde ento, assistiu a 
uma dzia de pequenas e inexplicvel surpresas. Tinha-o visto acender velas com o pensamento, tirar uma rosa branca do nada... e numa ocasio a tinha despido com 
um sorriso. 
      Tudo isso a maravilhava. Mas se fosse sincera, em parte a assustava tambm. Ele tinha tais poderes... 
      - E nunca os usar contra voc - ouviu Rowan dentro da sua mente. 
      Esta se sobressaltou e o caderno caiu no cho. Ao mesmo tempo em que levava a mo ao corao, viu a guia prateada pousar na frente dela num ramo. 
      - Oi, sou Rowan - se apresentou esta depois de limpar a garganta. Em seguida, o guia abriu as asas, desceu do ramo e transformou-se num homem. 
      - Sei bem quem , moa - disse ele com voz musical. 
      -  o pai de Liam - aventurou Rowan, entusiasmada. 
      - Sou - Finn sorriu, aproximou-se dela, tomou-lhe uma mo para ajud-la a se levantar  e galantemente lhe beijou  - Encantado em conhece-la, jovem Rowan.
      - Por que est aqui sozinha? Preocupando-se?
      - Eu gosto de ficar sozinha algum tempo. E se preocupar  umas das coisas que fao melhor.
      Finn balanou a cabea, estalou os dedos e fez que o caderno de desenhos voasse at suas mos.
      - No, esta sim que  uma de suas especialidade - respondeu enquanto se sentava sobre o tronco de uma rvore cada, seu cabelo caia pelos ombros como uma cortina 
de prata lquida. - Tem muito talento... Sente-se, no vou te devorar - afastou-se para lhe dar espao para que sentasse no tronco.
      -  tudo to... chocante. 
      - Por que? - perguntou ele, realmente surpreso. 
      - Por que o que? - repetiu Rowan ao mesmo tempo em que se sentava junto a um bruxo ao que acaba de conhecer  - Pode que voc esteja acostumado, mas  um pouco 
estranho para um simples mortal. 
      Os olhos de Finn aumentaram de tamanho. Como era possvel que o cabea-dura de seu filho no tivesse falado do legado dela? O que estava esperando? 
      - J ouviu lendas, canes que falam de ns, no? - perguntou por fim. 
      - Sim, claro, mas...
      - E de onde acha que provem essas lendas e essas canes? - atalhou Finn - Tm sua origem na realidade. Ainda que seja verdade que em muitas ocasies a realidade 
seja alterada com mentiras; como quando inventam que os bruxos se dedicam a comer a meninos inocentes. Por acaso, est pensando que faremos uma pequena ceia com 
voc?  - adicionou em tom divertido. 
      - No, em absoluto.
      - Ento deixa de se preocupar - Finn folheou o caderno e sorriu ao ver um par de olhos de uma fada olhavam atravs de um ramo de flores - Muito bonito, garota. 
Como  que no usas cores? 
      -No me dou muito com cores -respondeu Rowan  - Eu pensei que poderia incorporar alguns trabalhos em cera, mas no tenho muitas paletas, talvez possa ser divertido.
      
      Finn fez um som de aprovao e seguiu virando pginas. 
      -  ele - disse sorridente ao chegar a um desenho que parecia com Liam - Sabia que voc  poderosa? -adicionou depois. 
      -Verdade? -perguntou Rowan, confusa. 
      -Todas as mulheres tm seu poder, Rowan. S tm que aprender a us-lo. Pea qualquer coisa a ele. 
      - O que? 
      - O que lhe agradar - respondeu Finn - Voc me daria este desenho ? Para minha esposa? 
      - Sim, com certeza - Rowan foi arranc-lo, mas a pgina desapareceu de repente. 
      - Arianna est com saudades- comentou Finn - Que voc tenha um bom dia, Rowan dos O'Meara. 
      -No quer... - mas desapareceu antes que pudesse pedir para que a acompanhasse at casa de Liam. 
      Levantou e seguiu o caminho sozinha. 
      
      
      
      
      
      
      
      
      No estava esperando-a. Ou ao menos isso era isso que dizia a si mesmo. Tinha muitas outras coisas com as quais se ocupar. E, com certeza, no estava dando 
voltas desesperado, desejando a chegada de uma mulher. 
       No tinha dito a Rowan que no tinha inteno de trabalhar esse dia? No  o tinha dito exatamente porque os dois precisavam se separar um pouco? Porque ambos 
queriam preservar alguns momentos para ficarem sozinhos? 
      Mas, onde diabos ela estava? Poderia ter olhado, mas seria o mesmo que  reconhecer que desejava sua companhia. E ela tinha deixado bem claro que queria que 
respeitasse sua intimidade. E ele a respeitaria, certo? No ia se deixar levar por essa necessidade imperiosa de conferir a bola de cristal e fisgar seus pensamentos, 
no ? 
      Maldita fosse! 
      Podia cham-la. Deixou de andar como um lobo engaiolado  e ficou pensando. Isso no poderia ser considerada uma intromisso. E ela era livre para no responder 
ao chamado caso no quisesse, disse enquanto saa do refgio. 
      Mas ela atenderia ao chamado, pensou. Era generosa demais. Se pedisse, Rowan viria. E pedir isso seria como confessar sua fraqueza por ela. S era uma necessidade 
fsica, assegurou-se Liam. 
      O desejo de sabore-la, toc-la e cheir-la. S que dessa vez era mais intenso do que em outras ocasies, devia-se ao fato de estar se contendo durante muito 
tempo. Sempre tinha sido delicado com ela. Por mais que seu sangue fervesse a tinha tratado com ternura. Quando o instinto o tinha impulsionado a tom-la de qualquer 
jeito, ele tinha se refreado. 
      Porque ela era uma mulher terna, recordou-se. Tinha a responsabilidade de se controlar a fim de no a assustar enquanto faziam amor. Mas para ele no bastava 
isso. Sua paixo era mais selvagem. Por que no podia satisfazer seus prprios desejos? 
       Liam meteu as mos nos bolsos e passeou pela varanda de um lado a outro. Se decidisse, embora ainda no o tivesse feito, aceit-la como companheira, Rowan 
tambm teria que o aceit-lo. Por inteiro. J estava cansado de lhe dar tempo e trat-la com tanta tato, pensou cada vez mais agitado. 
      Sim, j era hora de que soubesse toda a verdade. 
      
      
      
      
      
      Liam ergueu o olhar e os braos para o cu. Ato seguido, um relmpago explodiu  e o transportou at a varanda da casa de Rowan. E soube de imediato que no 
estava em casa. Amaldioou, irritado consigo mesmo, no s por ter cedido ao desejo, demonstrando assim como precisava dela, como irritou-se tambm com ela, por 
no estar onde esperava t-la encontrado. 
      Mas daria um jeito, claro que sim! 
      
      Rowan saiu do bosque sorridente. Estava ansiosa para contar a Liam que tinha conhecido seu pai. Supunha que se sentariam na cozinha e ele contaria histrias 
sobre sua famlia. Era to bom contando histrias, que podia escutar as ondas musicais subindo e descendo de sua voz durante horas. E agora que tinha conhecido seu 
pai, teria um pretexto para perguntar se podia conhecer outros membros de sua famlia. Ele j tinha mencionado alguns primos em outra ocasio, assim que... 
      De repente engoliu em seco. Belinda. Santo Deus! No tinha dito em alguma ocasio que Liam era seu parente? No significava isso que ela tambm era uma....?
      - A vida  assombrosa - murmurou Rowan entre risos. 
      
      Enquanto o dizia, enquanto seu riso ressoava no ar, o vento soprou. O caderno caiu de suas mos pela segunda vez no dia. Um terremoto? Pensou atemorizada. 
Sentiu que tudo girava, o vento galopava entre as rvores, luzes brilhantes e cegadoras cintilavam na sua frente. Tentou chamar por Liam, mas no conseguiu. E, de 
repente, estava colada a ele, que a beijou com firmeza enquanto as luzes continuavam girando. No podia pensar nem respirar. O corao martelava no peito e a cabea 
rodava. De repente, tinha os ps no ar, enquanto Liam seguia devorando-a, brutalmente. Tambm tinha invadido seu crebro, tinha-se infiltrado em seus pensamentos, 
seduzindo-os com a mesma inexorabilidade com que tinha seduzido seu corpo. 
      Incapaz de distinguir entre um e outro, Rowan comeou a tremer. 
      - Liam, espera...
      - Aceite o que ofereo - respondeu este. Atirou o cabelo para trs, de modo que Rowan pde ver o brilho aterrorizador de seus olhos  - Me deseje  como eu sou 
- e seguiu explorando seu corpo, ao mesmo tempo em que a levava ao cume com o pensamento. Quando Rowan gritou, caram juntos sobre a cama. O cabelo se soltou e se 
espalhou sobre o colcho enquanto suas pupilas se dilatavam pela paixo e pelo medo. 
      - Me d o que preciso. 
      Quando a mente de Rowan disse sim, ele a tomou. 
      O calor chegou em ondas, as sensaes lhe golpearam como punhos. Tudo era uma mistura de sentimentos selvagens e  abrasadores. Tinham traspassado os limites 
do civilizado, Liam estava atuando como o lobo que levava dentro de seu ser, pensou Rowan enquanto ele lhe rasgava a roupa. Ouviu o rugido que saiu de sua garganta 
antes de levar a boca seus seios. E depois ouviu um grito, seu, glorioso. No tinha tempo para flutuar nem suspirar. 
      S para seguir com ele  enquanto cada um de seus nervos vibrava. Mal tinha flego, retorcia o corpo a cada nova exigncia de Liam. Cujas mos a apertavam, 
cujos dentes a mordiscavam, produzindo uma dor leve e intensamente prazerosa e Rowan pediu mais. 
      Se ergueu de maneira que ambos ficassem ajoelhados sobre a cama, torso contra torso. Liam a percorreu com as mos, liberado o animal de seu ntimo, e seguiu 
devorando-lhe os lbios como um depredador. Rodaram sobre o colcho, entrelaavam-se e se perderam juntos. O desejo tinha dentes e uma voz que uivava como uma besta. 
Voltou a levant-la enquanto ela gemia seu nome e lhe fincava as unhas. Lutava por respirar, o ar queimava dentro de seus pulmes e de novo Liam conquistou sua boca. 
Rowan se arqueava, agitava a cabea de um lado a outro enquanto se agarrava aos lenis, s costas e ao cabelo dele. 
      
      Deixou-a louca com a lngua e com os dentes, estremeceu quando notou o orgasmo dela, quando o corpo de Rowan se elevou como uma chama e depois desceu. 
      - Venha comigo - sussurrou Liam enquanto a levantava, sem deixar de beijar sua pele, ainda tremula. Levantou seus quadris, separou-lhe as pernas e arremeteu. 
      Quente, rgido, veloz. Seus corpos e suas mentes ascenderam juntos. Liam se afundou nela profundamente, ao mesmo tempo em que lhe mordia os ombros. Rowan se 
agarrava a ele, abandonada quele xtase escuro e perigoso. Seu corpo palpitava de energia e seus movimentos eram to ferozes como os dele. O sangue chamou ao sangue 
e o corao ao corao. E num ltimo empurro, com um grito selvagem e violento, esvazio-se dentro dela. E Rowan o acolheu. 
      
      
      
      
      
      Estava espantado demais para falar, aturdido demais para mover-se. Sabia que seu corpo era muito pesado para Rowan, que ainda seguia tremendo embaixo dele; 
que ainda respirava com dificuldade.  A tinha usado sem controle. Propositalmente, egoistamente. Era evidente que tinha anteposto suas prprias necessidades, a tinha 
maltratado. Tinha sacrificado aquela relao por um instante apaixonado, a doura por uma satisfao fsica passageira e agora tinha que enfrentar as conseqncias: 
o medo de Rowan e a traio de seu juramento mais sagrado: no fazer dano a ningum. 
      Rodou para um lado da cama se afastando dela. Ainda no estava preparado para olh-la nos olhos. 
      Imaginou que estaria plida e que seus olhos brilhariam aterrorizados. 
      -Rowan.., -sussurrou. Mas as desculpas que lhe ocorriam tinham menos consistncia que o ar que os envolviam. 
      - Liam - suspirou ela. Quando se voltou para abra-lo, Liam se separou bruscamente e levantou para ir at a janela. 
      - Quer gua? 
      -No -o corpo ainda tremia enquanto sentava na cama. No pensou em se cobrir com os lenis, como costumava fazer, e sim que os deixou enroladas sobre as pernas. 
Ao ver que Liam lhe dava as costas, seu esplendor comeou a apagar. Chegaram as dvidas - O que fiz de errado?
      - Como? - Liam se deu a volta. 
      Viu seu cabelo, escuro e revolto ao redor dos ombros; viu seu corpo, suave e branco, com as marcas de suas mos, com os atritos da barba que no se incomodara 
de fazer. 
      - Pensava que... mas est claro que no... No tenho experincia nisso que acaba de acontecer -disse Rowan com um fio de voz - Se fiz algo errado, ou no fiz 
algo que esperava que eu fizesse, ao menos poderia dizer.
      -Est louca? -perguntou Liam, assombrado.
      - Estou perfeitamente s - respondeu ela. Tanto, que queria esconder a cabea no travesseiro e comear a chorar. E gritar - Pode ser que eu no saiba muito 
sobre a prtica do sexo, mas sei que sem comunicao e sinceridade fracassam todas as relaes. 
      -A mulher est me dando uma lio - murmurou ele, ao mesmo tempo em que passava a mo sobre os cabelos - A esta altura, est me dando uma lio. 
      - Certo, no me escute - contestou Rowan, insultada e magoada, enquanto saa da cama  - Fica ai olhando pela janela. Eu vou para casa. 
      -Est em casa -disse Liam - Em sua choupana, seu dormitrio, na cama sobre a qual lhe devorei. 
      -Mas... -Rowan olhou ao arredor, confundida, e comprovou que estava em seu dormitrio. A cama o separava de Liam, que seguia de p frente  janela  - Ento 
saia voc - adicionou com a pouca dignidade que lhe restara. 
      - Tem o direito a est irritada. 
      - Com certeza - assegurou Rowan. E no ia comear a chorar diante dele, totalmente nua. Assim foi ao armrio e se ps uma camisa.
      - Lhe peo perdo, Rowan, ainda que no acredite que sirva para alguma coisa, depois do que lhe fiz. Dei minha palavra que no a machucaria e a quebrei.
      Rowan girou o corpo, desconcertada, enquanto cobria os seios com a camisa. 
      - Como assim a quebrou? 
      - A desejava, e no pensei... Propositalmente no pensei no depois. Consegui o que queria e lhe machuquei. 
      Rowan notou que no era irritao o que via em seus olhos, e sim culpa. 
      - No me machucou, Liam. 
      - Fiz marcas em seu corpo. Tem uma pele delicada, Rowan, e eu a marquei. Isso eu posso arrumar facilmente, mas... 
      -Espera, espera -Rowan levantou uma mo quando Liam avanou em sua direo. E ele se deteve no mesmo instante, mortificado. 
      - No pretendia toc-la, e sim apagar as marcas. 
      - Deixa as marcas em paz - respondeu ela enquanto vestia a camisa - . Est irritado porque me desejava?
      -Porque te desejava tanto que perdi a cabea. 
      -Verdade? -respondeu ela, sorridente, ante a perplexidade de Liam  - Pois eu estou encantada. Ningum nunca me desejou tanto para perder a cabea. Em toda 
minha vida. E jamais imaginei o que poderia suceder. Talvez me falte imaginao, mas no importa, porque vi. Sei - adicionou. Agora foi ela a que se aproximou de 
Liam.
      Este acariciou seu cabelo sem dar-se conta de quanto desejava fazer essa carcia. De quanto precisava. 
      - Me apoderei de seus pensamentos quando voc me disse que no queria que fizesse. 
      - E voc me entregou os seus. Dessa vez no me queixarei -retrucou Rowan, segurando seus os cotovelos , os braos cruzados encarando-o - O que acaba de passar 
foi emocionante, maravilhoso. Me fez sentir desejada. Escandalosamente desejada. O nica coisa que me faria mau  que se arrependesse. 
      Liam compreendeu que Rowan era mais forte do que tinha suposto, e que talvez suas necessidades no fossem to delicadas. 
      - Ento no me arrependo nem um pouco - assegurou ele. Ainda assim, levantou-lhe a camisa  - Mas me deixe apagar essas marcas. No quero que tenha marcas. 
 importante para mim. 
      Deu um beijo na ponta de seus dedos e o corao de  Rowan quase parou  . Depois,  medida que deslizava os lbios por sua pele, os arroxeados foram desaparecendo. 
      - Acredita que acabarei me acostumando? 
      - A que? 
      -  magia. 
      -No sei -respondeu Liam. "O saberias se olhasses", pensou. 
      -Tive um dia mgico -comentou ela, sorridente  - Ia ver-te quando voc... mudou o ponto de encontro. Queria te dizer que conheci seu pai. 
      -Meu pai? 
      -Estava desenhando no bosque e apareceu. Primeiro em forma de guia, mas me dei conta em seguida. J o tinha visto antes - explicou Rowan - . Tambm em forma 
de guia. Sempre leva um medalho dourado no peito. 
      -Sim -disse Liam. O medalho que ele tinha que aceitar ou recusar. 
      - Depois se transformou e ficamos conversando.  muito bonito e muito amvel. 
      -De que falavam? -perguntou Liam, intranqilo, enquanto se vestia. 
      - De meus desenhos, mais do que nada. Pediu-me do que lhe presenteasse um que tinha feito de voc, para tua me. Espero que goste. 
      - Com certeza. Me ama muito. 
      - Me disse que ela sente sua falta, mas acredito que tambm falava dele. Em realidade, pensei que talvez vinha v-lo - Rowan olhou o estado dos lenis e sorriu 
- Ainda bem que no veio, n? 
      - Ele no se transporia em meu dormitrio para fazer-me uma visita -disse Liam, mais relaxado, com um sorriso pcaro - Isso j fao eu. 
      - Mas tambm  gostar de v-lo.
      - Estamos em contato - disse ele, enquanto desfrutava vendo-a fazer a cama. "Perde seu tempo, Rowan. No vamos demorar muito em voltar a us-la", pensou Liam. 
      - Est orgulhoso de voc, e acredito que est mesmo. Disse-me... que pedisse algo a voc - comentou enquanto arrumava os travesseiros. 
      - Sim? - Liam riu e se sentou na cama - E da vai pedir-me , Rowan Murray?, Que quer que eu te consiga?, uma safira para combinar com teus olhos?, diamantes 
para enfeitar seus ps? Se quer que eu lhe faa um favor no tem que fazer mais nada a no ser pedir- adicionou gracejando. 
      - Gostaria de conhecer sua famlia - disse Rowan sem pensar-se duas vezes. 
      - A minha famlia? - Liam piscou. 
      -Sim, bom... j conheci  seu pai. E Belinda... disse-me que eram parentes, ainda que no sabia que fosse... Ela ? 
      -Sim -respondeu Liam, distrado - Prefere isso a alguns diamantes? 
      -Que vou fazer com diamantes? Suponho que vai parecer uma tolice, mas gostaria de ver... como vive sua famlia.
      Liam ficou pensando e comeou a considerar as vantagens e um modo de apresent-la. 
      - Seria mais fcil compreender nossa magia, nossa vida. 
      - Sim, ao menos isso acredito. Tenho curiosidade - reconheceu ela  - Mas se no estiver de acordo... 
      - Tenho alguns primos que no vejo faz tempo. 
      - Na Irlanda? 
      -No, na Califrnia -respondeu Liam. Estava to concentrado planejando o encontro, que no percebeu a desiluso de Rowan, que estava desejando ir a Irlanda 
- Faremos uma visita -decidiu, ao mesmo tempo em que se punha de p. 
      - Agora? 
      - Por que no? 
      -Porque... -Rowan no tinha previsto que Liam fora se empolgar to rapidamente - Bem, tenho que me vestir, no? 
      Liam riu e lhe agarrou uma mo. 
      - No seja tola- disse.
       E ambos desapareceram.
      
     Captulo Dez
      A nica coisa que Rowan tinha certeza era que estava abraada ao potente peito de Liam, com o rosto apoiada num de seus ombros. O corao batia a toda velocidade 
e ouvia o eco do vento dentro da cabea. 
      - Bom meio de transporte - disse, arrancando uma risada de Liam com o comentrio. 
      -Tem suas vantagens -respondeu enquanto lhe dava um beijo. Por um momento, Liam se perguntou se no poderia ter atrasado a viagem um pouco... 
      -Onde estamos? -perguntou ela, depois de aterrissar. 
      - No jardim de minha prima Morgana -a informou Liam enquanto a rodeava pela cintura - Vive numa das casas mais antigas da famlia. Rowan se lembrou de sua 
nudez, olhou para abaixo e, com uma mistura de surpresa e alvio, viu que, em vez da camisa, usava jeans e uma camisa laranja. 
      - Seria muito pedir um pente? - perguntou. 
      - Gosto de seu cabelo assim - respondeu Liam enquanto aproximava a cabea para cheir-lo - E tem mais, fica fcil acarici-lo quando deixa ele solto.
      -Ummm! -exclamou Rowan ao sentir o cheiro das rosas e das lilases  -  maravilhoso. Quem me dera soubesse como ter um jardim to bem cuidado. Isso ...? - 
deixou a frase no ar ao ver um lobo que se aproximava deles. 
      -  um lobo, no um familiar.  de Morgana. E este  seu filho - respondeu Liam depois de que um menininho moreno, de olhos azuis, apareceu e  ficou olhando-os 
com curiosidade. Liam notou que o pequeno estava tentando ler os pensamentos  -  de m educao olhar sem permisso -lhe disse. 
      -Est em meu jardim -respondeu o menino, sorridente  -  o primo Liam. 
      - E voc Donovan. Encantado - Liam deu um passo  frente e lhe estendeu uma mo, com formalidade  - Vim com uma amiga. Esta  Rowan, e prefere que no espiem 
em seu crebro. 
      O jovem Donovan Kirkland, de uns cinco anos, olhou-o nos olhos. 
      - Tem os olhos bonitos. Podem passar. Mame est na cozinha. -Depois deu meia volta e se ps a correr para anunciar a sua me a visita, seguido de perto pelo 
cachorro lobo.
      -... bruxo? -perguntou Rowan. Era um menino muito bonito, faltava um dente em sua boca, mas tinha poderes. 
      -Com certeza. Seu pai no , mas seu sangue no pode apagar o rastro dos genes de minha famlia. 
      - Entendo - Rowan respirou profundamente. Bruxos ou no, pensou, iam entrar numa casa sem avisar de sua chegada - No deveramos chegar inesperadamente. Sua 
prima pode estar ocupada 
      - Seremos bem-vindos. 
      - Tpico de um homem dar por certo... -mas no pde completar a frase ao ver a casa. Era alta e estava iluminada pelo sol. Tinha torres que subiam para o cu 
- Parece sada de um conto de fadas.  Que lugar mais maravilhoso para se viver! 
      Ento a porta traseira se abriu e Rowan ficou muda de inveja e admirao. Era evidente a quem tinha sado o garoto. Jamais tinha visto a uma mulher mais bela. 
Tinha cabelo negro, longo, ombros largos e olhos de cobalto. Sua pele era tenra, suas feies, agraciadas. Estava de p, com uma mo sobre um ombro de seu filho, 
e a outra sobre a cabea do lobo, enquanto uma gata branca se esfregava em seus tornozelos. E sorriu. 
      - Bem-vindo, primo! -exclamou. Chegou perto deles e beijou Liam em ambas bochechas  - Fico contente em v-lo. E a voc Rowan. 
      -Se chegamos em mau momento... - comeou esta.
      - A famlia sempre  bem-vinda. Entre, nos tomaremos um refrigerante. Donovan, corre laacima e diga a seu pai que temos companhia - pediu a seu filho - No 
seja preguioso, v. Sobe e avisa - adicionou ao ver que o menino no fazia caso. Donovan se encolheu de ombros e obedeceu. 
      - Tem muita potncia no olhar - comentou Liam enquanto o menino entrava na casa e chamava seu pai aos gritos. 
      - E algum dia aprender a us-lo bem -respondeu Morgana, algo exasperada  - Temos ch gelado... po, sente-se - disse ao cachorro lobo, ao mesmo tempo que 
se sentavam na ampla e ventilada cozinha. 
      - Ele no me incomoda -  apressou a dizer Rowan, acariciando as orelhas enquanto o animal a cheirava  -  estupendo. 
      -J imaginava que estaria acostumada aos lobos atraentes - comentou Morgana, olhando de soslaio para Liam - Continua se transformando em lobo, no? 
      - Isso  comigo. 
      - Disso no resta dvida - Morgana olhou para a porta da cozinha.
      - Papai j vem -cantou Donovan, de volta na cozinha - Antes tem que matar uma pessoa. 
      - Com uma faca muito grande e afiado - adicionou sua irm gmea tambm se aproximando. 
      -Boa idia -observou Morgana. Depois, ao ver a cara de espanto de Rowan, comeou a rir  - Nash escreve roteiros de filmes de terror - explicou. 
      - Ah - Rowan disse apenas mais aliviada.
      - Podemos comer biscoitos? - perguntaram os gmeos ao unssono. 
      - Sim, mas sentem-se e comportem-se bem - respondeu Morgana. Ato seguido, uma tigela de cristal cheio de bolachas se elevou da bandeja e voou at a mesa -Allysia, 
espera at que tenhamos servido a Liam e Rowan. 
      - Sim, mami - contestou a menina enquanto ria travessamente junto a seu irmo. 
      -Acredito que tambm vou sentar - comentou Rowan  - Sinto, no posso... no estou acostumada a tudo isto. 
      -No est...? -Morgana interrompeu a pergunta e sorriu - A verdade  que demora um tempo para acostumar com meus filhos. 
      Depois ps uns pratos sobre a mesa e se dirigiu a Liam de mente a mente: 
      - Por que no a disse ainda, retardado? 
      -  assunto meu. Ainda no est preparada. 
      - No deve esconder. 
      - Sei o que fao. Sirva o ch e deixa que eu faa as coisas a minha maneira. 
      - Burro renitente! 
      Liam sorriu ao recordar que sua prima o tinha ameaado em convert-lo num burro durante uma briga de crianas. E o teria conseguido, pois era muito boa nesse 
tipo de conjuro.
      -Me chamo Ally, quem  voc? -perguntou a menina em voz alta. 
      - Sou Rowan - respondeu esta, mais calma, sorrindo para a pequena, que tinha o corpo cheio de raspes e arranhes  - Sou uma amiga de seu primo. 
      -No se lembra de mim -disse Liam enquanto se sentava  - Mas eu sim me lembro de voc, Allysia, e de seu irmo, da noite que nasceu. Foi durante uma tormenta, 
nesta casa, como nossa me, que tambm nasceu aqui uma noite tormentosa. E nas colinas da Irlanda, as estrelas do cu brilharam para celebr-lo. 
      - As vezes vamos a Irlanda visitar nossos avs no castelo - interveio Donovan - Um dia terei meu prprio castelo sobre uma montanha alta, junto ao mar. 
      - Espero que antes aprenda a arrumar seu quarto -disse de repente um homem que entrou com um beb em cada brao.
      - Meu marido, Nash, e minhas filhas, Eryn e Moira. Este  meu primo Liam, e sua amiga Rowan - apresentou Morgana. 
      - Encantado de conhece-los. As meninas acordaram do cochilo com os cheiro das bolachas. 
      Deixou s meninas no cho. Uma montou no pescoo do lobo, que estava sentado sob a mesa, aguardando alguma migalha. E a outra engatinhou at Rowan , subiu 
em sua perna e lhe deu um beijo em cada bochecha. 
      -Tens uns filhos lindos - disse Rowan, fascinada, enquanto acariciava o cabelo macio de Moira. 
      - Decidimos ficar com eles - comentou Nash enquanto fazia ccegas em Donovan e em Allysia-,at que encontremos outros melhores. 
      - Papi - Allysia lanou um olhar adorao a Nash, ao mesmo tempo que se  movia para evitar que este lhe tirasse a bolacha que tinha na mo. 
      -  muito rpida - disse Nash. Voltou a fazer-lhe ccegas e conseguiu arrebatar a bolacha de seus dedinhos - Mas eu sou mais ligeiro. 
      - Mais gluto- corrigiu Morgana - . Tem cuidado com suas bolachas, Rowan. Tratando-se de doces, no pode confiar nele. 
      - Natural - disse Liam enquanto tomava uma bolacha do prato de Rowan - . Tudo bem com  Anastasia e Sebastian, e seus filhos? 
      -Julgue por voc mesmo - Morgana decidiu convidar a seus outros dois primos e a suas respectivas famlias  - Esta noite jantaremos todos juntos para dar as 
boas vindas a vocs.
      
      
      
       A magia podia ser desconcertante, e podia ser cotidiana, descobriu Rowan.
       Podia ser assombrosa ou natural como a chuva. 
      Rodeada dos Donovan, embriagada pelas fragrncias que vinham do jardim de Morgana, comeou a acreditar que podia existir poucas coisas mais normais. O marido 
de Morgana, Nash, seu primo Sebastian e o marido de Anastasia, Boone, discutiam sobre o melhor mtodo para acender a grelha. Ana estava sentada numa cadeira de vime, 
amamentando a seu filho pequeno enquanto os outros trs corriam com os outros meninos e os cachorros, todo alegria entre risos e alaridos. 
      Morgana preparava canaps e batia um papo com a esposa de Sebastian, Mel, sobre os filhos, o trabalho, os homens, os tpicos temas dos que qualquer famlia 
fala durante uma festa agradvel. 
      Rowan tinha a sensao de que Liam estava um pouco distante, e se perguntava por que. Mas quando uma das meninas de Ana jogou os braos, Liam sorriu e a subiu 
a ombros com naturalidade.  Os observou com ateno enquanto ele estava com a pequena no colo, escutando com grande interesse o que esta falava. Gostava de crianas, 
pensou Rowan, entusiasmada. Aquilo era um lar, disse-se. Fossem bruxos ou no, era um lar com meninos que riam e se insultavam, caam e choravam como todos os meninos 
do mundo. E os homens discutiam de esportes, e as mulheres falavam de bebs e todas eram lindas. 
      Morgana, uma beleza morena inigualvel; Anastasia, delicada e adorvel; Mel, mais sedutora que nunca com sua segunda gravidez. E os homens... eram todos deslumbrantes: 
Nash podia ser estrela de qualquer filme de Hollywood, Sebastian tinha um ar romntico e travesso, e Boone era alto e robusto, e Liam, com certeza, com esse reflexo 
dourado que iluminava sempre seus olhos. 
      Podia ter evitado apaixonar-se por ele? No, de jeito nenhum. Teria sido impossvel por mais do que tivesse tentado. 
      -Senhoritas -disse Sebastian-, os homens precisam de cerveja para levar a cabo seu trabalho. 
      - Pois seja um homem e pegue-as da geladeira - replicou Mel. 
      - E bem mais divertido quando nos servem -Sebastian acariciou o ventre protuberante - Est nervosa, quer se deitar? 
      - Estamos bem - Mel afastou a mo. Mas logo depois ele se inclinou e sussurrou algo ao seu ouvido que a fez sorrir e seu rosto se iluminou  - Ora, Donovan, 
vai pegar sua cerveja e prossiga jogando com seus amigos... 
      - Ele baba pelos bebs. Quando Aiden nasceu, Sebastian anunciou como se ele tivesse dado a luz - adicionou depois, uma vez que ele saira para pegar as cervejas.
      -  um pai maravilhoso - comentou Ana enquanto colocava seu beb sobre um ombro e dava umas palmadinhas  nas costas. 
      -Eu posso segurar ele? -perguntou sua enteada, Jessie - Ficarei com ele na at que durma e colocarei ele no bero sobre a sombra. No se preocupe, mame, terei 
cuidado. 
      - Sei que  ter, Jessie. Tome, cuide de sua irmzinha. 
      Rowan ficou olhando  menina, que devia ter uns dez anos. Se era enteada de Ana, e Boone no era bruxo... 
      Jessie tambm no o era. E, no entanto, no parecia que a menina se sentisse fora de lugar entre seus primos. 
      - Quer mais vinho, Rowan? - Morgana encheu uma taa sem esperar que aquela respondesse. 
      -Obrigada. Sinto por ter dar tanto trabalho e chegar sem avisar.
      - O prazer  nosso. Liam no aparece com muita freqncia - contraps Morgana num tom clido e amistoso  - Por que no nos conta como conseguiu traz-lo at 
aqui? 
      - Simples, disse que queria conhecer  alguns de seus parentes. 
      - Simplesmente disse - Morgana trocou uma olhada cmplice com Ana - Concorda que ... interessante? 
      - Espero que fique uns dias - Ana apertou a mo de sua prima por baixo da mesa  - Conservei minha antiga casa para quando a famlia nos visita ou algum amigo. 
Ficaria honrada que ficassem l 
      - Obrigada, mas no trouxe nenhuma muda de roupa - respondeu Rowan. Olhou para si mesma e lembrou que tinha sado de Oregon com somente uma blusa sobre o corpo 
e tinha aterrissado completamente vestida no quintal de Morgana - Ainda que imagino, isso no seja um problema, n? 
      - Logo se acostumar - Mel riu e mordeu uma cenoura  - Ou quase isso.
      Rowan no estava muito certa a respeito daquilo, Mas se sentia a vontade ali, me meio aquelas pessoas. Bebeu um gole de vinho e olhou para Liam, que estava 
conversando com Sebastian. Fica feliz por ele poder conversar com sua famlia, que eles o entendessem e o apoiassem.
      
      
      -Deus, como voc  uma mula! - disse Sebastian. 
      -  assunto meu. 
      - Sempre igual - Sebastian deu um gole de cerveja - Nunca mudar, Liam. 
      -Por que teria que faz-lo? -respondeu. 
      Sabia que era uma contestao infantil, mas Sebastian costumava p-lo na defensiva. 
      - O que acha que quer demonstrar com isso? Foram feitos um para o outro. 
      -E mesmo assim continua sendo minha deciso -contestou Liam. 
      Sebastian teria rido se no fosse a inquietude que via nos olhos de Liam. 
      - Se  isso que sente - adivinhou aquele-, por que no disse? 
      - J lhe falei quem sou - disse Liam  - Eu demonstrei. Ela esteve a ponto de se desfalecer...Educaram-na para no acreditar em magia- acresceu.
      - Mas acredita. Leva-a dentro de si. At que no diga a ela, no poder fazer sua escolha em aceit-la ou no. E no  a capacidade de deciso que voc mais 
valoriza?
      Liam encarou Sebastian e seu sorrisinho superior.
      
      Desde pequenos, sempre tinha competido com seu primo mais velho. Sempre tinha tentado ser to rpido e preparado como ele. Ainda que a rivalidade existisse, 
sempre o considerara sua heri.
      Mesmo agora, um homem adulto, desejava contar com o respeito de Sebastian. 
      - Quando ela estiver preparada poder decidir, o far..
      - Quando voc estiver preparado - corrigiu Sebastian  - Tem tanto medo assim?- provocou o outro.
      -No  medo,  sensatez -replicou Liam  - Quase no teve tempo de assimilar o que j lhe disse. Seu legado est to enterrado que mal se vislumbra em sua cabea. 
Foi manipulada por sua famlia toda a vida, acaba de descobrir sua identidade como mulher. Como vou pedir para que aceite seus poderes? "ou que me aceite ", adicionou 
para si , irritado pero mero fato de ter pensado nisso.
      Sebastian deu-se conta de que Liam estava apaixonado por ela. Estava apaixonado e era cabea-dura demais para reconhecer. 
      -Pode ser que voc a esteja subestimando, Liam - disse olhando para Rowan, sentada junto a sua esposa  -  encantadora. 
      - Ela acredita que  comum, simples. e no  em absoluto -Liam no se virou para ela. Podia v-la na cabea se quisesse - Mas  terna e delicada. No quero 
lhe pedir mais do que esteja preparada para dar. 
      No raciocinava, pensou Sebastian, que tinha experimentado o mesmo estado de alienao ao conhecer Mel. E provavelmente teria cometido erros similares. 
      -No acredito que tenha alguma mulher que esteja preparada para viver com voc - o espetou Sebastian  - Fico at com pena dela por ter que v essa cara feia 
sua, dia aps dia. 
      -E como sua mulher te agenta, primo? - replicou Liam. 
      - Ela  louca por mim. 
      - Engraado, para mim ela sempre me pareceu uma mulher inteligente. 
      -  aguda como um punhal - comentou Sebastian, olhando sorridente para Mel. 
      - Pois ento suponho que teve que fazer uso de toda sua magia para engan-la e que se apaixonasse por voc. 
      -Usei muita menos do que ter que empregar para que sua bela amiguinha fique com voc - respondeu Sebastian ao mesmo tempo em que o agarrava pelo pescoo.
      - V para o... - Liam se debateu tentando se libertar de seu primo, que tapou sua boca com as mos - Esta voc me paga -adicionou. 
      Mas o pequeno Aiden apareceu e se colou a uma perna do pai, de modo que Liam teve que deixar a vingana para outro momento. 
      
      
      
      Era tarde quando deixou Rowan dormindo na casa de Ana. Estava intranqilo, estranhando a dor que envolvia seu corao. Pensou em correr pela orla, ou em voar 
sobre o mar at acalmar-se e pensou em Rowan , a qual estaria placidamente adormecida. Finalmente, caminhou entre as sombras e os aromas do jardim de Ana, a procura 
de paz espiritual. Depois passou sob o arco de rosas, cruzou pela grama e subiu o alpendre da casa ao lado, onde Ana vivia com sua famlia. Sabia que sua prima o 
esperava ali. 
      - Deveria estar dormindo - disse. 
      - Imaginei que quisesse falar comigo - Ana respondeu simplesmente estendendo uma mo. 
      Liam a tomou, sentou junto a ela e  ficou calado. No tinha ningum com quem se sentisse mais a vontade em silncio que com Ana. 
      Acima, as nuvens cobriam e expunham a lua, as estrelas brilhavam. A casa que Rowan dormia estava a escuras, cheia de sonhos. 
      -No me dei conta das saudades que sentia at ver vocs. 
      - Precisava ficar sozinho algum tempo - respondeu Ana, apertando sua mo com afeto. 
      - Sim. No me isolei porque no me importava -assegurou Liam - Muito pelo contrrio. 
      -Eu sei, Liam -Ana acariciou a face e absorveu a dor de seu primo - Est muito preocupado. Por que sempre se atormenta tanto?? 
      - Sou assim - respondeu ele, subitamente relaxado, graas ao poder emptico de Ana  - Tem uma famlia maravilhosa, e um lar estupendo. Boone  perfeito para 
voc. E seus filhos so uma delcia. Nota-se que  feliz. 
      - Igual se nota que voc no . No deseja criar uma famlia voc tambm?, que o fizesse feliz ? 
      Liam a olhou, sabendo que ia dizer coisas a ela que nunca diria a nenhuma outra pessoa. 
      - Talvez no esteja capacitado para formar uma famlia -falou devagar. 
      -O que lhe faz pensar isso? -perguntou Ana, consciente de como seu primo era exigente consigo mesmo. 
      - Estou acostumado a pensar em mim. Acostumado a fazer o que mais me apetece em cada momento. E gosto - Liam sorriu  - Sou um homem egosta e o destino est 
me pedindo que assuma a responsabilidade de aceitar o medalho que meu pai levou com to bom juzo; que me una a uma mulher que s compreender em parte o que isso 
significa. 
      - No se valoriza o suficiente. E a ela tambm no -retorquiu com um tom impaciente, eficaz pelo uso econmico que fazia dele.- Sempre foi renitente e orgulhoso, 
mas no egosta. O que acontecesse  que quer levar a responsabilidade sobre tudo. E por isso no as aproveita como devia... Tenho certeza que Rowan compreender 
muito mais do que voc acredita - adicionou depois de dar um suspiro. 
      - Gosto de seguir meu prprio ritmo . 
      - E ainda mais quando est no comando, no? - Nesse momento Ana caiu na risada. 
      A lgica se tinha voltado na contramo de Liam e este tinha posto um gesto de contrariedade graciossimo .
      - Sabe, uma das coisas que mais admirei em voc, sempre? Sua tendncia a questionar e analisar tudo.  uma qualidade fabulosa e irritante. E isso se deve pelo 
fato de se preocupar muito com os demais, mesmo que no queira admitir. 
      - Ana, o que voc faria em minha situao? 
      -Para mim  muito simples -respondeu ela com um suave sorriso - Escutaria  meu corao. Sempre fao. E voc far o mesmo quando estiver preparado. 
      -No so todos os coraes que falam to claro quanto o seu - replicou Liam, de novo intranqilo - Disse quem sou, mas no lhe esclareci o que isso pode representar 
para ela. Fiz dela minha amante, mas no lhe dei amor. Apresentei-a a minha famlia sem lhe falar da sua. Como no vou ficar preocupado? 
      -Tudo isso pode mudar. Est em suas mos. 
      - Sim, nos voltaremos esta mesma manh, quando ela acordar. E lhe ensinarei o que dorme em seu interior. Com respeito ao restante, ainda no decidi nada. 
      -No a ensine s as obrigaes, Liam. Mostre a ela tambm as vantagens -Ana se ps de p - O beb est com fome. Me despedirei de todos por voc, amanh, se 
quiser.
      - Eu agradeceria - Liam levantou. e lhe deu um abrao - Amo voc, prima. 
      - No demore a nos visitar - Ana deu um beijo em cada lado do rosto e em seguida caminhou at a entrada. Depois, parou no umbral da porta, virou-se e sussurrou 
- O amor se aproxima.
      
      Se aproximava, pensou Liam quando se aconchegou na cama ao lado de Rowan. Aproximava-se em sonhos, certamente. 
      Mas se espantaria quando no dia seguinte  quando falasse com ela? Como uma princesa de um conto de fadas, que era acordada com um beijo, ele teria que acordar 
a conscincia de Rowan. O  fato de ele ser , de certa maneira, um prncipe, o fez sorrir. O destino, pensou, podia ser irnico. 
      Esses e outros pensamentos o mantiveram acordado a noite, esperando que amanhecesse. Com a primeira luz do dia, Liam ergueu os braos e ambos regressaram  
cama de Rowan. Esta murmurou e mudou de posio. 
      Liam se levantou, vestiu-se, contemplou-a dormindo. Depois baixou as escadas com sigilo e preparou caf. 
      Pensou que os dois iriam precisar. Como tinha a cabea sintonizada com a dela, soube no instante preciso em que Rowan acordou. Saiu at a varanda. Ela sairia 
para procur-lo, para fazer perguntas.
       Acima, Rowan piscou assombrada.  Tudo tinha sido um sonho? No  parecia ser possvel, pois recordava tudo com enorme nitidez. O cu azul de Monterrey, o jardim 
de Morgana, os melodiosos risos dos meninos. As clidas boas vindas. Tinha que ser real. Depois sorriu e apoiou o queixo sobre os joelhos, apertadas contra o peito. 
      Levantou e se disps a experimentar um novo dia mgico.
      
     Captulo Onze
      Quando o viu de p no alpendre, voltou a se admirar. No deixava de ser estranho e ao mesmo tempo maravilhoso que esse homem to extraordinrio a desejasse 
com tanta paixo. Deixou-se levar por um impulso e correu para abra-lo, apertando a face sobre as costas de Liam. Esses gestos to doces e espontneos o rasgavam. 
Quis se virar, levant-la e lev-la a algum lugar onde no tivesse nada nem ningum salvo eles dois. Mas se limitou a segurar sua mo. 
      -No pude me despedir de sua famlia -disse Rowan. 
      - Voltar a v-los... se quiser. 
      - Claro que quero. Eu gostaria de ver a loja de Morgana. Com certeza deve ser incrvel. E os cavalos de Sebastian e Mel. Gostei muito de conhecer seus primos 
- Rowan esfregou o rosto na camisa dele - Tem sorte de ter uma famlia to grande. Eu tenho alguns primos, mas vivem muito longe. No os vejo desde que era uma menina. 
      Os olhos de Liam aumentaram de tamanho: podia ter uma introduo melhor ao que queria lhe dizer?
      - Vamos para dentro, Rowan. Tenho que falar com voc. 
      Ela deu um passo atrs, confusa. Em vez de girar e abra-la, como tinha suposto que faria, tinha falado num tom frio e nem sequer a tinha encarado.
      O que tinha feito de errado?, se perguntou enquanto entravam na cozinha. Tinha falado algo?, tinha...? Fechou os olhos aborrecida consigo mesma. Por que fazia 
isso?, por que dava sempre por certo que tinha dado uma mancada ou que de algum modo tivesse sido culpa dela? 
      Negava-se a continuar sendo assim. Nem com Liam nem com ningum, disse-se enquanto se servia caf. 
      - De que queres que falemos? - lhe perguntou sem rodeios, apesar do medo que lhe atravessava o estmago. 
      - Sente-se. 
      - Estou bem de p - replicou Rowan enquanto passava a mo pelos cabelos nervosa. Deu um gole no caf e queimou a lngua - Se est bravo comigo, diga-me. No 
gosto de ter que adivinhar. 
      -No estou irritado com voc. Por que deveria estar? 
      -No tenho nem idia -Rowan preparou uma torrada, ainda que s fosse para se manter ocupada - Mas sua expresso diz outra coisa. 
      -No estou. 
      - Claro que est - insistiu ela, irritada. 
      -No, mas peo perdo se parece - desculpou-se  Liam enquanto se sentava numa cadeira - Levei-a para conhecer a minha famlia e  sobre  famlia que quero 
lhe falar. E preferiria que deixasse de dar voltas pela cozinha e se sentasse. 
      - Estou preparando o caf da manh, se no se importa -respondeu Rowan, cheia de coragem. 
      Liam murmurou algo. Depois ergueu as mos e apareceu um prato com uma torrada na mesa. 
      -J est pronto. Ainda que no sei como pode chamar a isso caf da manh. E agora sente-se. 
      -Posso preparar minha torrada sozinha - respondeu enquanto ia at geladeira pegar a gelia. 
      - Rowan, est pondo a prova minha pacincia. A  nica coisa que estou te pedindo  para que se sente e fale comigo!
      - No me pediu nada, me ordenou. Agora que me pediu, o farei - concedeu Rowan, satisfeita com to pequena vitria - Quer uma torrada? -o provocou.
      - No, no quero -Liam suspirou-Obrigada. 
      Ento, Rowan suspirou com uma doura que o comoveu: 
      - Quase nunca ganho uma discusso -explicou ela enquanto untava a gelia  - Sobretudo, quando no sei seu motivo. 
      - Pois esta ganhou, no? 
      - Gosto de ganhar -respondeu com os olhos iluminados.
      - Eu tambm - Liam riu e ps uma mo sobre o pulso de Rowan - .No colocou leite e nem acar. E eu sei que no gosta de seu caf puro. 
      - Porque no sei faze-lo. Seu caf  bom -disse Rowan - Dizia que queria falar sobre sua famlia.
      - Sobre famlia - corrigiu Liam - J sabe o que sucede com a minha. 
      - Sim - respondeu ela  - Sei sobre seus poderes, o legado dos Donovan - adicionou sorridente. 
      - Exato. E estou orgulhoso de minhas origens. Mas os poderes implicam uma srie de obrigaes. No so  brinquedos, ainda que tambm no h que os temer. 
      - No tenho medo de voc, Liam, se  isso o que o preocupa. . 
      - , em parte. 
      -No tenho, no poderia -assegurou Rowan. Estendeu uma mo para acarici-lo, para dizer-lhe que o queria, mas Liam levantou e comeou a dar voltas pela cozinha. 
      - Voc v tudo como um conto: magia, amor e final feliz. Mas se trata da vida, Rowan, com seus embaraos e seus enganos. A vida h que a viver, tem suas exigncias. 
      -Apenas parte disso est certo -disse ela - No posso deixar de v-lo como algo mgico e romntico, mas tambm entendo o resto. Como no vou entender depois 
de ter conhecido a seus primos e ver a sua famlia? Isso  com o que encontrei ontem: com uma famlia. No com a ilustrao de um livro. 
      - E se sentiu... cmoda com eles? 
      - Muito - assegurou Rowan.
      Seu corao batia com fora. Notava que era importante para Liam que aceitasse  sua famlia. Porque... talvez porque ele tambm a amava?, porque queria que 
fizesse parte de sua vida? 
      -Rowan -Liam voltou se a sentar -Eu tenho muitos primos. Aqui, na Irlanda, e em Gales. Alguns se chamam Donovan, alguns Riley. E alguns O'Meara. 
      -Sim, j me disse que sua me era uma O'Meara.  possvel que at tenhamos parentes longnquos comuns. E qual  o problema? De alguma forma, estaria relacionada 
com Morgana e o resto. 
      Liam suspirou, agarrou suas mos, acariciou-as e as segurou com fora. 
      -Rowan, no disse que talvez fssemos primos, seno que somos. Longnquos,  verdade, mas compartilhamos o mesmo sangue. Um legado.
      - Pode ser - concordou Rowan, estranhada pela intensidade com que Liam a fitava - Mas seramos primos de muito longe.  curioso, mas... Um momento, o que quer 
dizer?, compartilhamos um legado? -adicionou de repente. Rowan acreditou que o corao parava de bater.        - Sua bisav, Rowan O'Meara era bruxa. Como eu sou. 
E igual voc. 
      - Isso  absurdo - recusou ela  -  absurdo, Liam. Nem sequer a conheci e, com certeza, voc no que a conheceu. 
      -Tenho escutado falar dela - disse Liam com calma- de Rowan O'Meara, nascida em Clare, que se apaixonou e se casou, e abandonou sua ptria e renegou seus poderes. 
O fez porque o homem que amava pediu. Fez livremente, tinha o direito. E quando deu a luz a seus filhos, no lhes contou nada de seu legado at que fossem maiores. 
      - Est pensando em outra pessoa - acertou a dizer Rowan. 
      - Por isso diziam que era excntrica. No acreditavam nela. Depois, quando seus filhos deram a luz a outros meninos, s comentaram que Rowan O'Meara era um 
pouco esquisita. Carinhosa, mas extica. E quando a filha de sua filha deu a luz a outra filha, a menina cresceu sem saber o que corria por seu sangue. 
      - impossvel. Como no iria saber? -Rowan separou as mos e se ps de p  - Eu notaria de algum modo,  sentiria. 
      - E no sentiu? -Liam levantou enquanto tentava de encontrar uma maneira de falar sobre aquilo sem assust-la - No notou um calor especial no sangue de vez 
em quando? 
      -No -mentiu Rowan conscientemente - Bem, no sei. Mas est enganado, Liam. Eu sou normal. 
      -Viu imagens entre as chamas, seus sonhos foram mais intensos do que os dos demais. Percebeu as vibraes de seu poder sob a pele, na mente. 
      -Eram imaginaes -insistiu. ela  - Crianas tm muita imaginao - adicionou. Mas estava sentindo a vibrao nesses momentos, em parte de medo. 
      - Disse que no tem medo de mim -recordou Liam com voz suave - .Por que ia temer  voc mesma? 
      - No tenho medo. Simplesmente, sei que no  verdade. 
      - Ento no se importar de fazer uma prova, para ver quem tem razo. 
      -Uma prova?, qual? 
      - A primeira destreza que se aprende e a ltima que se esquece  como fazer um fogo. Voc j sabe, leva em seu interior. Eu vou faze-la recordar -Liam a segurou 
pela mo  - e lhe dou a minha palavra que no acenderei fogo, bem como a peo que no vai bloquear o que quer que saia de dentro de voc.
      
      -No tenho que bloquear nada, porque no h nada - respondeu Rowan,-tremula. 
      - Ento venha comigo. 
      -Aonde? -quis saber ela enquanto Liam a levava para fora. Mas j sabia. 
      - Ao crculo - respondeu simplesmente  - No tem controle sobre seu poder e ali ser um lugar seguro.
      - Liam, isto  ridculo. Sou uma mulher normal, preciso de fsforo para acender um fogo. 
      - Acredita que estou mentindo? - perguntou ele olhando-a aos olhos. 
      -Acredito que esta equivocada -enfatizou Rowan enquanto seguia a passo forado a Liam  - No digo que no tivesse uma Rowan O'Meara que fosse bruxa. Seguro 
que sim, mas no foi minha bisav. Minha bisav era uma mulher doce, um pouco alienada, que fazia uns desenhos muito bonitos e contava contos de fadas .
      - Alienada? - repetiu ele, ofendido - . Quem te disse isso? 
      -Minha me... 
      -Percebe? -disse Liam, como se isso confirmasse suas palavras  - Alienada. A mulher renuncia  tudo por amor e a chamam alienada. Sim, talvez estivesse um pouco. 
Talvez teria sido melhor se tivesse ficado na Irlanda e tivesse encontrado algum como ela. -Ainda que ento nunca teria conhecido Rowan, pensou. No sabia se estava 
irritado ou agradecido por esse reviravolta do destino. Depois, uma vez no crculo de pedras, colocou-a no centro. Rowan estava sem flego, pelo rapidez com que 
tinham andado e pelo que sentia boiando no ar. 
      - Este crculo  sagrado! -exclamou Liam - Rowan Murray est em eu interior para descobrir seu legado! 
      Depois de realizar o conjuro, o vento soprou entre as pedras e acariciou o corpo de Rowan. 
      - Liam... -o chamou, assustada.
      - Tem calma, ainda que seja algo duro para voc. Juro que no vai acontecer nada de mal - pegou sua mo e a beijou at que a rigidez de seu corpo diminuiu 
- Se no confias em voc, confia em mim. 
      -Eu confio em voc, mas... tenho medo. 
      Liam acariciou o cabelo e se deu conta de que o que estava fazendo era como iniciar no amor a uma virgem. Devia atuar com doura e pacincia, pensando s nela. 
- Tome-o como se fosse um jogo, mais singelo do que acredita -lhe props, sorridente  - Respira fundo e devagar at que oua a batida de seu corao na cabea. Fecha 
os olhos e respire, at que esteja tranqila. 
      - Me disse que v acender um fogo e depois me pedes que esteja calma -protestou Rowan. Mas fechou os olhos. Quanto antes pudesse demonstrar-lhe que estava 
equivocado, antes acabaria com aquilo - Um jogo. Est bem, um jogo. Quando vermos que no sirvo para isso, voltamos a casa e terminamos de tomar caf da manh. 
      "Recorda o que no lhe disseram, mas est em seu interior", murmurou-lhe Liam telepaticamente. "Sente o que sempre sentiu, mas no chegou a compreender. Escute 
seu corao, confie em seu sangue". 
      - Abre os olhos, Rowan - disse depois em voz alta. 
      Perguntava-se se isso seria como deixar que a hipnotizassem. Estar to alerta e consciente e, ao mesmo tempo, sentir-se to fora de si. Abriu os olhos e olhou 
aos de Liam enquanto, eles se iluminavam.
      - No sei que fazer. 
      -No? -perguntou ele - Liberte-se, Rowan. Tenha f em voc, aceita o dom que leva dentro de voc. 
      S era um jogo, repetiu-se ela. Um jogo que era uma bruxa que desconhecia seus poderes. Para descobri-los s tinha que acreditar em si mesma, desejar e aceitar. 
      Rowan estendeu os braos, olhou-os como se pertencessem a outra pessoa. Tinha as mos compridas, de longos dedos, sem anel, elegantes. Ento ouviu a batida 
de seu corao na mente, tal como tinha alertado Liam. E ouviu sua respirao como se estivesse escutando-se enquanto dormia. Fogo, pensou. 
      Para dar luz e calor. Confortabilidade. Podia v-las na cabea: chamas douradas por dentro e vermelhas pelos bordes. Iam crescendo e subindo como tochas para 
o cu. Sem fumaa, belas. Fogo, repensou. Para dar luz e , calor. Fogo que flameja de dia e de noite. 
      Sentiu um pequeno enjo. Liam teve que se controlar para no a segurar. Depois jogou a cabea para trs e o azul de seus olhos se intensificou. O ar soprou. 
Esperou. Liam a olhou enquanto ela perdia certa espcie de inocncia. O poder a sacudiu como o vento que lhe levantava o cabelo. Rowan estremeceu, notou o calor 
na mente, depois o sentiu descer por seus braos e sair disparado pelos dedos.
      Olhou estupefata o crculo de fogo que tinha provocado. Eram chamas pequenas, que lhe esquentavam os joelhos. Quando Rowan ergueu as mos, as chamas cresceram 
inesperadamente. 
      - Ai, no! 
      - Chegue para trs. Ainda no tem controle. 
      Liam fez diminuir a altura das chamas enquanto ela balbuciava:, 
      -Como... eu? - Rowan o encarou - Voc. 
      -Sabe que no fui eu.  sua herana, Rowan, e sua  a deciso de aceit-la ou no. 
      - Eu o fiz - Rowan fechou os olhos e respirou profundamente at acalmar-se um pouco. Tinha sido ela. J no podia negar. E talvez soubesse durante  toda sua 
vida . Sentia. Via. - Tinha as palavras em minha mente, como se fosse um conjuro. No sei o que pensar, no sei que fazer. 
      -Como se sente? 
      - Assombrada - Rowan no olhou as mos  - Encantada. Aterrorizada e entusiasmada, maravilhada. H magia dentro de mim - acrescentou com os olhos cintilantes, 
iluminando todo o rosto.  Voltou a rir e comeou a saltar e dar voltas dentro do crculo de pedras. 
      Liam se sentou sorridente e assentiu, satisfeito de como Rowan tinha acolhido seu legado. O poder acentuava sua beleza, pensou. 
      - Toda minha vida fui uma pessoa responsvel , ordinria, tediosamente normal - Rowan deu outra volta e depois se atirou ao cho junto a Liam e o abraou -Agora 
h magia dentro de mim. 
      - Sempre a teve. 
      Sentia-se como uma menina com milhares de presentes embrulhados, esperando para ser abertos e descobertos. 
      - Pode me ensinar mais? 
      -Sim -Liam acariciou uma bochecha - Posso. E farei. Mas no agora. Estamos aqui a mais de uma hora e quero tomar caf da manh. 
      -Uma hora -Rowan piscou enquanto Liam se punha de p e a ajudava a levantar-se  - Pareceram-me uns poucos minutos. 
      - Voc demorou a se concentrar. Da prxima vez demorar menos - Liam apagou o fogo com a mente - Logo veremos que tipo de poderes tem exatamente depois de 
tomar caf da manh. 
      - Liam - Rowan lhe deu um beijo no pescoo e o olhou aos olhos  - Obrigada.
      
      Aprendia rpido. Liam nunca tinha se considerado um bom professor, de maneira que sups que tinha mais a ver com a aluna. 
      Uma aluna receptiva, ansiosa e inteligente. 
      No precisaram muito tempo para determinar que a magia era um de seus fortes, como no caso de Morgana. Em alguns dias perceberam que, apesar disso no era 
boa em adivinhar os pensamentos. Podia traspassar seus pensamentos para Liam, mas no podia ler os seus, a no ser que ele os mandasse a sua mente. E ainda que no 
conseguisse transformar a si mesma, inclusive depois de uma hora de concentrao, tinha convertido uma p em uma roseira, rindo, maravilhada. Ana tinha dito que 
lhe ensinasse as vantagens, recordou Liam. Mas compreendeu que era Rowan que estava ensinando a ele a gozar de seus poderes, ao v-la danar pelo bosque, convertendo 
botes de flor em ramos coloridos. As rochas se transformavam em cristais luminosos e o ribeiro do bosque passou a ter um elegante cascata de um azul luminoso. 
      No a freou. Merecia se deleitar com a magia que tinha dormido tantos anos em seu interior. 
      As responsabilidades e as decises chegariam em seu momento. Logo. 
      Por enquanto, Rowan estava dando forma a seu prprio conto de fadas. Via-o com clareza e queria faz-lo real. Queria conseguir sua casa no bosque, com um jardim, 
com gua, com vento e com Liam. 
      Virou-se para ele, alheia ao quanto estava atraente com os cabelos soltos . e  estendeu os braos  enquanto seus olhos se iluminavam.
      - S por hoje. Sei que as coisas no podem ser assim sempre, mas eu costumava sonhar que estava num lugar como este, com gua e o vento soprando, e flores 
enormes. E o aroma... -Rowan se deteve ao dar-se conta de que, efetivamente, tinha sonhado com esse preciso instante, e com Liam Donovan saindo de um alpendre e 
aproximando-se a ela. Agachava-se para recolher uma rosa branca e a oferecia - Sonhava com voc  quando era pequena - repetiu. 
      Liam se agachou  para recolher uma rosa branca e a ofereceu. 
      -Que mais sonhava, Rowan Murray? 
      - Isto. 
      -S por hoje, seu sonho ser realidade. 
      -Eu usava com um vestido azul, uma tnica na realidade. E voc levava uma negra - Rowan riu ao notar a carcia da tnica que de repente a envolvia - Eu fiz 
isso ou voc?
      - O que importa?  seu sonho, Rowan, ainda que espero eu a beijasse nele. 
      - Sim - Rowan suspirou e se lanou  em seus braos  - O tipo de beijos que povoam os sonhos. 
      Liam roou os lbios, com suavidade ao princpio. Foi esquentando-os, amaciando-os, at que os separou. Depois aprofundou o toque enquanto a rodeava com um 
brao e lhe acariciava o cabelo preguiosamente. 
      Enquanto o fazia, algo tremeu na memria de Liam tambm. Algo que tinha visto ou desejado alguma vez. E comeou a planar em sonhos junto a ela e a apertou 
mais ainda. Comearam a dar voltas juntos, danando com elegncia ao compasso de seus coraes. Os ps de Rowan j no tocavam o solo. Os sonhos de uma menina romntica 
se foram adaptando s necessidades de uma mulher adulta. O corpo foi esquentando ao mesmo tempo em que o abraava com mais fora, como querendo introduzi-lo em seu 
corao. E lhe ofereceu mais. Ofereceu-se por completo. Tinha visto no sonho. Dzias de velas, aromticas, brancas, acesas sobre candelabros de prata. E uma cama 
iluminada por elas  que Liam a conduziu. 
      O sol j se ocultava, envolvendo seus corpos com nuances de fogo e pintava o cu de mil cores. 
      Os pssaros cantavam nos ramos  luz do crepsculo. 
      - s linda - disse Liam. 
      No teria acreditado normalmente. Mas nesse momento se sentia preciosa. Sentia-se poderosa. Amada. S por um dia, pensou enquanto voltava a beij-lo. Liam 
lambeu seus lbios, como o mais raro vinho tomada em uma tala de ouro, com sede mas sem nsia. Abraou-a sem desespero. Podiam ir devagar. Suas lnguas se uniram 
e enlaaram num baile lento e ntimo, os hlitos se uniram, os sussurros se fundiram. 
      Beijou o pescoo de Rowan, a incitou at que ela inclinasse a cabea deixando a vontade para tocar aquele ponto onde seu pulso latejava. 
      Depois tirou a blusa, leve como o ar. E quando se apoderou de sua pele com as mos e a boca, Rowan se arqueou. Suspirou com ele, moveu-se a seu ritmo enquanto 
o ar flutuava carregado de fragrncias e o vento acariciava seu corpo nu. Abandonou-se ao prazer, rodou com Liam e se levantou sobre ele. Seu corpo era esbelto, 
branco como o mrmore. Tinha o cabelo enredado pelo vento e os olhos cheios de segredos. Cativado, Liam lhe acariciou as coxas, o torso, e juntou as mos sobre seus 
peitos. e notou que o corao lhe palpitava com a mesma violncia que o seu. 
      - Rowan - murmurou ele enquanto os segredos seguiam aflorando nos olhos -  uma bruxa em todos os sentidos. 
      Ela no  sorriu triunfalmente. Agachou-se para apoderar-se de sua boca e, de repente,  Liam percebeu que seu sangue ardia, como o fogo que tinha acendido Rowan 
horas antes. 
      Esta tambm sentiu a mudana, e soube que era ela a causadora. Soube que tinha esse poder.  Desceu o corpo at acolhe-lo em seu interior, jogou as costas para 
trs e viu as estrelas girarem no cu
      Liam agarrou seus quadris e acreditou que o ar lhe faria explodir os pulmes. Rowan o eletrizava com cada movimento, como se seu corpo fosse um relmpago, 
um chicote selvagem de energia que o empurrava e o arrastava com ela. Chegou at a borda da loucura, traspassou-a e ainda foi mais, sem deixar de mover-se sobre 
Liam. Este a chamou, pronunciou seu nome quase sem alento enquanto ambos se extravasavam. E enquanto subiam voando, Rowan viu que os olhos de Liam se iluminavam 
e depois se nublaram de paixo. Gemeu triunfante e tombou sobre ele.
      Nunca tinha permitido que uma mulher tomasse o controle. Agora, enquanto Rowan jazia sobre ele, deu-se conta de que no tinha sido capaz de evit-lo. De dete-la. 
Tinha muitas coisas que no tinha podido evitar com ela. Virou a cabea para o cabelo de Rowan e se perguntou que ocorreria a seguir. 
      Quando ela falou segundos depois, soube-o. 
      - Te amo, Liam -disse com calma, com os lbios sobre o corao dele - Amo voc. 
      
      
       Liam chamou responsabilidade ao pnico que o invadiu. 
      - Rowan... 
      -No tem que me corresponder. Mas no agentava mais guardar isso dentro de mim. Antes me dava medo - mudou de posio e o olhou - No acredito que volte a 
ter medo de nada, nunca. Assim o repito: amo voc, Liam. 
      - Ainda no sabe tudo que deve saber, assim no sabe o que pensa nem o que sente. Nem o que vai querer  -advertiu Liam enquanto se sentava junto a ela  - Tenho 
que explicar mais coisas, ensinar-lhe mais coisas. Ser melhor irmos para minha cabana.
      -De acordo - Rowan tentou de sorrir com naturalidade, apesar do medo que invadia seu corao, anunciando-lhe que a magia tinha acabado por esse dia.
      
     Captulo Doze
      Que mais ele poderia dizer para surpreend-la?, se perguntava Rowan. Tinha lhe dito que era um bruxo, o tinha demonstrado e, de algum modo, tinha conseguido 
que o aceitasse. Depois tinha revelado que tambm ela era uma bruxa, depois de vinte e sete anos sem sequer suspeitar.         Ele tinha demonstrado . E no s tinha 
aceito, como tambm lhe tinha parecido algo maravilhoso. 
      Que mais podia haver? Estava desejando que Liam falasse, mas este no disse nada enquanto caminhavam sob o luar, da choupana dela  dele. Conhecia-o o suficiente 
para saber que quando guardava silncio dessa maneira era porque no queria lhe dizer nada at que estivesse preparada. 
      Quando chegaram ao refgio de Liam e entraram, tinha os nervos a flor da pele. No queria pensar, negava-se a considerar sequer que Liam tivesse assumido aquele 
silncio logo depois que ela confessara seu amor. 
      - to importante assim? -perguntou Rowan num tom to alegre como forado. 
      - Para mim . Voc decidir se o  para voc. 
      Entrou no dormitrio, tocou  a parede da lareira com os dedos e  uma porta se abriu dando lugar a um cmodo iluminada com uma luz tnue, suave e fria como 
raios de lua. 
      - Um compartimento secreto,? 
      - Nada de segredos - corrigiu Liam - Particular. Entre, Rowan. 
      
      O fato de que ingressasse naquele lugar era uma prova da confiana que tinha nela. O cho era de pedra, liso como um espelho, as paredes e o teto, de madeira, 
muito envernizada. A luz se refletia em todas essas superfcies, tremulando como o gua. 
      Tinha uma mesa com uma cumbuca de cristal azul, uma xcara de porcelana, um espelho pequeno e prateada com um asa de ametista. Tambm tinha uma cumbuca com 
cristais de diversas cores e uma bola de quartzo se apoiava sobre as filas de um trio de drages alados. 
      Que veria Liam ao analisar a bola?, perguntou-se Rowan. Que veria ela? Virou-se e viu que Liam tinha aceso algumas velas, cujas chamas ascenderam no ar, carregado 
com um perfume indefinido. 
      Ento viu a outra mesa, uma pequena superfcie redonda sobre um pedestal. Liam abriu a caixa que tinha sobre ela e tirou uma corrente com um amuleto de prata, 
sustentou-a um segundo, como se estivesse pesando-a, e depois a soltou.
      - uma cerimnia? 
      Liam a olhou distrado, como se tivesse esquecido dela. Mas no a tinha esquecido. No tinha esquecido nada. 
      -No. Est descobrindo muitas coisas, no  verdade, Rowan? Me pediu para que no entrasse em sua mente, de maneira que no sei que h dentro dela, que pensa 
sobretudo disto - respondeu ele enquanto lhe acariciava face - Ainda que posso ver em seus olhos. 
      - J lhe falei sobre o que pendo e o que sinto. 
      -Sim. 
      -Ento, quer me explicar o que  isso tudo? -perguntou Rowan enquanto tocava o espelho. 
      - Ferramentas. S ferramentas -contestou Liam - Voc tambm precisar ter as suas. 
      - V coisas na bola? 
      -Sim. 
      - E no te d medo olhar? - perguntou Rowan, esboando um sorriso nervoso  - Acredito que eu ficaria com medo.
      -O que vemos  somente algo que poder acontecer. 
      Rowan dava voltas pelo cmodo. Notava que ia ter mudanas. Seu instinto feminino lhe dizia isso, ou o poder mgico que acabava de descobrir nela. Numa caixa 
de cristal havia mais pedras, minerais, cristais compridos. 
      - Sabia que viria - comentou Liam por fim. 
      No se referia ao local que estavam, em sim ao bosque. E Rowan o entendeu assim. 
      -Sabia... o que ia acontecer? - perguntou esta. 
      -O que podia acontecer. Sempre se pode decidir ao contrrio. Ambos tomamos nossas decises, e temos que tomar mais um. Voc sabe um pouco de seu legado e do 
meu, mas no tudo. Em meu pas, em minha famlia, h uma tradio. No  uma questo de casta, ainda que pudesse parec-lo. O verdadeiro  que cada verdadeiro tempo 
algum tem que assumir a direo da famlia. Para guiar e aconselhar. Para ajudar a resolver confrontos, quando surgem. 
      Liam agarrou a corrente com o amuleto, depois a devolveu ao seu lugar. 
      - Seu pai leva um amuleto parecido: um medalho de ouro. 
      -Sim. 
      - Porque  o chefe da famlia? 
      Era rpida, pensou Liam. E ele era tolo por t-lo esquecido. 
      - Sim , at que eleja a um sucessor. 
      - Voc. 
      - A tradio diz que o amuleto tem de entregue ao filho maior. Mas sempre h uma escolha, e h... condies. Para assumir esse cargo h que ser digno dele. 
      - Seguro que voc . 
      - E deve-se desej-lo. 
      -Voc no o deseja? -perguntou Rowan, surpresa. 
      - Ainda no decidi - Liam meteu as mos no bolso para no voltar a agarrar o amuleto - Vim aqui para ter algum tempo, para pensar e meditar. Quero que seja 
minha deciso. Nego-me  que o destino se imponha. 
      -No ser uma imposio -Rowan sorriu pelo tom solene com que ele tinha falado. Aproximou-se de Liam, mas este ergueu uma mo. 
      - H mais condies. Se me caso, deve ser com uma mulher com sangue de elfo, e o casamento deve ser por amor, no por uma questo de obrigao. As duas partes 
devem casar-se livremente. 
      -Parece justo -disse Rowan - Eu tenho sangue de elfo e j te disse que te amo.
      - Mas se a aceito, minha capacidade de deciso diminui - replicou Liam com um tom frio que atravessou o corao de Rowan como se fosse uma espada gelada. 
      - Tua capacidade de deciso, entendo - Rowan assentiu com a cabea enquanto tratava de recompor os pedaos de seu corao, seu orgulho magoado  - E sua capacidade 
de deciso inclui aceitar-me como parte de seu destino ou repudiar-me para reforar sua idia de que atua com liberdade, no? Digamos que sou um peso na balana 
e tem que decidir em que prato colocar-me para ver para onde se inclina. 
      -No  to simples -replicou Liam, desconcertado pelo tom displicente que ela  tinha empregado - Trata-se de minha vida. 
      - E da minha - apontou Rowan - . Disse que sabia que eu viria, mas eu no sabia nada sobre voc. Assim eu no pude fazer a minha escolha. Apaixonei-me por 
voc , mas voc estava de sobreaviso; estava preparado e tinhas seus prprios planos. Sabia que eu ia am-lo e-o acusou com amargura. 
      - Est enganada.
      -Sim?, quantas vezes leu meus pensamentos?, quantas veio a minha casa em forma de lobo e me escutou falar sobre voc? E a mim no me deste a oportunidade de 
decidir se queria que me espionasse. Sabia que eu cumpria com os requisitos e se dedicou a estudar-me, a examinar-me e valorizar-me. 
      - No sabia! -gritou Liam, irritado pelo modo que ela analisava seu comportamento- Eu no sabia que cumpria os requisitos at que me contou  sobre sua bisav.
      -Para mim  a mesma coisa. Ento, at esse momento esteve brincando comigo, ou decidindo se podia me usar como escapatria, em caso de  decidir recusar o cargo 
e o que o destino tinha anunciado. 
      - Isso  ridculo. 
      - E de repente se inteirou de que estava lidando com uma bruxa. Me desejava... no me cabe a menor dvida de que me desejava, e eu no opus a menor resistncia. 
Aceitei tudo o que voc decidiu me oferecer, sentido-me agradecida. 
      Sentia-se humilhada ao pensar nisso agora, recordar como tinha se lanado em seus braos, confiando-lhe o corao, confiando nele. 
      - Eu me importava com voc, Rowan. Me importo. 
      -Sabe o quo insultante isso ? -perguntou esta, plida, mas com os olhos cheios de ira escura - Sabe o humilhante que  descobrir que sabia que eu estava 
apaixonada por voc enquanto voc pesava os prs e contras e tomava duas decises? Que podia decidir eu?, que me deixaste decidir? 
      - Tudo o que quiser. 
      -No, tudo o que voc quis -replicou Rowan com firmeza - Sabia perfeitamente o quanto eu era vulnervel quando cheguei aqui, quanto perdida eu estava. 
      -Eu sabia. Por isso... 
      -Por isso me ofereceu o trabalho -o interrompeu - E sabendo que eu estava apaixonada de voc, sabendo do muito que eu precisava mudar de vida. Depois, quando 
lhe pareceu um bom momento, me falou sobre quem  e sobre quem eu sou. Ao seu ritmo, Liam, sempre ao seu ritmo. E todos meus movimentos eram tal e como voc os tinhas 
previsto. Para voc foi um jogo a mais. 
      -No  verdade -protestou Liam, com fervor, enquanto agarrava seus braos  - Estava pensando em voc. Fiz o que acreditava que era o melhor. 
      A chacoalhada o lanou trs passos trs. Liam ficou boquiaberto pelo inesperado empurro que Rowan tinha lhe dado com a mente. 
      - Maldio, Rowan! - prosseguiu ele. 
      - Eu tambm no quero o que o destino me imponha -as pernas tremiam ao perceber que empurrara Liam com o poder da mente - . Isto no  o que voc esperava, 
uma de suas malditas possibilidades. Imaginou que eu ia vir aqui esta noite, que ia escut-lo e depois cruzaria os braos, inclinaria a cabea e o deixaria tudo 
em tuas mos. 
      Os olhos brilhavam e a face, no estavam mais plidas  , e sim rubras pela clera. 
      -No exatamente -respondeu Liam com dignidade  - Mas depende de mim. 
      - Voc que acha! Voc ter que decidir o que quer, certamente; mas no espere que eu me sente mansamente enquanto voc elege se me aceita ou me recusa. Sempre, 
toda a vida, a pessoas tomaram as decises importantes por mim, escolheram o tipo de vida que eu  deveria levar. E voc fez o mesmo. 
      - Eu no sou seus pais - replicou Liam  - Nem Alan. As circunstncias so totalmente diferentes. 
      - Sejam qualquer sejam as circunstncias, voc tinha o controle e esteve me manejando. No vou tolerar que siga fazendo isso. Fui comum -reconheceu Rowan a 
seu pesar -Voc no pode entender, porque nunca foi. Mas eu fui uma mulher comum e submissa durante toda  a minha vida. E no voltarei a ser. 
      - Rowan - Liam optou pela calma, tratou de raciocinar - O que eu queria para voc  o que voc mesma queria. 
      - O que eu mais queria era que me amasse. A mim, Liam,fosse quem fosse e como fosse - respondeu ela enquanto os olhos se enchiam de lgrimas. 
      -No chore, Rowan - pediu ele, desarmado - Nunca quis lhe fazer mal - assegurou. 
      Liam segurou uma de suas mos e ela deixou esta ali como um peso morto.
      -Agora tenho certeza que no me ama -respondeu com calma. A fria tinha passado, s se sentia cansada - E isso, porm,  o mais triste. E faz de mim mais pattica. 
Eu lhe disse que te amava e voc ...sabe que  verdade. Mas voc no pode dizer o mesmo, porque no decidiu... se encaixo em seus planos. A partir de agora decidirei 
meu prprio destino. E voc decidir o seu - sentenciou com a voz trmula, mas engolindo as lgrimas para preservar um pouco de orgulho. 
      -Aonde vai? - perguntou Liam, aterrorizado, quando viu que Rowan se dirigia  sada. 
      - Aonde eu quiser - contestou esta, girando-se para encar-lo - . Fui sua amante, Liam, mas voc nunca chegou a considerar-me sua mulher, seu igual. E no 
penso em me conformar com menos. Nem sequer por voc. Tinha meu corao em suas mos e no soube o que fazer com ele. Pois posso dizer, sem necessidade de bolas 
mgicas nem de poderes sobrenaturais, que nunca ter outro igual. 
      Enquanto ia embora, Liam soube que no s era uma profecia, como tambm que era a verdade.
      
      
      
      Demorou uma semana para arrumar as questes prticas. So Francisco no tinha mudado nos meses que tinha passado fora, nem nos dias que levava ali. Mas ela 
sim. 
      Agora podia olhar pela janela e compreender que no era a cidade o que a tinha feito infeliz, e sim o lugar que ela ocupava ali. No acreditava que fosse ficar 
, mas pensou que poderia dar uma olhada  para atrs e recordar... coisas boas e ruins. A vida era a soma de ambas. 
      - Est certa de que est fazendo o correto, Rowan? - perguntou Belinda. Era uma mulher elegante, de cabelo castanho, baixinha e de olhos verdes. 
      - No, mas vou fazer de todos os modos - disse ela enquanto olhava o rosto preocupado de sua amiga. Rowan tinha mudado, pensou Belinda. No cabia dvida de 
que estava muito mais forte, nem de que estava muito magoada. 
      - Me sinto responsvel. 
      -No -assegurou-a Rowan com firmeza enquanto metia uma malha na mala - . No tem nenhuma culpa. 
      Belinda se aproximou da janela. O dormitrio estava quase vazio. Sabia que Rowan tinha presenteado muitas de suas coisas e empacotado outras muitas. Ao dia 
seguinte j no estaria. 
      -Eu a mandei para l. 
      -No, fui eu  que se perguntei se podia ir a sua choupana. 
      - Podia ter lhe falado de certas coisas. 
      -No era voc quem devia ter falado. 
      - Devia ter imaginado que Liam ia ser to burro... -Belinda franziu o cenho -Deveria saber. Conheo-o a vida toda. E no acredito que tenha pessoa mais renitente 
sobre a superfcie da terra... Ainda que grande parte de sua teimosia se deva ao muito que se preocupa. 
      - No tem que me explicar como  Liam. Se tivesse confiado em mim, se tivesse acreditado em mim, as coisas talvez fossem de outro modo - respondeu Rowan enquanto 
tirava a ltima pea do armrio -: - Se me amasse, tudo seria diferente. 
      -Tem certeza de que no te ama?
      - Decidi que a nica coisa que posso ter certeza  de mim mesma.  a coisa mais valiosa e dura que aprendi enquanto estava fora. Quer esta blusa? Nunca ficou 
bem em mim. 
      - Vai mais com meu estilo - Belinda se aproximou de Rowan e colocou uma mo sobre seu ombro  - Falou com seus pais? 
      -Sim. Bem, tentei-respondeu Rowan enquanto dobrava algumas  calas  - Num sentido foi melhor do que tinha esperado. Ao princpio estavam irritados e assustados 
por minha viagem, por deixar de dar aulas. Como  lgico, mostraram todos os perigos e as conseqncias. 
      - Lgico - repetiu Belinda com secura. 
      - No podem evitar. Mas conversamos por muito tempo. Acredito que nunca tnhamos falado assim antes. Expliquei  por que ia, que queria fazer e por que... bom, 
no todo o porqu. 
      -Sua me no quis saber sobre tudo? 
      -Ao final no pude explicar. Mencionei minha av, falei do legado e do por que me chamou com o mesmo nome dela. Minha me no mordeu o isca -disse  Rowan - 
No quis tocar no tema.  como se nunca soubesse e  nem suspeitado. O que corre por meu sangue, e pela seu, no existe para ela. 
      -Assim deixou as coisas como eram? 
      - Por que ia pression-la com algo que a faz sentir incmoda ou infeliz? -Rowan levantou as mos - Eu estou contente, e isso j basta. Para que serviria eu 
ter tentado derrubar todas as barreiras que ela se imps? 
      - De nada. Fez o que era correto, para voc e para sua me. 
      - O que importa  que, ao final, meus pais compreenderam, dentro do que cabe, as decises que tomei. Porque, no fundo, a nica que querem  que eu seja feliz. 
      - Amam voc. 
      - Sim, mais do que eu tinha pensando - Rowan sorriu  - Fico feliz em saber que Alan esteja saindo com uma professora de Matemtica. Minha me acabou me confessando 
que tinham jantado com eles algumas vezes e que fazem um casal estupendo. 
      - Talvez tudo d certo - disse Belinda. 
      -  meu  desejo de corao.  um bom homem e se merece ser feliz. 
      - Voc tambm. 
      -Sim,  verdade -Rowan olhou ao redor pela ltima vez antes de fechar a mala - E vou tentar de verdade. Estou emocionada, Belinda. Nervosa, mas emocionada. 
Ir para Irlanda assim, sem passagem de volta, sem saber se ficarei nem aonde irei nem o que farei.  excitante. 
      - Ir primeiro ao Castelo dos Donovan, em Clare?, Para ver os pais de Morgana, Sebastian e Ana? 
      - Sim. Agradeo-a por ter me posto em contato com eles. 
      -Eles gostaro de voc, e voc gostar deles. 
      - Eu espero que sim. E quero aprender mais - disse Rowan  - Quero aprender muito mais. 
      -Ento aprender... Vou sentir sua falta, prima - Belinda lhe deu um abrao e depois correu para a sada - Vou embora antes que comece a chorar. Chama-me, 
escreve-me, assobia. Faa o que quiser, mas mantm o contato. 
      - O farei - Rowan a acompanhou at a porta e lhe deu um ltimo e forte abrao - Deseje-me sorte. 
      - Isso e mais. Amo voc, Rowan - se despediu Belinda, quase chorando.
      Rowan fechou a porta, tambm comovida, deu meia volta e olhou. No ficava nada, pensou. Nada que fazer. No dia seguinte partiria. Tinha famlia na Irlanda, 
razes. E j era hora de explor-las e de explorar-se a si mesma. 
      O que tinha aprendido lhe serviria de base para seguir crescendo e ainda que se lembrasse de Liam e sentisse sua falta, sabia que tinha tomado a deciso correta. 
Podia viver magoada, mas no conviver com algum que no tinha confiado nela. 
      Ento chamaram  porta. Ao princpio se sobressaltou, mas depois sups que seria Belinda outra vez. 
      No entanto, a mulher que se encontrou ao abrir a porta era uma desconhecida, bela e elegante. 
      - Oi, Rowan. Espero no incomod-la -disse com acento irlands. 
      -No, em absoluto -respondeu -Passe, por favor, senhora Donovan. 
      -No estava certa se seria bem recebida -contestou a mulher, sorridente  - Tendo em conta a tolice que meu filho fez. 
      - Fico feliz em conhec-la. Sinto... no posso lhe oferecer  uma cadeira. 
      - J estou saindo. Bem, darei isso a voc como um presente de despedida - a mulher lhe entrego uma caixa de madeira - E em agradecimento pelo desenho de Liam. 
 o material que queria para testar em suas pinturas. 
      -Obrigada,-Rowan tomou a caixa -Me surpreende que queira ver-me, tendo em conta que Liam e eu... discutimos.
      -Ah -a mulher fez um gesto com a mo, como se aquilo no fosse muito importante  - J discuti com ele o suficiente para saber que  impossvel no faze-lo. 
 muito cabea-dura. Mas seu corao no  to duro... Perdo, no pretendia faze-la se sentir incmoda - adicionou ao ver que Rowan desviava o olhar.
      -Tudo bem -Rowan deixou a caixa sobre a mesa da cozinha americana -  seu filho e o ama. 
      - Sim, amo-o muito. Com todos seus defeitos -a mulher colocou uma mo sobre o brao de Rowan, delicadamente - Sei que a magoou e sinto muito por isso.  Deveria 
dar-lhe uma boa bofetada! - exclamou de repente, com uma mudana de humor que fez sorrir a Rowan. 
      - Lhe deu alguma? 
      -Alguma bofetada? -desta vez foi Arianna que riu - Com Liam no h mais concerto. Nunca foi um garoto fcil. Saiu a seu pai, ainda que Finn diz que tem meu 
gnio.. Mas se uma mulher no tem carter, os homens passam por cima delas... Oh, ainda o ama! No quis olhar para no a ofender, mas se  em sua expresso - acrescentou 
com os olhos povoados de lgrimas depois de ver a expresso de Rowan. 
      -No importa. 
      Mas antes de que pudesse das as costas, Arianna  agarrou suas mos e lhes deu um aperto carinhoso. 
      - O amor  a nica coisa que importa, e  o suficientemente inteligente para saber. S vim como me, sem mais direitos do que os de uma me, com o corao 
de uma me. E Liam est sofrendo. 
      -Senhora Donovan... 
      - Arianna. A deciso  sua, mas deve saber. Tambm est sofrendo e  sente  sua falta. 
      - Liam no me quer. 
      -Se no a quisesse no teria cometido tantos erros estpidos. Conheo seu corao, Rowan - disse Arianna com singeleza - E  seu se o aceitar. No digo porque 
queira que ocupe o lugar de seu pai. Teria dado as boas vindas a qualquer pessoa a quem ele amasse. No d as costas a sua prpria felicidade s por uma questo 
de orgulho. Sempre sentiram frio longe um do outro. 
      - Est pedindo para voltar para ele. 
      - Estou lhe pedindo que escute seu corao. Nem mais nem menos. 
      Rowan cruzou os braos e esfregou os cotovelos enquanto dava voltadas pelo apartamento. 
      - Ainda o amo. Sempre o amarei. Parte de mim o reconheceu assim que o vi. E lhe entregue meu corao.
      - E ele no o apreciou como deveria, porque tinha medo. 
      - No confiava em mim. 
      -No, Rowan, no confiava nele mesmo. 
      -Se me ama... -s pensar nisso a fazia se sentir vulnervel, desse modo balanou a cabea e deu-lhe as costas - Ter que me dizer. E ter que me aceitar de 
igual a igual. No me conformarei com menos. 
      Arianna esboou um doce sorriso. 
      -Mas voltar a v-lo? -lhe perguntou esperanosa. 
      -Sim -Rowan suspirou - Me ajudar?
      
      
      
      O lobo corria pelo bosque, como tentando vencer  noite. A lua crescente mal iluminava, mas seus olhos viam na escurido. Seu corao estava pesado. Tentava 
dormir o menos possvel, pois sempre sonhava com ela, por mais do que tentasse impedir.
      Quando chegou aos alcantilados, jogou a cabea para atrs e uivou. Enquanto o uivo ressoava no silncio, o lobo lamentava o que tinha perdido por sua prpria 
culpa. Tentava culp-la . E o conseguia. Com freqncia. 
      Como homem e como lobo, sua mente trabalhava para encontrar modos de jogar a culpa sobre ela. 
      Tinha sido impulsiva demais, tinha se precipitado. Tinha lanado seus argumentos de volta a ele. Tinha se negado a ver a lgica de tudo que ele tinha feito. 
      Mas essa noite no conseguia se engana-. Afastou dos alcantilados, martirizado por no poder deixar de almej-la. Ouviu em sua cabea que o amor se aproximava, 
mas no prestou ateno, rosno e seguiu correndo. 
      Conquistou as sombras. Cheirou o ar, voltou a rosnar. Sentia o cheiro de Rowain. Sua mente estava fazendo brincadeiras com ele, pensou furioso por sua fraqueza. 
Rowan o tinha abandonado, ponto final. 
      Ento viu a luz, um brilho dourado atravs das rvores. O lobo se aproximou ao crculo de pedras, entrou... e a viu de p, no centro. E ficou imvel. Usava 
um vestido longo, prateado, que lhe danava em torno dos tornozelos. Os cabelos  caam soltos sobre seus ombros, enfeitado com jias da cor da lua. Tambm tinha 
prata em seus pulsos, e em suas orelhas e um medalho pendurado no pescoo sobre o vestido. Um medalho ovalado, de ouro, com o borda de prata .
      Estava frente ao fogo que tinha feito. Ento lhe sorriu. 
      - Est esperando que te d uma bofetada, Liam? - perguntou ela enquanto os olhos do lobo se inflamavam. 
      Este adotou forma humana e se aproximou dela. 
      - Foi embora sem dizer uma palavra. 
      -Pensei que tnhamos falado o suficiente. 
      -Mas voltou. 
      -Isso parece -Rowan ergueu uma sobrancelha com frieza estudada, apesar dos nervos revirassem seu estmago - Usa o amuleto. Ento decidiu. 
      - Sim. Assumirei minha obrigao quando chegar o momento. E voc leva o seu. 
      - O herdei de minha bisav -Rowan fechou os dedos em tomo da pedra e sentiu que seus nervos se apaziguavam  - Aceitei-o, como aceitei a mim mesma. 
      -Vou voltar para Irlanda -disse Liam, e fechou as mos em punho para conter a vontade de acarici-la. 
      -Verdade? -perguntou Rowan com rapidez, como se no significasse nada para ela - Eu estava pensando em ir para l tambm esta manh. Por isso pensei que devia 
voltar e terminar com isto antes. 
      - Ia para a Irlanda? - repetiu Liam com o cenho franzido. Quem era essa mulher to fria?, perguntou-se. 
      - Quero ver de onde venho.  um pas pequeno - Rowan deu os ombros - Mas o suficientemente grande para que no tenhamos que cruzarmos. Se isso  o que quer. 
      -Quero que volte -respondeu Liam sem poder deter as palavras. Amaldioou e meteu as mos nos bolsos. Tinha falado. Tinha se humilhado, mas no o importava 
mais - Quero que volte - repetiu. 
      -Para que? 
      -Para... -Liam alisou o cabelo- . Por que acha? Assumirei a direo da famlia e quero voc ao meu lado. 
      - No  to simples. 
      Liam esteve tentado a responder no mesmo instante, mas compreendeu que sua contestao teria sido acalorada demais e se conteve.
      - Certo, a magoei. Desculpe-me. Nunca foi minha inteno e peo perdo. 
      - timo ento!. J posso me lanar aos seus braos. 
      - Que quer que eu diga? - perguntou ele, surpreendido pela mordacidade de Rowan - Cometi um erro... mais de um. Ainda que no goste de reconhec-lo. 
      -Pois vai ter que o fazer. Ficou tempo demais decidindo se eu serviria para seus propsitos... depois de ter decidido o que queria. Quando no sabia sobre 
minha herana, se props a aceitar-me e assim se esquivar de uma responsabilidade que no sabia com segurana se queria. Depois decidiu se me aceitava ou no. 
      - As coisas no so brancas ou negras- contestou Liam. Depois suspirou, sabedor de que em certas ocasies as zonas cinzas no importavam  - Ainda que sim, 
mais ou menos. Teria sido um passo muito grande em qualquer caso. 
      - Para mim tambm - replicou ela, enfezada  - Mas parou para pensar em isso? 
      - No vai embora - pediu Liam quando girou o corpo dando-lhe as costas. Rowan no tinha tido inteno de faz-lo. 
      S se tinha girado para andar um pouco e relaxar. Mas o tom desesperado de Liam a amaciou.
       -Por Deus, Rowan, no me deixe outra vez! Sabe como me senti quando fui procur-la na manh seguinte e vi que te tinha ido embora?, sem mais? A casa estava 
vazia, mas cheia de voc. Quis procur-la, procur-la e traze-la  ainda que fora  fora. 
      - Mas no o fez. 
      -No -Liam a encarou - Porque tinha razo. Eu tinha tomado todas as decises. Voc escolheu ir embora e eu no tinha mais remdio a no ser aceitar isso. Agora 
a peo que no volte a me deixar, que no me faa viver com isso. Voc  importante para mim. 
      - Sou? - Rowan ergueu ambas sobrancelhas -  muito pouco para o muito que me pede. 
      - Me preocupo com voc. 
      - E eu me preocupo com o cachorro de minha vizinha. No  o bastante, assim se isso  tudo... 
      - Te amo. Maldio!, sabe perfeitamente que te amo - Liam agarrou uma de suas mos. Nem o gesto nem o tom de voz tinham sido amorosos em absoluto.
      - Decidimos que eu no tinha o poder de ler os pensamentos dos outros, sendo assim, por que ia saber o que voc no diz? 
      - Estou dizendo agora. Droga voc tambm no escuta? -replicou Liam descontrolado  - Quis lhe dizer desde do princpio. Dizia  a mim mesmo que no... que no 
podia am-la at que tomasse a deciso. Cheguei a enganar-me e a acreditar na minha prpria mentira, mas sempre a amei.
      Aquelas palavras apaixonadas a fizeram resplandecer como um arco ris. Quando foi falar, em resposta, Liam a soltou e comeou a dar voltas como o lobo em que 
costumava transformar-se. 
      -E no gosto -prosseguiu ele - No tenho obrigao de am-la. 
      -No -Rowan se perguntou por que se sentia mais lisonjeada do que insultada. E  lhe ocorreu que isso lhe dava um grande poder sobre ele - No est sendo forado 
a nada. E eu tambm no. 
      - Antes de conhece-la estava contente com minha vida. 
      - No, no  estava - contestou Rowan  - Estava inquieto, insatisfeito e um pouco aborrecedor. Igual a mim. 
      
      
      - Voc era infeliz e, pelo que disse,  como se pensasse que deveria ter me aproveitado disso; que deveria ter me deitado com voc  primeira mudana, ter 
dito coisas para as quais no estava preparada e t-la levado para Irlanda. Mas no fiz e no me arrependo disso. Ainda que eu possa t-la enganado, tanto voc como 
eu precisvamos tempo. Quando eu ai at voc em forma de lobo era para fazer-te companhia, como um amigo.  verdade, a vi nua, mas, por que no ia t-lo feito? E 
quando fazamos amor em sonhos, no era eu o nico que desfrutava. 
      -No me lembro de ter dito o contrrio -contestou Rowan em tom desafiante, erguendo o queixo - Ainda assim, voc tomou a deciso de entrar em meus sonhos. 
      - Sim, E voltaria a tom-la para toc-la outra vez, ainda que s seja com a mente. Para mim no  fcil reconhecer que a desejo tanto. Dizer que sofri estando 
sem voc. Nem pedir que me perdoe por fazer o que acreditava que era correto. 
      - Ainda tem que me dizer o que espera de mim agora. 
      - Acredito que fui bastante claro -respondeu Liam, frustrado  - Quer que suplique? 
      - Sim - respondeu depois de pensar um segundo, com suma frieza.
      Os olhos de Liam brilharam, primeiro de assombro e depois de raiva. Quando se aproximou dela, Rowan sentiu as pernas trmulas. Mas, de repente, ele se ajoelhou. 
      -Ento o farei - Liam agarrou suas mos  - Suplico que fique comigo, Rowain.
       - Liam... 
      - Se tenho que me humilhar, ao menos no me interrompa -murmurou ele - No acredito que tenha sido sem graa. Nem acredito que tenha podido ser fraca em sua 
vida. O que vejo ao olhar para voc  uma mulher com um corao terno e generoso... . generoso demais para pensar em voc em certas ocasies.  a mulher que necessito. 
J quis antes,  outras, mas nunca precisei de nenhuma. Preciso de voc. Apreciei outras mulheres, mas nunca as amei. E eu te amo. Espero que isso seja suficiente, 
Rowan. 
      Esta ficou muda. 
      - Por que no falou antes? -perguntou quando por fim encontrou a voz. 
      - Porque  difcil para mim declarar-me. Se  arrogncia,  assim que sou. Mas te peo que me aceite como sou. Voc me ama. E sei. 
      J tinha suplicado o suficiente, pensou Rowan, que teve que se conter para no sorrir: apesar de estar de joelhos, Liam continuava parecendo arrogante e feroz. 
      - Nunca disse que no. Me pede algo mais? 
      - Te peo tudo. Peo que aceite o que sou e o que vou fazer. Que seja minha esposa, deixe sua casa pela minha e que entenda que ser para sempre. Para sempre, 
Rowan - repetiu Liam com um sorriso singelo  - Porque os lobos se emparelham de por vida, e eu tambm. Estou  pedindo a voc que compartilhe essa vida, que me deixe 
compartilhar a sua. Estou pedindo aqui, no corao deste crculo sagrado, que me pertena. 
      Beijou suas mos e no separou os lbios at que Rowan sentiu que as palavras se transformavam em sentimentos e os sentimentos a invadiam magicamente. 
      - No terei  outra que no seja voc -prosseguiu Liam - Disse que tinha seu corao em minhas mos e que nunca teria outro igual. Agora  digo que voc tem 
o meu nas suas, e juro a voc que nunca ter outro igual. Ningum te amar mais, nunca. Voc decide, Rowan.
      Esta o olhou, viu como Liam levantava a cabea para ela, como a fogo que ele tinha ensinado a acender se iluminava. No precisava ler seus pensamentos para 
nada. Tudo o que queria , refletia em seus olhos. E tomou a deciso. Rowan se ps de joelhos para estar a sua altura e falou: 
      - Te aceito, Liam, como voc aceita a mim. E no me conformarei com menos nunca. Compartilharemos a vida que juntos faamos . Te pertencerei como voc me pertencer. 
Essa  minha deciso, e minha promessa. 
      - Deus!, senti sua falta a cada hora do dia. Sem voc no tenho magia, no sinto o corao - disse  Liam, embargado de emoo, apoiando sua testa sobre a dela. 
Rowan o beijou e o abraou, respondendo com seu amor a todas as suas perguntas. 
      Liam se ps de p, levantou-a em seus braos, e ela se comeou a rir alegremente. Ergueu as mos e viu uma estrela fugaz sulcando o cu. 
      -Volta a dizer-me! -lhe pediu - Agora! 
      - Te amo -disse ele - Agora... e sempre. 
      Rowan o abraou at notar o corao de Liam contra o seu. 
      - Liam Donovan, me concede um desejo? -lhe perguntou sorridente. 
      -Rowan Murray de O'Meara, pode pedir-me o que quiser. 
      - Leve-me para a Irlanda. Leve-me para casa. 
      -Agora, meu amor? -disse Liam, cheio de felicidade.
      - Pela manh - Rowan o abraou ainda mais forte - . Ainda  cedo. -e quando se beijaram frente ao fogo, sob o brilho do cu constelado, as fadas danaram no 
bosque. Nas colinas longnquas, as gaitas soaram para celebrar a unio, e a magia ressoou no corao do bosque. 
      O amor j no tinha que se aproximar, tinha chegado a seu destino. 
      
